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24 de setembro de 2011

262-De Campo em Campo-Conversas com o comandante Bobo Keita

Foi hoje no Porto, na UNICEPE, Cooperativa Livreira de Estudantes, o lançamento do livro de Norberto Tavares de Carvalho:

O jornalista Jorge Ribeiro apresentando o livro

O Norberto contando sobre Bobo Keita











Assistência... e simpatia.
-o-

Muitos ex-combatentes portugueses da guerra colonial na Guiné têm retratado por escrito as suas vivências, a maior parte com visão pessoalista do que lá passaram, mas vários com a noção de enquadramento dessa experiência ingrata no contexto da vida e do regime vivido, então, em Portugal, e alguns até com notável cunho literário. Há muitos livros. Também no ciberespaço se encontram muitos blogues individuais com relatos de situações, transcrição de histórias das companhias, blogues colectivos com relatos, opiniões, interpretações. Todos com montes de fotografias. Há quem diga que é a catarse das angústias e perplexidades que marcaram uma juventude, mas eu vejo mais que é, como disse Rui de Azevedo Teixeira, "tempo de maturidade e apaziguamento".
O certo é que, com horizontes mais restritos ou mais amplos, é a história contada pelos seus intervenientes. E a iniciativa do Norberto Ta­vares de Carvalho, e a aceitação dela por parte do Bobo Keita, abre um caminho muito pouco percorrido "pelo outro lado": serem os combatentes do PAIGC a contarem também o que fizeram, o que viram, o que viveram durante a guerra, darem-nos a sua visão dos factos e situações. Luís Cabral escreveu, Pedro Pires também, mas foram dirigentes de topo com visão mais ampla, têm mérito como factores e descritores da história sem dúvida. Mas o guerrilheiro e comandante no terreno Bobo Keita, habitante das matas e bases de guerrilha, parece-se mais com os portugueses que também calcorrearam as mesmas matas e foram atacados nos seus quartéis.
Era bom que houvesse mais outros a fazer o que ele fez. Muita da história ficará por contar, vai-se perder quando morrerem os velhos guerrilheiros. Em Abril de 2006 fui à Guiné-Bissau e, entre outras coisas, quis conhecer pessoalmente o comandante Lúcio Soares (o encontro com ele contei aqui). É que, era eu alferes, tínhamos andado os dois aos tiros, eu dum lado e ele do outro. Eu atacava a base dele em Sinchã Jobel e ele atacava os nossos destacamentos. Através de um amigo comum, o Pepito, consegui marcar um almoço com ele no Colete Encarnado em Bissau. Foi interessante,
Os dois maduros e apaziguados. Soubemos que eu tinha 21 anos e ele 23 quando lutámos nesse período da guerra. Também me disse que estava em Cabo Verde aquando do golpe do Nino Vieira em 1980, fiquei agora a saber que também sucedeu com Bobo Keita. "Estás a brincar. eu estou a escrever o meu livro!" disse-lhe este quando interrogou o Lúcio Soares sobre o apelido da Quinta da Costa, como vem na entrevista. Talvez tenha sido depois deste meu encontro no Colete Encarnado ... Se tivesse sido antes, pode ser que eu conseguisse o que lhe pedi: que me contasse a versão dele de situações em que estivemos os dois.
Não consegui, com pena minha.
Não é fácil. Os portugueses, salvo raras excepções, escreveram livros e textos sobre a guerra só depois do 25 de Abril, já sem pressões, condicionamentos ou receios. Na Guiné-Bissau, com todas as complicações e convulsões ainda não apaziguadas, infelizmente, creio que se mantêm os receios. Sinal disso, parece-me, são as reticências e palavras vagas nas respostas do Bobo Keita às perguntas sobre o Nino, menos quando fala das diferenças entre as chefias da Frente Sul e as da Frente Norte, os peitos vermelhos, porque é uma questão de orgulho pessoal. Mas há outra razão, é claro: a tradição oral da generalidade do povo guineense, nomeadamente os mais velhos. O colonialismo, desprezando a educação dos gentios, contribuiu para a continuação dessa generalização e para que, agora, só as camadas mais intelectualizadas, mais jovens sobretudo, possuam outros meios de expressão. Nestas circunstâncias, de louvar o que fez o Norberto Tavares de Carvalho: ganhar-lhes a confiança e, de gravador na mão, ouvi-los falar. Quanto a Lúcio Soares, tenho esperança que a filha dele, que é formada em comunicação social, se disponha a fazer isso.
Para quem, durante a guerra colonial, lutou "do outro lado" a leitura destas memórias do Bobo Keita tem um interesse muito especial. Porque estive em Cantacunda, em Banjara e na "base do Gazela" (que substituiu em Sinchã Jobel o Lúcio Soares quando este foi para o Morés), porque estive em Barro, na zona norte, entre Ingoré e Bigene. Revejo-me em muitas situações por ele contadas, pois passou também por esses locais. 

15 de setembro de 2011

253-"De Campo em Campo", entrevista a Bobo Keita, comandante do PAIGC

UNICEPE
Praça Carlos Alberto, 128-A 
4050-159 PORTO

2011-09-24, sábado, às 16h00: 
apresentação do livro DE CAMPO EM CAMPO, de Norberto Tavares de Carvalho
 (conversas com o Comandante do PAIGC Bobo KEITA ). 

Apresentação feita por JORGE RIBEIRO

DE CAMPO EM CAMPO 




Trata-se de uma empolgante narrativa da guerra colonial, por alguém que a viveu de corpo e alma, do primeiro ao último momento. Futebolista nato, Bobo Keita cruzou-se no estrangeiro com o Presidente Kwame Nkrumah do Gana, do qual ouviu a mensagem que o preparou para os lances que iria efectuar no campo político. Respondendo ao apelo de Amílcar Cabral, foi com elegância e convicção que fez a sua preparação militar no ex-bloco comunista.

Calculista, cedo entendeu que os amuletos não passavam de meras fantasias e passou a interessar-se pelos conhecimentos e técnicas mais ligados à lógica. " Não ouves o zumbido da bala que te ceifa a vida porque a sua velocidade é superior à do som." Foi assim que o ex-futebolista se formou como militar no emaranhado de trepadeiras e lianas que formam o traiçoeiro solo da Guiné-Bissau. Lutou no Norte e no Leste, comeu ratos e macacos, bateu-se como um leão, foi ferido mas nunca perdeu o ânimo. Sobretudo depois da morte de Cabral. O domínio aéreo, outrora da exclusividade do exército português foi suplantado com o míssil Strella e o Grad. Com esses engenhos, o PAIGC começou o abate de caças portugueses nos céus da Guiné; a supremacia dos ares mudou de campo. Último Comandante a entrevistar-se com o Amílcar Cabral poucas horas antes da sua morte, Bobo Keita participou na captura do assassino e na libertação de Aristides Pereira. A morte do líder intensificou os campos de batalha até que no dia 25 de Abril de 1974, deu-se o golpe de estado em Portugal, antecedente lógico que permitiu o desanuviameneto tanto esperado. Membro da delegação do PAIGC que participou nas negociações de Londres e de Argel, Bobo Keita afirma que o ambiente entre as duas delegações não foram sempre tão cordiais como se pretendeu.

Para ilustrar um desses momentos de tensão, foi quando perante um impasse a delegação do PAIGC anunciou que ia regressar e retomar a guerra. O Dr Mário Soares teria elevado a voz frisando bem alto : "Guerra, guerra, vocês só pensam é na guerra...!". Com a assinatura dos Acordos de Argel os homens de Cabral regressaram efectivamente mas para preparar a fase de transição da retirada do exército português. Foi assim que no dia 13 de Outubro de 1974, Bobo Keita escoltava, com o devido brio e respeito, o último Governador Colonial da Guiné, o Brigadeiro Carlos Fabião que ia apanhar o avião que o conduziria a Portugal. A cena marcou o fim da guerra colonial na Guiné e também o fim desta empolgante narrativa

O Autor (por ele próprio)

Nasci na Guiné-Bissau onde fiz os meus estudos primários, secundários e universitários. Em Novembro de 1972, estudantes travaram-se de razões com o General António de Spínola. Pus-me logo à cabeça do movimento. Do palácio do Governador fui conduzido à prisão da PIDE/DGS. Solto, criei a minha célula juvenil paralelamente às minhas actividades no seio de militantes do PAIGC que operavam em Bissau. Preso em Maio de 1973, fui condenado a 3 anos de trabalhos forçados. O "25 de Abril" restituiu-me a liberdade. Pude então dar corpo às minhas tendências poéticas e literárias. Participei na primeira Antologia dos poetas da Guiné-Bissau. Chefe do Departamento da Cultura da Juventude Africana Amílcar Cabral (1977-1980), Chefe dos Serviços da Migração (1978-1980), fui preso na sequência do golpe de estado do 14 de Novembro de 1980 na Guiné-Bissau. Apôs 36 meses de isolamento e 6 meses de trabalhos forçados, fui libertado. Com o pretexto de retomar os meus estudos universitários interrompidos, em 1983 abandonei o meu país e emigrei-me para a Suíça. Diplomado no Instituto dos Altos Estudos Especializados de Genebra, professor e Master Europeu em Mediação, trabalho como funcionário e faço parte da lista dos Mediadores
Civis do Estado de Genebra. Sou fundamentalmente Combatente da Liberdade da Pátria.








BOBO KEITA