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17 de outubro de 2011

279-Um livro sobre a ARA


Da contra-capa:

A ARA foi uma organização criada pelo PCP para a luta armada contra a ditadura fascista. Activa entre 1970 e 73, realizou acções armadas com grande impacto político, algumas tão espectaculares como a do comando que penetrou na Base Aérea 3, em Tancos, em 1971 e destruiu ou danificou 28 aviões e helicópteros.
Este livro é a narrativa, ao vivo, de cada uma das acções da ARA, do secreto e tormentoso processo da sua criação, da furiosa perseguição desencadeada pela PIDE e também de como um clandestino viveu os últimos dias da ditadura e se deslumbrou com essa inolvidável explosão de alegria de um Povo que foi o 25 de Abril de 1974.
Não é um ensaio político nem uma enumeração de factos. É o registo - por quem a viveu - da luta abnegada, das aventuras, medos, raivas, coragens, de homens e mulheres com nome e rosto, quase todos ainda vivos, e que andam por aí, na la­buta do dia a dia, iguais a todos os outros, iguais a todos nós.
«Quem não viveu aqueles tempos ... aqueles tempos de PIDE e Tarrafal, de Mocidade Portuguesa e saudação fascista de braço no ar, de Censura Prévia e Cardeal Cerejeira a abençoar Salazar, de exílio e sindicatos proibidos, de exploração desme­dida e perda do emprego por razões políticas, de banimento da função pública e da Universidade ... Tempos em que uma telefonista não podia casar para não prejudicar o trabalho ou se casasse perdia o emprego; em que um oficial das forças armadas só podia casar com uma mulher que os superiores considerassem digna da sua classe. Tempos em que as mulhe­res não podiam votar nas eleições fantoches e o chefe de família era o dono da mulher e o dono dos filhos. Quem não viveu esses tempos de medo, de pobreza, exploração, arbítrio e mesquinhez não consegue avaliar. E sem saber isto, pode até pensar que as pessoas que iam para a clandestinidade eram heróis, loucos ou mártires quando na realidade eram pessoas como as outras. Talvez mais informadas, mais indignadas ou mais trituradas pela engrenagem.» 
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Ver aqui também o que foi a ARA e os seus operacionais

13 de outubro de 2011

276-O que foi a ARA

Extraído do livro "As Explosões que Abalaram o Fascismo", Jaime Serra, Editorial Avante SA, Lisboa, 1999:

«...

1.   Objectivos e princípios orientadores

A ARA não se propôs substituir a luta dos demo­cratas, dos trabalhadores, da juventude e das massas populares contra o fascismo e contra a guerra colo­nial. A ARA propôs-se, sim, conduzir a sua activi­dade no quadro dessa luta, desencadeando acções violentas contra o aparelho de Estado fascista e contra a máquina de guerra colonial, de modo a en­fraquecê-los e desorientá-los psicologicamente, esti­mulando desse modo a luta do povo português pelo derrubamento do fascismo e a luta dos povos colo­niais pela sua libertação.
Recorrendo à violência revolucionária, a ARA teve como objectivo contribuir para a criação de con­dições que, no desenvolvimento da luta política geral, conduzissem à insurreição popular armada que defendíamos, como foi, de certo modo, a Revolução de Abril de 1974.
Na sua actividade revolucionária, a ARA orientou­-se por princípios muito rigorosos e regras muito cla­ras, tais como:
1.º - Seleccionar apenas objectivos materiais, evitando cuidadosamente a perda de vidas humanas no decorrer das suas acções;
2.° - Definir objectivos acessíveis, tendo sempre em conta a força real própria e a força e dispositi­vos do inimigo fascista, atacando onde ele pudesse estar mais desprevenido;
3.° - Não confundir iniciativa e audácia com precipitação e aventureirismo;
    4.° - Os objectivos a atingir deveriam ter sempre em conta a conjuntura política e estar enquadrados na acção das massas, verdadeiro motor da revolução; 
    5.° - Após cada acção, retirar sempre as expe­riências e ensinamentos positivos e negativos.
   Deve dizer-se que a definição e o rigoroso cum­primento destes princípios contribuíram para impedir que as acções armadas pudessem eventualmente res­valar para qualquer forma de terrorismo político ou que se viessem a confundir com os conceitos extre­mistas defendidos por alguns dos diversos grupos «esquerdistas» então existentes.

2.   A autonomia da ARA

Sendo a constituição da ARA uma iniciativa do PCP e sendo os seus principais quadros membros do PCP, pode perguntar-se: Qual o grau de autonomia de que dispunha esta organização revolucionária relati­vamente ao Partido?
Se é verdade que, no plano político, a ARA ac­tuava em estreita consonância com a linha política e os objectivos do PCP, no plano da sua direcção, or­ganização e acção específica. a ARA constituía uma organização autónoma. O seu Comando Central era responsável pela selecção, preparação e execução das acções a empreender. Era igualmente responsável pela selecção, controlo e acompanhamento dos qua­dros que participavam na sua organização, quer fos­sem do Partido quer de outra origem política.

3.   O tipo de acções

   As características das acções da ARA decorriam directamente dos objectivos propostos com a sua for­mação. Para além do efeito político das suas ac­ções, visava-se a destruição de material e não a liquidação de pessoal. Por essa razão, a ARA não utilizava o que é vulgarmente conhecido na gíria popular por «bomba»: um invólucro, maior ou me­nor, carregado com explosivos e projécteis metálicos que, ao explodir, espalha uma carga mortífera constituída por esses projécteis. A ARA utilizava apenas cargas explosivas, cuja composição e potência eram suficientes para derrubar, perfurar ou incendiar os objectivo em vista. Além disso, essas cargas eram colocadas junto dos objectivos, no momento mais próximo possível da hora previamente determinada para o seu rebentamento, nas chamadas «horas mor­tas». Nestas condições, o risco de se causar perdas de vidas humanas era reduzido ao mínimo possível.
A este propósito, deve dizer-se que a PIDE e o aparelho de propaganda fascista procuraram sempre esconder esta distinção, falando repetidamente na colocação de «bombas» e em «terrorismo», quando se referiam às acções da ARA, procurando desse modo, de forma alarmista, incutir no espírito das pessoas simples a ideia dos «graves» riscos de per­das de vidas que tais acções poderiam provocar en­tre a população.
Os exageros nesta matéria chegavam a atingir as raias do ridículo como no caso verídico que nos foi então contado, em que um inflamado defensor do re­gime fascista verberava em público uma determinada acção da ARA (o corte das telecomunicações aquan­do da Reunião do Conselho Ministerial da NATO em Lisboa), afirmando: «Vejam só a desgraça que não seria se a "bomba" calha apanhar por ali criancinhas a brincar!...». Alguém perguntou então «ingenuamen­te» o que fariam por ali as criancinhas às três e meia da manhã... ?

4.   A organização e quadros

Dado o conhecimento que tinha dos quadros exis­tentes na época à escala nacional, com verdadeira disponibilidade para as tarefas inerentes a esta nova frente de luta antifascista e anticolonialista, foi rela­tivamente fácil fazer um apuramento e uma selecção dos quadros com condições para a rápida montagem do aparelho de que precisávamos (organização, ins­talações, materiais e depósitos para os mesmos, as­sim como um laboratório central) para dar início à actividade da Acção Revolucionária Armada (ARA).
Como se pode compreender, a ARA constituía uma organização altamente centralizada e disciplina­da, estando o seus membros perfeitamente conscien­tes da responsabilidade que assumiam e dos riscos que corriam ao participarem nesta organização. Em cada acção empreendida havia a preocupação de pou­par vidas alheias. mas cada um tinha a consciência de que punha em risco a sua própria vida.
De entre os quadros conhecidos pela sua firmeza revolucionária que se disponibilizaram prontamente para este tipo de actividade, e que constituíram desde o início o núcleo central da ARA, são de destacar os camaradas Francisco Miguel, Raimundo Narciso, Carlos Coutinho. António Eusébio e Ângelo de Sou­sa, um jovem quadro militar da Aviação, falecido prematuramente. Todos eles, não só dirigiram como participaram directamente, com grande coragem e espírito de sacrifício, na execução das mais importantes acções levadas a cabo pela ARA, arriscando a própria vida, desde a sua fundação em 1970 até à suspensão das suas actividades em 1973.
A ampla divulgação feita pela PIDE de nomes e fotografias de activistas da ARA, ao noticiar a sua acção repressiva contra esta organização, assim como os nomes dos principais quadros atrás citados, está longe de corresponder ao número e identidade de quantos, de um ou outro modo, deram à ARA a sua inestimável colaboração.

No decorrer da sua existência e em períodos dife­rentes, participaram na ARA dezenas de revolucioná­rios, homens e mulheres, em tarefas diversificadas e com responsabilidades também diversificadas, mas todas elas essenciais para o êxito final de cada uma das acções. Desde os quadros de apoio técnico, que contribuíram com os seus conhecimentos, as suas ins­talações, transportes pessoais, apoio financeiro, ma­terial e outros, até aos quadros operacionais, todos eles deram a sua contribuição para o prestígio e au­toridade que a ARA ganhou no quadro da luta polí­tica e da acção revolucionária. 

5.   O Comando Central

O Comando Central da ARA foi desde início constituído por um núcleo restrito de membros, to­dos então pertencentes ao PCP.
Sendo Lisboa a capital, a sede do governo e o principal centro da vida política económica e militar, situavam-se aqui a maior parte dos eventuais alvos das acções da ARA. Deste modo, por razões de operacionalidade, todos os membros do Comando Central, assim como os apoios logísticos mais impor­tantes, tais como o laboratório central, depósitos de materiais e outros meios técnicos, ficaram instalados na área da grande Lisboa. Também uma boa parte dos quadros operacionais e de apoio técnico residiam nesta região.
A ligação com a direcção do Partido, feita atra­vés do camarada Joaquim Gomes, então membro da Comissão Executiva, realizava-se também em Lis­boa.
Para a consideração, discussão e apuramento final de cada acção a levar a cabo, o Comando Central reunia sempre obrigatoriamente para uma reflexão e decisão conjuntas. Seguidamente, um dos seus mem­bros reunia com o comando seleccionado com vista ao estudo de todos os detalhes da operação.
A compartimentação logística era uma exigência de princípio. Cada um só deveria conhecer aquilo que precisa a para a execução das suas tarefas.
O «laboratório central», por exemplo (onde eram ensaiadas soluções. manipulados os materiais neces­sários a cada operação e preparadas as cargas respec­tivas), era de conhecimento e acesso muito restrito, tal como restrito era o conhecimento dos diversos «pontos de apoio» e depósitos de material então exis­tentes em várias zonas do país.
Mesmo no Comando Central, dada a situação de rigorosa clandestinidade em que se vivia e o ambien­te violentamente repressivo em que se actuava, o princípio da compartimentação era aplicado nalgumas áreas do nosso trabalho.
De início tudo foi muito difícil, navegávamos num «mar» completamente desconhecido. Por outro lado, trazíamos do trabalho «conspirativo» e de or­ganização do Partido uma cultura e uma concepção de defesa, particularmente da «defesa pessoal», que não era transponível para uma actividade daquela na­tureza, sobretudo se tivermos em conta que estava tudo por fazer.
A experiência demonstra que, quando se começa algo completamente novo, é à direcção que compete dar os primeiros passos. No caso da ARA, «é um tipo de acção em que, para o arranque, os dirigentes têm de dar o exemplo». (')
A desatenção por esta verdade e o receio de arris­car fizeram com que este sector estivesse um longo período praticamente inactivo, com efeitos pouco po­sitivos sobre os quadros já nele envolvidos. Francisco Miguel, um camarada altamente qualificado, conhe­cido pela sua firmeza e têmpera revolucionária, des­tacado para este trabalho, numa apreciação crítica à sua actividade, disse a certa altura: «Devo acrescen­tar que, durante bastante tempo, pareceu-nos que seria errado irem os mais responsáveis fazer pessoal­mente o reconhecimento dos objectivos. O tempo e a experiência convenceu-nos de que, nas condições concretas em que vivemos, o nosso critério de defe­sa era paralisante.»
Por mim, quando se punha esta questão, lembrava­-me sempre de um célebre episódio revelado num fil­me soviético, passado com o lendário comandante Tchepaiev e os seus soldados, no decorrer da guerra civil que eclodiu na Rússia, após a Revolução de 1917.
Em cima de uma tosca mesa, exemplificando o que dizia com batatas que apanhou ali à mão, perguntava aos seus soldados: «Quando iniciamos uma grande ofensiva contra o inimigo, onde deve estar colocado o comandante?»
Para de pronto ele próprio responder: «Aqui, bem na frente!» E colocava uma batata na vanguarda. E logo de seguida fazia outra pergunta: «E, quando as tropas já estão em marcha, dando combate ao ini­migo, onde deve estar o comandante?»
Mais uma vez voltava ele a dar a resposta, exem­plificando sempre com as batatas: «Neste caso, o comandante deve colocar-se na retaguarda, para bem dirigir as operações.»

6.   O reconhecimento dos objectivos

O reconhecimento dos objectivos, representou um dos aspectos mais importantes e mais delicados da actividade da ARA.
Após a apreciação da importância e oportunidade política de tal ou tal objectivo, o seu reconhecimento no terreno, isto é, o reconhecimento das condições concretas de acessibilidade, de viabilidade e do grau de vigilância existente, eram determinantes para a consideração dos meios materiais e humanos a em­penhar na operação.
Pode dizer-se que de uma correcta avaliação e de um rigoroso reconhecimento dos objectivos dependia muito o êxito de cada operação.
No decorrer da actividade da ARA, vários objec­tivos foram postos de lado após um primeiro reco­nhecimento. Por ultrapassarem a nossa capacidade, por estarem fora dos nossos propósitos políticos ou por se chegar à conclusão de que os riscos a correr eram desproporcionados com a importância dos ob­jectivos propostos.
No que respeita aos processos utilizados para proceder no terreno ao reconhecimento dos objectivos, tinha que se estudar atentamente, em cada caso concreto, quais as formas e meios mais adequados para não levantar quaisquer suspeitas, quer aos responsáveis pela sua vigilância quer ao cidadão comum.
Podia ser um simples passeio no local feito por um casal, acompanhado ou não de filhos, ou a rea­lização de um piquenique familiar, próximo ou mes­mo junto do eventual objectivo, seguido de um «inocente» exercício de equilíbrio físico, como mos­tra uma foto da época.
  
(') Álvaro Cunhal, em carta reservada ao Comando Cen­tral da ARA.
...»
COMANDO CENTRAL


OPERACIONAIS

(Retirei as fotos e os dados biográficos, com a devida vénia e agradecimentos, da página pessoal do Raimundo Narciso 

http://raimundo.no.sapo.pt) Ver o livro que ele escreveu sobre a ARA


Gabriel Pedro
Em 1971
Nasceu em 1898. Faleceu em 1972, em Paris. Natural de Lisboa. Casado com Margarida Tavares Fernandes Ervedoso. Pai de Edmundo Pedro, de mais dois filhos e uma filha. Deportado para Timor, em 1025, e para a Guiné-Bissau, em 1928, evadiu-se ambas as vezes. Preso 9 anos no Campo de concentração do Tarrafal. Exilado em Paris veio a Portugal clandestinamente participar na acção do Cunene. Entrou e saiu do PCP várias vezes sendo militante quando faleceu.
Carlos Alberto da Silva Coutinho
Em 1970 e 2000
Pseudónimo Meneses. Natural de Fornelos, Vila Real. Nasceu em 1943. Casado com a Antonieta. Pai da Ana e da Marta. Arquivista em O Século em 1970. Na guerra colonial de 1966 a 1969, em Moçambique. Ligação à ARA desde Julho 70. Preso de Fevereiro de 73 a 25 de Abril de 1974. Participou nas acções do Cunene, Escola da PIDE, Tancos, Corte das Telecomunicações - reunião da NATO, Corte da rede eléctrica e, 1971 e 72. Jornalista. Obra publicada: duas novelas, dois volumes de prosa jornalística, cerca de uma dezena de peças de teatro.
Ângelo Manuel Rodrigues de Sousa
Em 1970 e 1987
Pseudónimos: Tavares e Miguel. Nasceu em 1948 e faleceu em 1990. Casado com Fernanda Castro. Pai da Sara, da Rute e da Raquel. Empregado bancário. Piloto de helicópteros. Procurado pela PIDE com fotografia na televisão, jornais e postos de todas as polícias. Clandestinidade de Março de 1971 a 25-o4-74. Ligação à ARA desde Agosto de 70. Participou na acção de Tancos (8-3-71) e do corte da electricidade na eleição do Presidente da República Américo Tomás (8-72).
António João Eusébio
Em 1968 e 1980
Natural de Corte Café de Baixo, Mértola. Nasceu em 1943. Operário estucador da construção civil. Esteve na guerra colonial, em Angola de 1964 a 66. Ligado à ARA desde Junho 70.
 Participou nas acções do Cunene, Escola Técnica da PIDE, Tancos, Corte das Telecomunicações, Corte da Rede Eléctrica em 1971 e 1972. Na clandestinidade de 1972 a 25-4-1974. Funcionário do PCP.
António Pedro Ferreira
Em 1968 e 2000
Pseudónimo Jordão. Nasceu em 1936. Natural de Lisboa. Casado com a Maria José. Pai do Pedro, do Sérgio e da Catarina. Serviço militar entre 1958 e 1969. Esteve na guerra colonial em Angola, de 1961 a 63. Ligado à ARA desde 1965. Participou no apoio às acções do Cunene, Cais da Fundição, Muxima, Corte Rede Eléctrica em 1971 e 1972. Economista. Foi Presidente da Câmara dos Despachantes. Militante do PCP de 1958 a 1989. Fundador da Plataforma de Esquerda. Aderiu ao PS em 1999.
Manuel Policarpo Guerreiro

Em 1971 e 2000
Nasceu em 1943. Natural de Odemira. Divorciado. Pai da BVera e da Tânia. Pintor da construção civil nos anos 70. Esteve na guerra colonial em Moçambique, como furriel, de 1966 a 69. Ligação à ARA desde Julho de 1970. Participou nas acções do Cunene, Assalto ao Paiol, Comiberlant, corte da rede eléctrica em 197 e 1972. Preso de Fevereiro de 1973 a 25-4-1974. Empresário da construção civil em Faro e dirigente da Confederação das PME da Construção Civil.

Manuel dos Santos Guerreiro
Em 1970 e em 2000
Nasceu em 1943. Natural de Grândola. Motorista nos anos setenta. Casado com a Luísa. Pai do Carlos e da Tânia. Serviço Militar Obrigatório de Janeiro de 64 a Outubro de 69. Participa no corte da rede eléctrica em 1971 e 72, Assalto ao Paiol, Comiberland. Preso em Março de 1973 a 25-4-1974. Empresário. Vive em Grândola.
  RamiroRodrigues Morgado
Em 1968 e em 2000
Nasceu em 1940. Natural de Manique do Intendente, Azambuja. Casado com a Maria Emília. Pai da Sílvia. Lapidador de diamentes na DIALAP. Serviço Militar Obrigatório em Moçambique, de 1962 a 64 onde a guerra se iniciou alguns meses antes de regressar. Ligação à ARA em Julho de 1970. Participou no Corte da Rede Eléctrica, em 71 e em 1972 e no apoio às acções do Cunene, de Tancos, e do Muxima. Preso de Março de 1973 a 25-4-1974.
Amado de Jesus Ventura da Silva
Em 1970 e 2000
Nasceu em 1945. Natural de Lisboa. Casado com a Isabel Sequeira. Pai do Pedro, do Manuel e do Francisco. Estudante de Coimbra na República dos 1000-y-Onários e depois em Lisboa no Instituto Superior de Agronomia. Sem filiação partidária. Oficial miliciano "Ranger", de 1967 a 70. Ligado à ARA desde 1971. Participou no Assalto ao Paiol, Corte da Rede Eléctrica em 1971 e em 1972. Preso de Fevereiro de 1973 a 25-4-1974. Engenheiro Agrónomo na Zona Agrária de Caldas da Rainha.
Victor d'Almeida d'Eça
Em 1975 e 1992
Nasceu em 1937. Faleceu em 1998. Divorciado. Dois filhos. Actividade na área da Defesa do Consumidor, nomeadamente em programas radiofónicos. Ligação à ARA desde 1966. Participou na preparaçãio e apoio das acções do Cunene, corte da rede eléctrica em 1971 e 72, Central de Telecomunicações, Assalto ao Paiol e Comiberland.

Jorge Trigo de Sousa
Em 1975 e 1999
Pseudónimo Abel. Nasceu em 1941. Natural de Lisboa. Casado. Um filho. Ligação à ARA desde 1966 como independente. Participou no assalto ao Paiol, no apoio às acções do Comiberland e do Muxima. Esteve na guerra colonial, em Moçambique de 1972 a 74. Praticante de Judo e "Aikidô", professor e Presidente da Federação Nacional de "Aikidô". Membro da Associação Damião de Góis, promotor e quadro do PRD na sua fase inicial. É engenheiro civil, vive em Lisboa.
Mário Wren Abrantes Silva
Nasceu em 1950. Natural de Lisboa. Estudante de Agronomia no ISA em Lisboa. Ligação à ARA em 1972. Participou no corte da Rede Elévctrica em 1972. Preso de Março de 1973 a 25-4-1974. Membro do PCP a partir de 1975. Casado. Funcionário do PCP nos Açores. Membro do Comité Central do PCP desde 1998.
José Augusto de Jesus Brandão
Em 1999
Nasceu em 1948. Natural de Lisboa. Operário metalúrgico. Esteve na guerra em Moçambique de 1969 a 1971. Ligado à ARA desde 1972 como independente. Participou no reconhecimento de vários objectivos. Preso em 27-03-73. Depois do 25 de Abril empregado da Carris e dirigente sindical. Membro da Comissão Nacional (1980-88) e da Comissão Política (1985-88) do PS. Obra publicada: quatro ensaios sobre temas de História.

10 de setembro de 2011

248-A ARA destrói vários helicópteros e aviões na Base Aérea de Tancos

«Uma das maiores operações da ARA foi a reali­zada na Base Aérea de Tancos, na madrugada do dia 8 de Março de 1971, pouco mais de quatro meses após a do Cunene, e que se saldou pela destruição de dezenas de aviões e helicópteros militares. O governo fascista ficou em estado de pânico e a PIDE completamente desorientada.
O pesado saldo desta operação em destruição de material e aeronaves e a facilidade com que um comando da ARA tinha penetrado nas instalações militares mais importantes do Continente, o então chamado «Polígono de Tancos», causaram um efei­to político e psicológico devastador entre o Governo e as autoridades militares fascistas.
Foi isso que Marcelo Caetano mais tarde registou nas suas memórias quando, utilizando os mesmos termos da PIDE, diz com certo desalento, o seguin­te:
«A campanha contra a DGS não tardou, porém, a recrudescer.
O governo conseguiu manter esta polícia em actividade discreta na Metrópole até ao momento em que, a seguir ao fracasso elei­toral das oposições, reapareceram as orga­nizações e acções terroristas. Do Partido Comunista nasceu então a ARA (Acção Revo­lucionária Armada) que reivindicou a autoria de vários golpes, sobretudo dados no porto de Lisboa [. . .]. O mais grave destes actos terro­ristas foi o cometido em Tancos, onde um grupo conseguiu entrar no aquartelamento da Força Aérea e montar num hangar o disposi­tivo, que pela explosão de vários engenhos, conduziu à destruição de aviões e helicópteros no valor de muitos milhares de contos e cuja falta afectou a eficiência da aeronáutica militar.»(1) (Sublinhado nosso, JS.)
De facto, além do significado político e militar da Base, nela estavam concentradas as principais unida­des aéreas estacionadas no País. Aí se processava a instrução e treino militar dos pilotos dos helicópteros, cuja acção era cada vez mais decisiva na condução da guerra nas longínquas colónias de África.
Esta foi uma das operações mais complexas, dispendiosas e de mais longa preparação, porque era necessário um êxito absoluto, que o não seria se o comando em acção sofresse baixas ou se algum mi­litar fosse atingido pelas explosões. Ambos os riscos eram altamente prováveis, sobretudo o segundo, por­que havia o hábito de roubar durante a noite gasoli­na das aeronaves e porque, do outro lado de uma das paredes do objectivo - o hangar principal da base -, dormiam muitos soldados na respectiva ca­serna.
A obtenção da chave do hangar, por parte do camarada Ângelo de Sousa [2] , foi relativamente simples.
Nesse tempo da guerra colonial, aos fins-de-semana, uma boa parte dos oficiais e sargentos mili­cianos abasteciam as suas viaturas particulares nas reservas de combustível da Base, servindo-se dos mais variados «truques». Um deles era «roubarem» a gasolina das aeronaves no hangar, com a conivên­cia do «quarteleiro», o militar responsável pela sua manutenção.
O Ângelo de Sousa, que sabia disto muito bem, num determinado fim-de-semana (uma sexta-feira de manhã), abeirou-se do «quarteleiro» do hangar, seu amigo, pedindo-lhe que lhe emprestasse a chave para esse fim-de-semana. «Para quê - perguntou-lhe o outro - se tu nem sequer tens carro?» Então o Ân­gelo contou-lhe a seguinte estória:
«É verdade que eu não tenho carro, ma este fim de semana vem cá um oficial amigo meu do Porto, sábado ou domingo, para me visitar. É uma viagem longa, já vês, como eu não estou muito abonado sempre é uma forma de compensar o meu amigo pela sua deslocação.»
Embora reticente, o amigo «quarteleiro» lá lhe emprestou a chave do hangar que o Ângelo, como o combinado, prontamente fez chegar, nesse mesmo dia, às mãos do Raimundo Narciso.
Já com alguma experiência na matéria, rapida­mente se fez uma cópia da dita chave na nossa pró­pria «oficina» com base num molde impresso num pedaço de sabão. Depois de e ter assegurado da boa execução da cópia, o Ângelo, ainda nesse me mo dia, devolveu ao «quarteleiro» a chave original, alegando que, afinal, o seu amigo do Porto lhe havia telefo­nado a anular a visita ...
Como laboratório improvisado foi alugado um apartamento na Praça do Estados Unidos da Amé­rica, em Lisboa, onde o dispositivo técnico e os seus testes (verificação de detonadores, ligações eléctrica e cálculos da potência da fonte de energia neces á­ria) foram realizados, ao longo de dois meses, en­quanto noutros locais decorriam outras diligências preparatórias, como fazer explodir em praias de di­fícil aces o - as da costa do Cabo da Roca, por exemplo - detonadores e amostras de certos explo­sivos artesanais previamente preparados no laborató­rio central.
Ao começo da noite de 7 de Março de 1971, par­tiram de Lisboa dois carros com destino à estação da CP de Santarém, um alugado e conduzido por Rai­mundo Narciso que coordenou directamente todos os movimentos preparatórios da operação, e outro con­duzido por Carlos Coutinho que, além de transpor­tar o comando envolvido na acção, levava também o volumoso dispositivo técnico, como se de transporte de fruta se tratasse.
As dezasseis cargas explosivas e quatro incendiá­rias, a rede de cabos eléctricos e detonadores, bem como as demais componentes do dispositivo, estavam devidamente acondicionadas na grande mala do car­ro e sobre elas alguns sacos de fruta, tendo mesmo havido o cuidado de espalhar bastantes maçãs.
Paga a portagem na Portela de Sacavém, as duas viaturas tiveram de parar alguns metros à frente, numa aparatosa «operação stop» montada pelas for­ças policiais que, ao contrário do que era habitual, exibiam espingardas automáticas G-3.
Após a verificação de documentos, três polícias procederam à revista da viatura conduzida por Carlos Coutinho que, ao abrir a mala, lhes ofereceu maçãs. Só um aceitou, «para provar», e todos desejaram boa viagem. O autocolante, que um deles colocou no pára-brisas da viatura, desejava o mesmo, em nome do Comando Geral da PSP, e tinha uma função não declarada: avisar os outros postos da «operação stop» de que aquela viatura já tinha sido controlada. De facto, tanto nas imediações de Santarém como da Barquinha, o carro foi mandado parar e encostar à berma, porém em nenhum dos casos chegou mesmo a parar, porque a pequena força da GNR, ao identi­ficar o autocolante, imediatamente mandou seguir.
No parque de estacionamento da CP em Santa­rém, onde chegaram cerca das 23 horas, os camara­das vestiram uniformes da Força Aérea e trocaram de viatura com Raimundo Narciso, mudando para ela o material da operação. Recordados pela última vez os principais cuidados a ter durante a operação, o comando da ARA partiu para o objectivo e, tal como estava planificado, entrou com toda a natura­lidade - e até com as «devidas» honras militares - pela porta de armas da Base, cerca da meia-noite, en­tre a movimentação normal da última entrada geral.
Encabeçado por Carlos Coutinho, que «era» um oficial da Base de São Jacinto devidamente unifor­mizado e documentado, o comando dirigiu-se imedia­tamente para o hangar principal, cuja segurança exterior ficou cometida ao António Eusébio.
É de salientar o papel determinante desempenha­do pelo Ângelo de Sousa nesta operação, da qual foi o inspirador, pois prestava então serviço militar na­quela Base e conhecia todos os seus meandros. No dia seguinte, aliás, deveria receber o seu breve! de piloto de helicópteros, numa cerimónia de grande pompa e circunstância que outras «circunstâncias» iriam abortar.
◊◊◊
Entrando no hangar com chave «normal», o comando da ARA encontrou ainda mais aviões e he­licópteros que os esperados, o que levou a uma reconsideração dos planos. Mesmo assim, levou ape­nas 1 hora e 20 minutos a instalar dezenas de me­tros de cabos eléctricos, cordão detonante, cargas explosivas e incendiárias, além do complicado siste­ma eléctrico necessário para provocar as explosões e incêndios que haveriam de destruir as aeronaves e o próprio hangar em poucos minutos.


Para fazer chegar a corrente eléctrica da fonte de energia a todas as cargas foram necessários 350 me­tros de fio eléctrico duplo, distribuído por um fio central de 100 metros de comprimento, por uma extensão de 50 metros ligando as pilhas à armadilha preventiva e 20 extensões de 10 metros cada que es­tabeleciam a ligação entre cada carga e o fio central.
As cargas explosivas estavam todas ligadas a um sistema eléctrico único, tendo por esse facto as explo­sões das cargas sido simultâneas. Cada helicóptero continha uma carga colocada em cima do depósito de gasolina ou dentro do próprio motor. Os helicópteros maiores receberam duas cargas e se houve dois ou três aviões mais pequenos que as não receberam, as explo­sões e a propagação do grande incêndio que durou horas não deixou coisa alguma por arder. Segundo testemunhas oculares só ficaram ferros calcinados den­tro do hangar. De todas as aeronaves da base só es­caparam três aviões que se encontravam nas pistas.
O fio eléctrico utilizado foi o vulgar fio eléctri­co que se encontra no mercado, como, aliás, todo o restante material eléctrico.
A armadilha preventiva colocada na porta no acto da retirada teve em vista impedir que um eventual acesso ao hangar, por alguém estranho à operação, a fizesse abortar ou causar um desastre pessoal. Com a armadilha preventiva, se a porta fosse aberta antes da hora marcada, todo o mecanismo seria accionado antecipadamente com um mínimo de consequências para o intruso.



Como o sistema de armadilha felizmente não foi accionado, aproximadamente à hora marcada, 4 da manhã, a operação registou um êxito absoluto. Foram completamente destruídas pelas explosões e pelo fogo cerca de três dezenas de helicópteros e aviões militares, isto é, a principal reserva de material mi­litar desta natureza então existente no Continente em estado operacional.
Quanto ao pessoal da Base, não houve qualquer vítima. Mesmo os soldados que dormiam na caser­na contígua, o único incómodo que tiveram foi se­rem acordados por um enorme estrondo que fez estremecer tudo e que nem foi imediatamente loca­lizado por eles, já que a própria parede da caserna não sofreu o mínimo beliscão. Mas acordada foi toda a Base, tal como as restantes unidades militares do Polígono e as povoações da zona.
No regresso do comando da ARA a Lisboa, o primeiro relatório oral foi feito a Raimundo Narciso em Santarém, enquanto os camaradas mudavam de vestuário e identidade, ainda antes da deflagração do dispositivo, e o segundo, já certamente com todos os alarmes no ar, foi feito, pouco depois das 4 da ma­nhã, a Francisco Miguel, junto à portagem da Portela de Sacavém, onde já não havia qualquer vestígio da frustrada «operação stop», muito provavelmente re­lacionada com a passagem do quinquagésimo aniver­sário da fundação do PCP (6-3-1921).
Na tarde do domingo seguinte, o camarada Carlos Coutinho teve acidentalmente um relatório quase exaustivo dos resultados da operação. Foi ao cinema Berna, em Lisboa, ver O Soldado Azul e no intervalo saiu para o foyer para fumar. O mesmo fizeram dois indivíduos que aí conversavam emocionadamente e sem quaisquer cuidados. Ambos eram oficiais da Força Aérea e o mais falador pertencia à Base de Tancos. Descreveu com pormenores impressionantes o material destruído, bem como as perturbações re­sultantes, e aludiu a especulações e suspeitas que circulavam no meio militar e que apontavam para movimentações dos altos comandos, talvez porque Marcelo Caetano estava longe de gozar da simpatia de muitos militares.
Poucos dias depois, um oficial superior da Base de Tancos faleceu num acidente de helicóptero e as especulações adensaram-se ainda mais, chegando mesmo às redacções dos jornais. Os rumores e espe­culações apenas terão amainado quando a autoria da operação se tomou do conhecimento geral.

A Comunicação Social, mesmo amordaçada, reage às mentiras oficiais sobre Tancos

Como era de esperar, o governo fascista, não podendo ocultar o acontecimento, fez tudo para lhe retirar importância e diminuir o impacte polí­tico.
No dia 9 de Março, numa brevíssima «Nota» da Secretaria de Estado da Aeronáutica para a Comuni­cação Social, diz-se que:

«Cerca das 3 e 30 da madrugada de hoje, sabotadores, iludindo a vigilância do pessoal de guarda da Base Aérea de Tancos, consegui­ram introduzir-se num "hangar" daquela uni­dade e colocar cargas explosivas comandadas por um sistema de relojoaria, que, ao explodi­rem, originaram a destruição de algumas ae­ronaves e danos em outras.
Não houve desastres pessoais. Foi imedia­tamente iniciado um inquérito pelas autorida­des militares que solicitaram a colaboração dos serviços civis de segurança.»

Reagindo a esta falsa informação e traduzindo de algum modo a insatisfação da Comunicação Social de então, dias depois deste lacónico comunicado, o "Observador" de 19-3-71, publicava o seguinte:

«A BOMBA DE TANCOS

Até ao momento em que escrevemos este comentário, tudo o que o País sabe a respei­to da explosão provocada em Tancos é o que consta de uma lacónica nota oficiosa, trans­mitida por intermédio da Secretaria de Estado da Informação e Turismo. Laconismo que tem certamente ponderosas razões de segurança atrás de si, mas que deixa em campo, infru­tuosamente quando não gravemente nocivo, um clima de inquietação propício ao boato. E este, como se sabe, é um dos grandes trun­fos da guerra psicológica. Que foram 2 ou 20 helicópteros, que morreu (ou não) muita gen­te, que foi este ou foi aquele, que na noite da explosão se encontravam em jantarada cheia de expectativa muitos correspondentes da im­prensa estrangeira em Lisboa, tudo isto corre de boca em boca, agreste e dissolvente como ácido. [. . .]
Repetimos que é natural virem a saber-se pormenores mais concretos dentro de horas ou dentro de dias; mas o tempo que passou já não o recuperará o nosso "moral", e ele é ex­tremamente importante.[. .. ]»


Mais mentiras tardias sobre Tancos


Passado quase um mês sobre as destruições de Tancos o Governo, através da Secretaria de Estado de Informação e Turismo (SEIT), convoca para o dia 1 de Abril (talvez por ser o dia das mentiras) uma con­ferência de imprensa com a presença do Dr. Geraldes Cardoso, director-geral da Informação, onde, perante a curiosidade dos numerosos jornalistas centrada na questão de Tancos, este repete as mesmas mentiras, chegando a afirmar que «as aeronaves são na sua maioria recuperáveis» e, com modos de grande gene­rosidade, ainda acrescentou que, «como em Portugal não existe a pena de morte, os responsáveis incorrem em penas que não podem exceder 24 anos [ ... ].»»


(1) Marcello Caetano, "Depoimento", Distribuidora Reconi, Rio de Janeiro-S. Paulo, 1974, p. 77.
[2][bom amigo, falecido prematuramente poucos anos após o 25 de Abril - nota minha]