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14 de maio de 2011

171-Nem à saída nos largaram...

(Texto do Daniel de Matos)

Infelizmente, o meu amigo Daniel de Matos, autor desta  linhas, faleceu no dia 13 de Novembro de 2011
31 de Maio

Poucas vezes na vida o nascer do sol nos terá sabido tão bem. Desta vez, acho que todos conseguimos dormir profundamente umas quantas horas seguidas e todos acordámos cedo e nos pusemos de pé num único impulso. Falo sobretudo de Os Marados de Gadamael, pois há camaradas que terão como tarefa regressar a Guidaje e ficar mais uns tempos por estas paragens, designadamente as companhias que chegaram anteontem e sem as quais ainda estaríamos sitiados. A missão dos pelotões da CCaç 3518 acabou, “o sibe chegou ao seu destino”, há soldados que se dizem prontos a festejar a próxima noite no Pilão!...

Ainda não eram oito horas e já tínhamos atravessado o rio para a margem esquerda, o motor da jangada até parecia querer pregar-nos uma partida, mas lá se aguentou. Quando arrancamos grita-se “está na mala”, “prego ao fundo, ó condutor”, “putas vão-se lavando que Os Marados vão a caminho” e outros ditos próprios da época e do estado de espírito, que guerra e soldados são assim mesmo em qualquer tempo, em qualquer lugar!

Com essa mesma alegria abrandamos a velocidade na passagem pelo destacamento K3 (antiga tabanca de Saliquinhedim) e, recebida a ordem do comando de Farim, apagamos os sorrisos e aí vamos em direcção ao sul, andamento moderado. Agora vamos todos motorizados e é sempre pelo alcatrão, pelo menos não haverá minas sob os pneus (o que não significa que a estrada não possa estar armadilhada num sítio qualquer).

Seremos, porém, os campeões do infortúnio. A pouquíssimos quilómetros do K3, de súbito, estoira nova emboscada. As primeiras roquetadas despoletam-na e limpam as viaturas da frente: o primeiro Unimog é destruído e o seguinte incendiado. Há um homem que acciona uma mina com o peito. Para se abrigar das balas das Kalashnikov que entretanto começaram a cantar à nossa volta, lança-se para trás de um “baga-baga” (rijo, à prova de bala, construído por formigas térmitas, chama-se morro de salalé, em Angola), e os fragmentos do seu corpo são espalhados por um diâmetro incalculável. Durante largos minutos há tiroteio de armas ligeiras na frente da coluna. Os homens das viaturas não atingidas, entre os quais nos incluímos, saltam para as bermas e tentam também reagir com prontidão. Seguimos sensivelmente a meio e não avistamos os atacantes, embora algumas balas vão zunindo muito próximas. O IN retira-se e há pessoal das NT que tenta a perseguição, mas é mandado parar. A artilharia do destacamento K3 bate a zona do lado direito da estrada durante alguns minutos. Um Unimog passa a toda a velocidade em sentido contrário, na direcção de Farim. Leva feridos. Um deles, sentado no banco de espaldar e amparado por dois camaradas, leva o joelho garrotado, perdeu a perna daí para baixo.

A coluna recua até ao destacamento para se reorganizar. A zona de onde os combatentes do PAIGC lançaram o ataque continua a ser bombardeada pela nossa artilharia. Ao longo da estrada, em frente ao K3, esperamos pelo Allouette que vem evacuar os feridos. Depois do helicóptero carregar as macas e levantar voo a coluna/auto põe-se de novo em andamento. Quando passamos pelas viaturas destruídas, ainda estão a fumegar. Depois do cheiro dos ares de Bironque atingimos Mansabá e avançamos praticamente em linha recta, direitos a Mansoa, sempre na expectativa de novos contactos com o IN, se nada se passou no enfiamento do Mores é porque talvez nos safemos… Safámo-nos!

Com a alegria estampada nos rostos chegamos ao COMBIS, em Brá (não longe do quartel dos comandos e a pouca distância da base aérea e aeroporto de Bissalanca), por volta às 17 horas. Aqui sim, o nosso péssimo aspecto mete dó aos transeuntes, assusta as pessoas com quem nos cruzamos. Olham-nos com ar espantado, como se vissem lobisomem! As próprias caras dos camaradas da nossa companhia se dividem entre a alegria de nos ver e a perplexidade.

O pessoal marado vem ao nosso encontro, sai da caserna, da secretaria e vem-nos abraçar efusivamente, andamos de ombro em ombro, não menos eufóricos. O furriel Quaresma – o  vagomestre a cujos manjares devíamos tamanha elegância! – fica admirado por me ver à sua frente:
– Estás  vivo? – pergunta-me.
– O que te parece? Não sou nenhum fantasma!
Confessa que no jornal da caserna o meu nome integra o rol dos que tinham sucumbido, já quase me tinham cantado a missa do sétimo dia, quem morreu afinal?, no COMBIS ninguém sabia ao certo. Chica, como se as transmissões não funcionassem! Esclareço-o das baixas e pergunto pelo Alexandre Castro, o nosso mangas-de-alpaca, que afinal está de férias na sua Amadora. Ainda assim, vou direito à secretaria, ao primeiro-sargento António Fagundes Neves, para ver se tenho correio. Diz-me “lá se safaram de mais uma” e passa-me um braçado enorme de cartas, jornais e revistas.

Antes do banho, cubro a manta da cama com a correspondência acumulada, que inclui cassetes recebidas dos meus amigos Acácio, Cipriano e Fernando, que em Lisboa faziam o favor de me gravar as últimas novidades, incluindo os discos que eu recebia regularmente de Londres (através da Tandy’s Records) e cuja audição era uma ajuda preciosa para aguentar a difícil passagem do tempo. Leio em diagonal as cartas mais recentes e apercebo-me do que já esperava: uma grande preocupação familiar pelo meu inabitual silêncio e pelo meu estado de saúde. À porta do quarto surge um ordenança que me vem convocar para ir ao segundo-comandante do COMBIS (o comandante está ausente, também de férias). Fui assim mesmo, botas sem meias nem atacadores, as pernas das calças transformadas em badanas, totalmente descosidas da braguilha para baixo. Apresento-me no gabinete do nosso major que me mira de alto a baixo, me pede para lhe contar o que se passou nestes dias e qual o estado do pessoal em termos psicológicos. Faço o meu resumo, mais ou menos cronológico, digo o que penso com algum azedume e entrego-lhe o papelucho que havia rabiscado em Farim, supostamente o croquis dos  mortos que tivemos de deixar em Guidaje. Diz-me que por agora posso ir descansar e que no dia seguinte voltará a chamar-me para me pedir um relatório escrito e mais detalhado (o que não virá a acontecer).

Dirijo-me ao banho. Mando as calças para o lixo. Dispo o dólmen. De tão esticado e teso, pego-o pelo colarinho e pouso-o no chão. Fica de pé, como se o enfiasse num cabide de alfaiate!  Não há a água quente que me apetecia (como seria bom um longo banho quente, de imersão), porém, a água que escorre do duche é tépida e nem sei quanto tempo fico a desfrutá-la. Enquanto isso, lavo o quico com champô, até desaparecerem as principais manchas de suor e de todos os merdelins. Aproveito para não desfazer a barba e andar assim mais um tempo (desde que começou a crescer-me que a uso crescida, salvo agora, por impedimento do RDM).

Antes do sol se pôr, já eu, o Ângelo e o Cruz tínhamos apanhado boleia para a cidade e  estávamos frente ao forte da Amura (perto do cais de Bissau) a tirar fotografias, aguardando pelo furriel famalicense José Lopes Silva, que ficou de se encontrar connosco na 5ª REP (esplanada do Café Bento, conhecido pela abreviatura de “5ª Repartição”) e depois irmos à Cervejaria Solmar petiscar uma valente mariscada! Seguiu-se um alguidar de ostras e uma travessa de camarões no Pelicano e, devido à quantidade de líquidos ingeridos, já não me lembro o que foi o resto!

Fatal como o destino, enquanto caminhamos pelas ruas da capital encontramos sempre alguém conhecido, ou por ter estado connosco na recruta ou na especialidade, por ser conterrâneo, etc., e enquanto esclarecemos perguntas sobre Guidaje recebemos péssimas notícias de uma Gadamael cercada e com inusitado número de baixas. De Guileje também se fala, mas pouco ou nada resta para contar, salvo alguém ter garantido que o major Coutinho e Lima, ex-comandante do COP 5 e que ordenou a retirada em tempo útil de Guileje, andaria agora em Brá a jardinar no quartel, por estar detido preventivamente pela cegueira do governador. Outro alguém contra-diz-que-disse que o major estaria mesmo preso por ordem de Spínola, – e não simplesmente com detenção num quartel, –  e que tal gesto provocara uma onda de indignação entre unidades do exército, em particular, as de Gadamael, Guileje e Cacine.

170-Finalmente libertos!

(Texto do Daniel de Matos)

Infelizmente, o meu amigo Daniel de Matos, autor desta  linhas, faleceu no dia 13 de Novembro de 2011
30 de Maio

Ou vai ou racha! Se não for desta, quando será? Somos uma multidão autêntica neste quartel sobrelotado. Fazem-se os preparos para a partida, sacode-se alguma poeira das armas, espreitam-se os canos para ver se têm sujidade, distribuem-se bolachas e latas de sumo que devem ter sido trazidas pelo pessoal chegado ontem, à noitinha. Caramba, com tanta gente não há motivo para descrenças e ansiedades, vamos a eles! Apesar da partida dos “páras” rumo a Farim, entrou aqui o equivalente a quatro companhias… Com Guidaje a abarrotar, a anarquia é total, ninguém sabe quem manda em quê e até para fazerem as suas necessidades há homens a recorrer às proximidades da rede de arame, ignorando quem passa e, do lado da tabanca, ainda passam mulheres e crianças que nunca tiveram a oportunidade de fugir. Contas redondas, deverão estar no interior do aquartelamento entre oitocentos e cinquenta e mil homens. Muitos ficarão em reforço do quartel, mas a maioria esmagadora vai participar na operação.

Há mais de meia hora que arrancaram os homens e viaturas da frente e parece que está tudo na mesma, centenas de outros em espera. Nós e os companheiros da tão afortunada coluna chegada no dia 15, havemos de partir enquadrados com fuzileiros. Para mim é bom sinal, gosto de os ver na mata, inspiram confiança e é disso que precisamos, em primeiro lugar. Sou chamado por um capitão (pela idade e rosto carregado tem ar de ser capitão e do quadro) que me vem apontar o nosso posicionamento na coluna e lembrar da necessidade de haver grande disciplina, manter as distâncias e uma atenção redobrada mal saiamos a porta de armas. Diz-me também que o nosso homem das transmissões deve ser a minha sombra, ande eu por onde andar e que não devo hesitar em informar o comando se detectar qualquer anormalidade. Informa-me ainda que iremos utilizar o percurso que eles rasgaram ontem à vinda, talvez o IN não tivesse tempo de miná-lo durante a noite. Certificamo-nos que o corpo do camarada Jorge Gonçalves está sobre uma viatura, queremos levá-lo connosco para Bissau.

Passa provavelmente outra meia hora aborrecida e lá chega a nossa vez de nos deitarmos ao caminho. A marcha, como seria de prever, é extremamente lenta e verificam-se muitas paragens. Até parece milagre não se ter esgotado o combustível das viaturas durante estes dias e agora, com tanto pára/arranca, horas a fio. Embora por vezes se apeiem com mil cuidados nos sítios que vão pisar, mas provavelmente para desentorpecer as pernas, seguem nas Berliet o alferes Cruz, o furriel Ângelo Silva, o soldado Vieira mais os que foram feridos nas emboscadas (Abreu e Gomes dos Santos,) e ainda duas outras praças desfeitas em suor e febre.

Há um fuzileiro que tira do bolso do dólmen uma embalagem de Coramina e, como quem oferece um cigarro, pergunta-me se quero uma. Aceito e agradeço. Nunca percebi muito bem para o que serviam mas sempre cravei muitas das enfermarias, gostava de ir chupando aquelas pastilhas quadradas quando andava no mato, dizia-se que eram estimulantes… Mais do que elas, só as castanhas de cola, que muitos soldados milícias mascavam “para dar força”, como um estupefaciente, e cujo sabor acre eu também gostava de ruminar, aquilo partia-se, triturava-se, mas nunca chegava a desfazer-se na boca, uma castanha dava para a viagem toda e só se cuspia no fim.

Já nem faço ideia de há quantas horas estamos no mato, felizmente que sem novidade, até que nos deparamos outra vez com o cenário dantesco dos mortos espalhados pelo caminho, em diferentes estados de decomposição. O mais próximo de mim já nem dita cheiro (ou terei eu perdido o olfacto?), é só um esqueleto com cinturão, botas e uns poucos farrapos pretos que restam da farda. Por que será que nunca foram removidos? Será por já nem se reconhecer a identidade, ou pelo grande risco de poderem estar armadilhados?

O pessoal do BCaç 4512, levando consigo uma equipa de sapadores, acabaria por ir ao local muito mais tarde, em Agosto de 1973, quando a zona já não oferecia os mesmos perigos. Procedeu à remoção de três desse corpos.

Com efeito, a coluna é muito extensa, não consigo avaliar a dimensão. Prolonga-se certamente por mais de dois quilómetros, tal é o número de tropas e as distâncias que nos separam uns dos outros. Não é fácil avançar-se assim pelo mato fora, muito menos com celeridade. Há uma paragem prolongada, excessivamente prolongada, que nos põe no pensamento a ideia de que uma emboscada estará para chegar… Ou então, surgiram problemas lá na frente, encontrados pelos picadores. Desesperamos de tanta espera, aumenta o stress. Ninguém dá explicações. Sabe-se, finalmente, que um dos homens da cauda da coluna (presumo, sem ter a certeza, que da companhia do capitão Salgueiro Maia) teve a infelicidade de ser atacado por um enxame de abelhas e, bastante mordido no peito (levaria o dólmen aberto), com a avidez da fuga deixou ficar para trás a G3.

Uma solução para afugentar os insectos seria lançar granadas de fumo, mas com o peso do armamento ninguém estava para as carregar. E mesmo que as levassem, um fumozinho que fosse deitado ali denunciaria a nossa localização e seria a “morte do artista”!... Bem, a nossa presença no mato já o IN conheceria há uma infinidade de tempo, mas não havia necessidade de lha indicarmos com tanta precisão…

O comandante da coluna, ao ter conhecimento do sucedido fez enviar uma equipa lá atrás para recuperar a arma, só que os insectos voltaram à carga e estabeleceu-se confusão e revolta, opiniões de que mais valia perder a G3 do que sujeitar tantos homens a arcar com outra emboscada “nos cornos”, ainda por cima na zona que nos causava uma carga psicológica acrescida devido aos insucessos passados. O soldado da espingarda perdida ficou com um número significativo de inchaços no corpo. Caiu na asneira de despir o dólmen e tentar afugentar ou esmagar as abelhas que se infiltraram por dentro e foi pior a emenda que o soneto. Estas mordeduras em quantidade têm efeitos idênticos aos das queimaduras na pele, geram a sua asfixia, pode ser fatais. Por fim, recuperou-se a arma depois de angustiante seca, ali nas barbas do Cufeu, e lá prosseguimos lentamente a nossa marcha. O inimigo a causar-nos baixas, desta vez, nem é o PAIGC, é a própria natureza a molestar-nos, parece que até os insectos repudiam a nossa presença…

A bolanha e a casa amarela ficam para trás. Começamos a respirar de alívio ao avistarmos Binta, ao entrar-nos nos ouvidos os ruídos da água do Cacheu. Há agora que esperar por viaturas vagas que nos transportem até Farim. Chega a vez dos nossos pelotões subirem para as Berliet. Ao vermos as casas da vila e a jangada que no dia seguinte nos poria na outra margem, rumo a Bissau, soubemos o que é um sonho transformado em realidade. Terminara a “Operação Resgate”. Já tínhamos desacreditado que este cenário fosse possível.

Os populares olham desconfiados para o nosso aspecto miserável, mas nesta região já não deve ser nada a que não estejam habituados. Rumamos directamente aos balneários e sanitas, fazemos filas para nos dessedentarmos e para um retemperador duche e, claro está, voltamos a vestir a mesma roupa imunda, o mesmo calçado. A seguir, o pessoal vai direito ao rancho, nem que fosse um chispe enlatado viria mesmo a calhar, nem sei como conseguimos evitar os suicídios quando, cúmulo dos azares, servem aos soldados arroz com… salsichas (embora aqui fossem grelhadas)! Na messe temos melhor sorte, mas não me recordo da ementa do dia. O que nos apetece mesmo é sair do quartel e dar um giro à volta das casas civis, ver pessoas diferentes, não fardadas, desanuviar, procurar um bar, uma tasca, mas nestas figuras e sem dinheiro para nada, não iremos longe.

Empanturramo-nos de cerveja e mancarra, tudo à conta dos vales que mais tarde aparecerão na nossa companhia para nos serem descontados no vencimento. Se bem me lembro, o salário de um furriel miliciano não atingia os seis contos. Em geral, e por opção, a parte maior era enviada para nossas casas ao cuidado de familiares, em escudos portugueses, e a outra era o que recebíamos em escudos guineenses (pesos). Julgo que, em geral, ficávamos na Guiné com cerca de dois mil pesos que, estando-se no mato, davam para o tabaco, despesas de bar e pagar à lavadeira. Bem, em Bissau, umas refeições fora e qualquer compra extraordinária, já justificavam o recurso aos “valores declarados” que mandávamos vir da metrópole (envelopes azuis, com notas lá dentro, que depois cambiávamos aos que tinham a habilidade e o “savoir-faire” para negociar com isso).

*

Nestes dezasseis ou dezassete dias em Farim e Guidaje (aqui, com o bar à míngua de produtos, excepto cigarros), a cada um de nós (sargentos, oficiais) foi descontado em média o equivalente ao nosso salário “guineense” de um mês, embora na secretaria tenham dividido os descontos por duas ou três mensalidades! O que seria se comêssemos!? 

169-Tarda a libertação

(Texto do Daniel de Matos)

Infelizmente, o meu amigo Daniel de Matos, autor desta  linhas, faleceu no dia 13 de Novembro de 2011
28 de Maio

A desmoralização amplia-se a ritmo galopante. Como se não bastassem as consequências operacionais do cerco e o sentimento de incapacidade absoluta de dar a volta às coisas e furar o bloqueio, é também a logística que começa a falhar. Os pedaços de salsicha, cada vez mais precários, têm sido substituídos por sardinhas de conserva, que chegam ao prato em pasta. A groselha também acabou, tudo rebenta pelas costuras! Desde o ataque de dia 25, que cortou a luz no quartel, os geradores nunca mais tiveram um funcionamento regular (parece que não há gasóleo para os ligar) e passámos a estar sem electricidade (nem a do céu, que a mudança de estação para a época das chuvas faz aparecer nuvens que encobrem o luar). O que vale é que não há nada nos frigoríficos que se estrague!

Por onde andamos, tropeçamos constantemente em destroços, granadas, invólucros de munições, restos de latas de conserva que, os poucos que as tenham, já nem se dão ao trabalho de as pôr no lixo, além de pedaços de tectos de zinco arrancados pelos rebentamentos, restos de móveis inúteis, etc.. Ainda por cima, a água que desde sempre aparecia nas torneiras, talvez uma hora (incerta) por dia, deixou praticamente de aparecer. Ou seja, se nos primeiros dias ainda conseguimos lavar as mãos e a cara muito apressadamente, pois havia sempre outros atrás de nós à espera de fazer o mesmo, agora já nem isso fazemos. No caso do pessoal “marado” faz já catorze dias que temos no corpinho o mesmo camuflado, vestido vinte e quatro horas por dia, quase todos sem ter conseguido tomar um banho. De cabelos desgrenhados e cinzentos da poeira e com barbas por fazer da mesma cor, ainda conseguimos brincar, dizendo que se corrêssemos para um turra desta maneira, ele morreria logo, mas era de susto! E caso aguentasse olhar para o nosso terrível aspecto, sucumbiria à mesma, com o cheiro… Eu cá, se despir o dólmen e o poisar no chão, ele aguenta-se, de certezinha, em pé. O suor acumulado, a volumosa pasta de sangue dos camaradas mortos e feridos que absorveu no abrigo do Obus, confesso que algumas lágrimas em cima, mais a moinha do cacimbo, à noite, o pó poisado durante as deslocações e emboscadas, e ainda a sujidade de terra desde que passei a dormir no chão, tudo isto acumulado dá uma argamassa que nem colete à prova de bala. O curioso é que não me sinto propriamente a cheirar mal, nem sinto que os meus companheiros cheirem mal. Terei perdido o olfacto? Ou, nas nossa narinas, também o hábito faz o monge? Não faço ideia porquê, nem como, mas de repente dei por ter ficado sem os atacadores das duas botas de lona. Das meias verdes, resta-me uma, cujos buracos me estão a provocar bolhas. A do pé direito era um buraco só e desfez-se: achei-a folgada demais, puxei-a e, desprovida da “sola”, saiu inteirinha do pé sem necessidade de descalçar a bota.


29 de Maio

Pelo menos um héli-canhão e logo a seguir dois Allouette III surgem de supetão sobre as casas e, perante o espanto geral, aterram no largo a que chamamos parada. É uma surpresa para nós, obviamente que não para o tenente-coronel, que antes colocara de prevenção o pessoal de armas pesadas, perspectivando-se, assim, que algo estivesse para acontecer. E aconteceu: as aeronaves trazem a bordo o comandante-chefe, – general António de Spínola. Vêm, por certo, em voo rasante à copa das árvores, que a baixa altitude foi o modo encontrado pela FAP para reduzir o risco de se fragilizar perante o moderno equipamento antiaéreo da guerrilha.

O general teria vindo certificar-se das condições operacionais, do estado psicológico do pessoal e, sobretudo, controlar a execução das directivas traçadas para outra grande operação que vise pôr fim ao isolamento de Guidaje, que permita evacuar feridos e tratar do reabastecimento de géneros, medicamentos, até mesmo de urnas, para o que der e vier!... E essa operação, cuja parte principal pode iniciar-se hoje, há alguns dias que estará a ser preparada a partir de Farim/Nema e Binta, onde uma concentração imensa das NT se iniciou no dia 26: aí estão a 38ª companhia de comandos (“Os Leopardos”, novamente), um grupo especial de milícias, quatro grupos de combate do BCaç 4512, uma companhia africana e mais duas companhias inteiras, uma de infantaria e outra de cavalaria (a CCav 3420, – Os Progressistas” – comandada pelo capitão Salgueiro Maia, que foi enviada para este tormento já depois de ter a comissão cumprida em Bula e em Mansoa e de estar a aguardar embarque para regressar à metrópole; em vez de seguir para o Cumeré, foi para os Adidos requisitar novas armas).

Não me recordo quanto tempo se deteve o general Spínola nesta passagem por Guidaje. Não deverá ter sido muito, até porque a presença dos helicópteros estaria, decerto, a ser notada do lado de lá da fronteira, as próprias condições do terreno deixavam-nos demasiado expostos no caso de o IN arriscar qualquer investida. Isto, embora ouvíssemos o roncar constante da aviação, lá nas alturas, sobre as nuvens, a impor o seu respeito. Mas recordo-me que todos fomos a correr sacar aerogramas à secretaria, (conhecidos por “bate-estradas”, isentos de “porte e de sobretaxa aérea” nos termos da Portaria 18.545, de 23 de Junho de 1961), pois estava ali uma possibilidade de enviarmos correio às famílias, mentiras escritas à pressa, do tipo “espero que te encontres de boa saúde que eu fico… bem”, quer-se dizer, alvoroçar pais e namoradas com desgraças para quê?!! Para muitos, eram expedidas as primeiras cartas após várias semanas sem receber ou enviar mensagens de e para o exterior. A falta de notícias e de comunicações foi terreno fértil para a propagação do boato. Na parte que me toca, vim a apurar depois do regresso ao COMBIS que na própria companhia havia quem já me tivesse dado como morto; ao invés, em Lisboa, perante o meu prolongado e inabitual silêncio, o meu pai e a minha mulher (casara-me, nem havia dois meses) andam de repartição em repartição tentando saber se algo me terá acontecido. Cedo desistem, mal um primeiro-sargento anafado lhes garantiu que eu não consto na listagem mecanográfica dos óbitos, que sou obrigado pelas NEP a enviar notícias à família e que, se não o fizer, ainda “leva mas é uma porrada”! – Quer que participe? – perguntou a criatura… à vez, esperando pela disponibilidade da esferográfica do cabo artilheiro que foi circulando de mão em mão, lá gatafunhámos meia dúzia de linhas com o remetente SPM 2158 (era o número do Serviço Postal Militar, espécie de código postal da companhia)…

Os Allouette III levantam voo e levam Spínola e comitiva de volta para Bissau. Transportam  para o HMB os feridos que mais necessitam de evacuação. “Nossos”, seguem o Igreja e o Bernardo Monteiro, cujo ferimento no joelho não é de grande gravidade, mas faz-se à boleia com um choradinho bem urdido e consegue o lugar.

Por volta das cinco da madrugada os muitos militares concentrados em Binta tinham começado a percorrer o itinerário para Guidaje. A progressão no terreno, como sempre é extremamente cuidadosa e lenta. Ainda assim, às dez horas é accionada pelo soldado-condutor auto rodas António Luís do Couto Toste Parreira (CCaç3414) uma anticarro armadilhada que o desfaz, cega um furriel e provoca dois feridos ligeiros. O pessoal do batalhão de Farim mostra-se particularmente abatido, é também reincidente naquele percurso, onde já muitos camaradas caíram por terra nos combates de 9 deste mês.

O estado de espírito está de tal maneira que um pelotão, que foi incumbido de transportar para Binta (para posterior evacuação) os feridos e o morto na mina anticarro, devendo depois regressar ao local de partida, já não está para isso e os trinta homens entram em desobediência, ficam-se por Binta com os dois Unimog, à espera do desfecho da crise…

Quem comanda, procurando evitar novas minas, decide-se a avançar em corta-mato, rasgando outros trilhos e outra picada, por onde o arvoredo permita a passagem das viaturas. À frente vai o “caterpillarD6, pronto para derrubar capinzal, árvores e o que apareça pela frente. A grande distância umas das outras, seguem as Berliet só com os condutores a bordo, sempre protegidos por sacos de areia.

Entretanto, a companhia de pára-quedistas que chegou no dia 23 (CCP 121) tinha partido de Guidaje no encalço da coluna, levando consigo os comandos (chefiados pelo capitão Raul Folques, ainda a braços com ferimentos sofridos na investida contra a base de Koumbamory, no Senegal). Para não variar, detectam minas. No entanto, optam por não provocar o rebentamento, preferindo deixá-las balizadas. Ouvem duas rajadas, todavia o som vem de longe e ficou-se por aí, nem se deu por que alguém tenha ripostado. Já perto de atingirem o Cufeu, então sim, rebenta uma emboscada do lado oposto da bolanha, contra o pessoal da coluna que progride no terreno de Binta para cima (as companhias que atrás citei). Um grupo que foi calculado em 120 guerrilheiros desferiu de rompante um ataque impetuoso, batendo a zona da retaguarda da coluna com Morteiros 82. Os combatentes do PAIGC fizeram várias investidas durante mais de uma hora. Alguns homens vergados pelo cansaço, pela insolação e pela sede, (desde madrugada que mais não ingeriram do que um cantil de água,) desmaiaram e geraram obstáculos de novo tipo à progressão.

A longuíssima coluna cruza-se com os pára-quedistas da CCP 121 que já irão pernoitar a Farim (e que amanhã partirão de regresso a Bissau); e encontra-se com os fuzileiros que estavam retidos há dias e que vieram ao encontro da coluna para reforçar as hostes.

Na região de Ujeque o pessoal ainda veria rebentar outra mina debaixo dum Unimog 404. Um soldado milícia, ao saltar para o lado, ficou sem uma perna por pisar outra mina antipessoal. Sofreram mais um curto ataque às dezoito horas, sem consequências, chegando exaustos a Guidaje, cerca das dezanove, quando anoitecia. A extensa coluna atingiu o objectivo mas o preço foi alto: dois mortos (o referido condutor e o soldado atirador Domingos Martins da Silva Lopes, do BCaç 4512), e ainda vários feridos.

Temos entretanto a notícia da morte do soldado Jorge Gonçalves, que agonizava na enfermaria e não resistiu aos ferimentos. É o quarto morto da companhia nesta operação e a sexta vítima mortal dos camaradas que a morteirada surpreendeu no abrigo do Obus.

Ainda o funesto abrigo do Obus, que ficou para sempre nas nossas retinas e cuja memória só desaparecerá quando chegar a vez de nós nos apagarmos. Na sua “Crónica dos Feitos por Guidaje” (publicada no livro “Capitão de Abril – Histórias da Guerra do Ultramar e do 25 de Abril – Depoimentos” (Editorial Notícias) o capitão Salgueiro Maia referiu-se também a esse abrigo (página 71), descrevendo-o da seguinte maneira: “Nas minhas visitas pelos escombros, desci ao abrigo de artilharia, onde houvera quatro mortos e três feridos graves. O abrigo fora atingido em cheio por uma granada de Morteiro 82 com retardamento; a granada rebentou a meio de uma placa feita com sibes; o resto do abrigo ficou totalmente destruído; o chão tinha um revestimento insólito – consistia numa poça de sangue seco, de cor castanha, com 2 mm a 3 mm de espessura, rachada como barro ressequido. O odor envolvente era um pouco azedo, mas sem referência possível; o sangue empastava os colchões e as paredes. A minha preocupação era encontrar um colchão. Depois de dar a volta aos oito que lá se encontravam, escolhi o que estava menos sujo. Tirei-lhe a capa, mas o cheiro que emanava de dentro era insuportável; mesmo assim, consegui trazê-lo para a superfície, onde ficou a secar debaixo da minha vigilância, para não ser capturado por outro. Depois de bem seco e com os odores atenuados, levei a minha conquista para a vala onde, para caber, tive de o cortar ao meio, fazendo bem feliz o meu companheiro do lado, que, sem esforço, ganhou um colchão, e sem saber de onde tinha vindo”. Recorde-se, a propósito dos odores, que entre a noite da destruição do abrigo e a chegada do capitão Salgueiro Maia a Guidaje decorreram pelo menos quatro a cinco dias, até porque não deve ter ido direito ao abrigo logo no primeiro dia… No seu texto ou no meu relato há pequenas contradições, traições da memória que pouco interessam hoje em dia. Contudo, referencio-as: pelo que me recordo de ouvir (todos temos uma costela de perito), e pelo que já li algures, terá sido uma granada de Morteiro 120 a perfurar os troncos de sibe que cobriam o tecto e a destruir o abrigo, e não de Morteiro 82; dificilmente haveria 8 colchões dentro do abrigo, pois mal cabiam as 4 camas existentes (sobrepostas duas a duas, em camarata); o número de mortes que é referido (4) é o dos que tiveram morte imediata (Machado, Telo, Ferreira e um soldado africano, havendo a acrescentar o Fernandes e o Talibó Baio, que faleceriam poucas horas depois (mas já no dia 26) e o soldado Gonçalves (a 29); nunca consegui apurar quem era nem como foi enterrado o segundo soldado africano que se tinha refugiado no abrigo. Com efeito, na altura da exumação dos corpos, em 2009, apareceram onze ossadas no “cemitério” cujo croquis só indicava dez, sendo que o décimo-primeiro (identidade desconhecida), segundo os arqueólogos pertenceria a um indivíduo “africano”. Mas a dedução de poder tratar-se do mesmo indivíduo pode ser precipitada.

Pela quantidade de homens recém-chegados, e com a “fomeca” que traziam, foi grande a azáfama em torno do refeitório, onde não cabiam todos ao mesmo tempo, para que lhes fossem servidas as tradicionais salsichas. Aquela grande concentração é um risco enorme, já que uma simples granada que caia no local, pela certa causará uma mortandade! São mandados dispersar pelos quatro cantos de Guidaje onde devem aguardar que alguém os chame. Não têm tecto onde dormir, os edifícios estão deveras danificados ou completamente destruídos, e os camaradas “residentes” (sitiados) já transformaram a generalidade das valas em dormitórios. Porém, aqui a solidariedade não é palavra vã e para todos se inventará um cantinho onde repousem. Toda a gente se “encolhe” por forma a arranjar novos espaços. Não restam colchões disponíveis para ninguém, cada qual desenrasca-se consoante a imaginação.

Cerca das 21 horas, às cinco de cada vez, começam a cair morteiradas bem no centro do quartel. E não parecem umas granadas quaisquer aquelas que se abatem sobre as nossas cabeças: são de Morteiro 81, isto é, das que o IN conseguira sacar das viaturas de reabastecimento que se imobilizaram e perderam na picada de Binta, (sacadas antes do Fiat do capitão José Manuel Pinto Ferreira arrasar o que restava delas e da carga, no passado dia 9)… 

168-Lembrando as baixas

(Texto do Daniel de Matos)

Infelizmente, o meu amigo Daniel de Matos, autor desta  linhas, faleceu no dia 13 de Novembro de 2011
26 de Maio

Se já era difícil dormirmos alguma coisa no abrigo, mais difícil foi fechar os olhos nas valas. Passámos mais uma noite em claro, percebemos melhor as queixas dos que já habitavam no “metro” há mais dias, não conseguimos dormitar nem um cagagésimo de tempo. Quando rompeu o sol vimos que na palmeira pendia não só o cacho de dendém, mas um volume escuro e grosso, cheio de abelhas a entrar e a sair. Não é nada agradável conviver com favos àquela distância. Para já, ninguém se queixa de ter sido picado, talvez o dia se torne mais propício a uma soneca, estendidos no fundo da vala.

No fundo? Logo eu, que ainda em Gadamael ganhei complexos de me atirar para dentro de valas, sobretudo, à noite. Tinha acabado de sair do banho (que se tomava em balneários construídos com bidões, já perto do rio), de chegar ao meu quarto e me enxugar, a única roupa que tinha no corpo era um par de peúgas e nesse instante uma sentinela dispara uma rajada (teria dado por “saídas” de fogo IN e deu assim o alarme de flagelação), e mal tive tempo de agarrar na G3 e correr naquele estado para a vala mais próxima. Agachado, mas positivamente com o rabo de fora, passados instantes pressinto algo no pé. Apesar do lusco-fusco, vislumbro uma senhora cobra a roçar-se nos meus tornozelos, levando-me a esquecer os perigos das bernardas que caíam em redor e a pular para fora, naquela triste figura… Foram os soldados que ali se encontravam que, calçados com botas de lona, a mataram e atiraram para fora da vala. Como os rebentamentos continuaram, tornei ao interior da vala. Foi uma incursão breve, pois duas lombrigonas, filhotes da falecida, andavam no fundo aos pinotes…

Cedo nos confirmam o que já se esperava: a morte do furriel Fernandes. Um pouco mais tarde, sucumbe também devido aos ferimentos o soldado da CCaç 19, António Talibó Baio.


27 de Maio

Sou mandado chamar à secretaria. Sou, isto é, ninguém reclama o meu nome, querem é a presença do “mais-velho” graduado dos pelotões da CCaç 3518. Lá fui, não por ser “mais-velho” de nada, mas por ser o único dos seis graduados que vieram do COMBIS que ainda podia andar com relativa ligeireza. Um alferes (não me lembro de o ter visto antes, deve ser da CCaç 19) pede-me que mobilize quatro soldados que devem apresentar-se ali uma hora depois, para ajudarem a sulcar novas covas, pois o comandante decidiu mandar enterrar os defuntos que restavam na enfermaria. E repete-me as explicações que é possível dar: a situação é insustentável, não se prevêem evacuações, o cheiro já não se aguenta… Sim, é evidente que serão também sepultados os homens da minha companhia. E devo preparar uma secção que, tão ataviada quanto possível (os mais limpinhos e com camuflados menos rasgados?), irá prestar as honras militares durante o funeral, porém, sem salvas de tiros para o ar, para se evitar o charivari da cerimónia anterior com os camaradas pára-quedistas, e também para que o IN não contabilize de ouvido o número das nossas baixas.

Dói-me participar nos enterros do Machado, do Telo e do Ferreira, particularmente nestas condições. E não se sabe quanto tempo irá durar a débil respiração do Gonçalves. Meu caro, – advertiu o alferes, – é o que tem de ser feito e não há que hesitar. Apesar de compreendida, às primeiras impressões a solução não é bem aceite. Dizem-me os soldados em tom de revolta que fazem e acontecem e que levam os corpos às costas até Bissau, e por aí fora! Deixar os corpos em Guidaje é que está fora de causa. Mais tarde, conformam-se, alguns de lágrimas nos olhos.

À hora marcada, transportam-se os corpos para o local que, embora já conhecido por cemitério “provisório” de Guidaje, tem um número reduzido de sepulturas. De facto, não alberga a maioria das vítimas da batalha que travamos, nomeadamente os comandos tombados durante o assalto a Koumbamory, enterrados algures.

Os dez voluntários de Os Marados de Gadamael a quem dei refrescamento prévio de “ordem unida” já se encontram perfilados junto aos jazigos cavados durante a manhã, comigo à frente. Apesar da profunda tristeza, foi caricato ter passado o resto da manhã a treinar manobras com as G3 com estes homens, até que atinassem, e mal, com a posição de funeral-arma, difícil de efectuar devido ao maior número de movimentos de braços que é preciso efectuar. Haviam-na treinado uma única vez, na recruta. Quase dois anos depois e numa ocasião destas, a motivação para treinos de ordem unida também não é muita…

Outros homens, em especial os membros da companhia, concentram-se nas imediações para um último olhar, uma despedida dos camaradas que viram a vida ceifada pela morteirada filha da puta. Experimentem enterrar um irmão no quintal para perceberem o que isto é! Jazem neste quintal de casa alheia, logo adiante, os restantes corpos que já referi. Todas as campas têm espetadas em cima cruzes de pau, e já existem outras cruzes prontas para serem espetadas na vertical sobre os novos defuntos que, por agora, estão deitados no chão, embrulhados em panos de tenda, lençóis, penso que também em rolos de gaze e adesivos, cada qual frente à cova que não sabemos se será a sua derradeira morada. Chega o tenente-coronel Correia de Campos, pela posição em que me encontro, à frente dos soldados já perfilados, percebe que serei eu a gritar as palavras de comando e faz-me sinal com o pingalim para que inicie a cerimónia.

Grito “firme”, “sentido”, etc., até ao “funeral arma”! Faço continência ao comandante sem saber o que procedimento deveria seguir-se (já sabia que não daríamos tiro algum em honra dos tombados). O comandante murmurou algumas palavras de circunstância a rimar com pátria e nação, que estamos aqui para render homenagem a estes nossos heróis, mas as condições ditam que temos de ser breves, e manda avançar os dois africanos da CCaç 19 e os dois madeirenses da minha companhia (tenho ideia de que um deles era o Abreu, do meu pelotão), que em silêncio, neste caso, verdadeiramente sepulcral, da direita para a esquerda e um por um, começam a descer os corpos e a cobri-los com pás de terra.

Quero lembrar-me de outras imagens desses companheiros, mas vivos, como se fosse possível não arquivar na memória esta forma de os ver desaparecer sob as pazadas de terra. O primeiro a ser depositado é o corpo do Fernandes. O que pensar a seu respeito, se mal o conheci? Só o convívio recente, o rogar pragas à vida, o ter falado mais que uma vez da sua origem, da aldeia de onde é natural, – Carção, e por não sabermos onde fica nos explicar ser terra de almocreves e a capital portuguesa dos marranos (judeus convertidos à força) e que conserva as tradições dos “cristão novos”, como o pão ázimo, feito sem fermento e para ser comido durante a Páscoa judaica. Ficas aqui a dois passos do teu quase vizinho Geraldes, de Algoso. Será que chegaram a conhecer-se?

O soldado Manuel Geraldes, – o primeiro corpo sepultado na fiada de campas onde se encontram os três pára-quedistas, – era apreciado na freguesia de Algoso pelas qualidades pessoais, que deviam ser muitas, tal a saudade que deixou, não apenas entre familiares, conforme ficou demonstrado tantos tempo depois, quando o seu corpo foi exumado e trasladado até ao Vimioso. Ainda foi recordado ser um rapaz trabalhador, por ter um gira-discos trazido de França que ajudava a animar a juventude local do seu tempo, organizando bailaricos e puxando-a também para o futebol.

Segue-se o Telo. Até sempre, Telo! Por este andar, até breve, amigo! Também já não devemos resistir muito, a quantas mais morteiradas vão esquivar-se os nossos corpos? Já sentimos saudades tuas. Os teus familiares, esses, já as sentem desde que partiste de Paul do Mar, da fajã linda e sossegada que tantas vezes enalteceste, da salina antiga onde começaste a dar os primeiros chutos numa bola, da igreja que ajudaste a construir e onde foste sacristão. Adeus companheiro, para além do militar exemplar que te revelaste ao longo deste tempo em que caminhámos todos juntos, demonstraste perante nós uma atitude e uma educação invulgares. E foste o atleta que muitos de nós também gostaríamos de ser, – tão depressa, o União da Madeira não vai arranjar um substituto à altura para constituir o onze… Já não apanhas mais o barco até ao Funchal, capaz de regressares a casa só quinze dias depois, passados em treinos e jogos pelos pelados da ilha. Só assim se formam os verdadeiros atletas! Lembras-te, camarada, do belo Dia da Infantaria (14 de Agosto) em que, para queimar o tempo e animar as hostes em Gadamael, o capitão resolveu comemorar com uma mão-cheia de actividades desportivas e ambos fizemos parte da equipa de voleibol? Ganhámos que nem ginjas o primeiro lugar e limpámos o prémio das duas grades de cerveja à equipa de “Os Pipas”, – vinda expressamente de Cacine a bordo dos Sintex, –  e vingámos a derrota por 2-0 no futebol… E tu, – quem mais poderia ser? – ex-aequo com os furriéis Custódio e Almeida, ainda ficaste em primeiro no salto em altura… Por agora, Telo, ficas aqui, em solo africano. Podem dizer cobras e lagartos de que vieste para a Guiné fazer a guerra, mas tu há muito que combatias era pela paz no continente negro, há muito que enviavas donativos para ajudar as crianças de África, através das missões católicas em que militavas.

Passados dias será mandado um telegrama para a Fajã da Ovelha dirigido aos pais. Perante o remetente, já conhecido, nenhum carteiro o quis entregar, nem ler o conteúdo pelo telefone. A irmã do Gabriel Telo, mais nova dois anos (Gabriela) estava sozinha em casa e vieram chamá-la para ir atender um telefonema à mercearia. Era para levantar o telegrama na Fajã, para onde não tinha meios de se deslocar. Desconfiou que fosse algo relacionado com o irmão mais velho (eram cinco ao todo, três rapazes e duas raparigas). Lá conseguiria uma boleia e acabou por ser um outro irmão, ainda mais novo, quem foi buscar a notícia, que a todo o custo queriam ocultar à mãe, para adiar o desgosto. Mais tarde veio a mala e os pertences, gerando novas angústias e a revolta por nada mais haver a fazer, que o corpo já estava enterrado. Quem poderia imaginar que o mesmo corpo chegaria à terra 36 anos depois e que, a pedido da família, iria restar no mesmo local onde o pai, João de Jesus Telo, fora entretanto sepultado? “Agora ele está na sua terra!” A vida tem destas coisas. O Telo (e também um irmão mais velho) foi jogador no União da Madeira. Nesse tempo, os clubes pagavam a outros militares para que fossem mobilizados no lugar dos seus craques (o regime não se opunha a tais trocas, e nem protegia só os atletas, mas as gentes endinheiradas, cujos filhos, caso enveredassem por tal “modalidade”, ou não iam à guerra ou o faziam a cobro de especialidades não operacionais). No caso do Telo havia já um voluntário, só que este, à última hora, terá sido também mobilizado e a troca abortou. Era um homem bondoso. Quantos de nós, no regresso de férias da metrópole, nos lembrámos de trazer roupas “para os pretinhos”? Ele fê-lo! O destino existe? O Telo e os outros do seu pelotão, poderia nem ter ido parar a Guidaje. Seria o quarto pelotão a alinhar na malfadada coluna a (presumiam os soldados) Farim, mas como o respectivo alferes (António Francisco Lopes Monteiro) passou a ser o comandante interino da companhia devido à ausência do capitão, que estava de férias no Porto Santo, alguém entendeu ser preferível escalar os primeiro e segundo pelotões naquele dia de Maio de 1973.

Agora, caro João, és tu a descer à cova. Já estilhaços traiçoeiros te tinham ferido na estrada de Guileje (aquela mina maldita que ceifou a vida ao Raposeiro e que também feriu o soldado João Manuel Oliveira, do pelotão Fox 2260, em 7 de Agosto do ano passado). Foste evacuado para Bissau, depois para Lisboa e, tratadas as feridas, vieste cair de novo neste lamaçal. Pensar que voltaste há pouco mais de três meses à companhia para ficares agora neste estado? Que pôrra, Ferreira, também contigo somos levados a acreditar no destino? Já tinhas o teu quinhão, rapaz!

E tu, meu querido camarada e amigo Zé Carlos? Que grande partida te pregaram! Não lembra ao diabo que por vires trazer madeira para reordenamentos acabarias por morrer neste inferno, tu que te calhou em sorte teres o reordenamento como tarefa, o capitão não te mandou a Bissau para tirares o estágio há um ano e picos? Nunca, meu amigo, nunca te vi de verdadeiro mau humor, sempre cordial com toda a gente. Tanto que, quando azedavas, quando te fazias de zangado, ninguém te levava a sério. Nas nossas brincadeiras de garotos, digo bem, acordarmo-nos uns aos outros arremessando botas para cama alheia não é próprio de homens que andam na guerra, nem as camas à espanhola nem os baldes de água nos umbrais das portas, divertimo-nos imenso com estas e muitas outras brincadeiras de garotos. Tiveste sempre a habilidade de contabilizar mais partidas aos outros do que encarnares o papel de vítima. Taparam-te agora o rosto, embrulhado dessa maneira. Mas estou a imaginar por baixo da gaze o leve sorriso que sempre te vimos nos lábios, como que a dizer-me, desta vez, apanharam-me, fui eu que caí, mas na volta já vos fodo!

Também em Sá, concelho de Valpaços, a família do José Carlos Machado amenizou a angústia e o pesar trinta e seis anos depois. “Já o cá temos connosco”! Irmão, mãe e pai (com o qual, se bem me lembro, por circunstâncias da vida o Machado conviveu durante pouco tempo), todos em lágrimas, como se o Mundo estivesse parado ao longo desta eternidade, por uma incerteza, um enterro não resolvido. Em 1973, a notícia oficial chegou a Sá igualmente através de um telefonema para o posto público: os familiares andavam a tirar ervas de uma terra de batatas e foram obviamente apanhados de surpresa. É que, apesar de quem tinha lá fora os filhos e os maridos andar sempre com o coração em sobressalto, temendo o pior, restava sempre a esperança de que as desgraças que abalavam todas as localidades do país acontecessem só aos outros…

Embora ninguém mo tenha solicitado, memorizo a ordem por que ficam em repouso para elaborar e entregar mais tarde um croquis. O comandante do COP3 manda destroçar  e abandona o local quando o corpo do Machado desaparece sob a terra. Nada mais há a fazer e digo ao meu pessoal que pode regressar às valas onde “residimos”. A maioria não arreda pé tão depressa e deixa-se ficar a olhar as sepulturas, num último adeus. Dois soldados passam as armas aos parceiros do lado, ajoelham-se, fazem o sinal da cruz e rezam. Os camaradas que fazem de coveiros alisam a terra com as costas das pás e espetam as cruzes de pau improvisadas, que ali ao lado aguardavam o seu destino. Interrogo-me se e quando seriam resgatados os corpos destes camaradas?

Neste dia imaginei que quando a situação operacional estivesse normalizada fosse possível levantar as campas e transportar os féretros para Bissau e daí para os seus destinos (famílias). Mais tarde, a seguir ao 25 de Abril, pensei que antes da retirada da Guiné-Bissau, as autoridades militares acautelariam essa questão em devido tempo. Era a altura ideal, antes da passagem administrativa do poder para as novas autoridades. Depois ficou a incógnita, o território passou a ser um Estado independente e a burocracia e confusão das primeiras décadas de soberania só poderiam trazer dificuldades, tanto mais que a política externa dos governos portugueses, sobretudo nos anos 70, 80 e ainda 90, foi sempre uma lástima no tocante a cooperação, por motivos que são basto conhecidos e que não vêm à baila nestas páginas. Por que é que isso não foi feito (nem com estes nem com outros corpos sepultados nas antigas colónias), só quem lá esteve nessa altura poderá eventualmente ter explicações. Curiosamente, o BCaç 4512, – uma das unidades com mais vítimas mortais durante esta “crise” e a cuja primeira companhia pertencia o soldado Geraldes, um dos corpos a exumar, – comandado pelo tenente-coronel de infantaria António Vaz Antunes, foi quem “comandou e coordenou a execução do plano de retracção do dispositivo de desactivação e entrega dos aquartelamentos ao PAIGC, a qual foi efectuada no subsector de Guidaje, em 21 de Agosto de 1974”. Na perspectiva de uma qualquer iniciativa, coloquei a questão ainda nos anos oitenta durante um encontro/convívio de “Marados” em Lisboa. Há muito que tinham passado os cinco (havia quem dissesse sete) anos, tempo mínimo técnica e legalmente (?) para se poder proceder ao levantamento de ossadas. (Maria Lourenço, irmã do pára-quedista Lourenço da CCP 121, disse que recebeu a notícia da morte a 28 de Maio de 1973, e que lhe disseram que nada havia a fazer quanto a funerais, pois o irmão já estava enterrado e “só quando fizesse sete anos é que mandavam os ossos”). Por razões pessoais, eu vim a ter bom relacionamento com dirigentes do PAIGC e admitia ser bem sucedido para obter autorização do governo de Bissau com vista a desbloquear os procedimentos administrativos e tratar do assunto. Um dia, em Fevereiro de 1987, aproveitei uma conversa com Vasco Cabral (por coincidência, nascido em Farim e que, escapando por um triz à morte quando do assassinato do líder do PAIGC, viria a falecer muito recentemente, suponho que há dois anos) e pedi-lhe uma opinião sobre o assunto. Apesar de torcer o nariz ao precedente e de considerar que “mexer nos mortos é sempre complicado”, disse-me que nunca ninguém teria levantado essa questão, pelo menos que fosse do seu conhecimento, mas que as autoridades não deixariam de analisar e de encontrar a melhor solução para que os corpos sepultados em Guidaje pudessem voltar às suas famílias. Apesar do apelido e de estar na génese da criação dos movimentos de libertação nacional das ex-colónias, Vasco não tinha qualquer parentesco com Amílcar Cabral. Ambos, conjuntamente com Agostinho Neto e Mário de Andrade (angolanos) e Marcelino dos Santos (moçambicano), todos a viver e/ou a estudar em Lisboa, foram os dinamizadores das actividades da Casa dos Estudantes do Império, ao Arco Cego/Lisboa, integraram o MUD Juvenil (Movimento de Unidade Democrática, ao lado de muitos anti-fascistas portugueses), entre outras façanhas que marcaram a nossa história política e cultural. No encontro de Marados em Lisboa, a minha proposta foi derrotada pelo argumento do reavivar desnecessário dos choques para as famílias e, democrata que sou, aceitei também o silêncio. A questão das famílias é argumento válido para muitas delas, mas não para a maioria, como se tem demonstrado. As famílias dos três pára-quedistas da 121, as do Telo, do Machado e do Geraldes viram com bom olhos as trasladações… Um funeral adiado só prolonga o sofrimento, a constrição, é um nó na garganta. O enterro, religioso ou não, consuma a despedida, encerra o ciclo. 

167-A ressaca

(Texto do Daniel de Matos)

Infelizmente, o meu amigo Daniel de Matos, autor desta  linhas, faleceu no dia 13 de Novembro de 2011
25 de Maio

O dia decorre com a tensão do costume. Perguntamo-nos se não estaremos com fome e concluímos que antes o aperto no estômago que o risco de ir à messe e ser surpreendido por um balázio à ida ou à volta. Já perdemos o apetite, esquecemo-nos de comer, as horas e dias passam e nem damos pela necessidade de comer... Quanto alguém está de maré e se deita ao caminho, ao longo da vala que passa mais próxima do refeitório ou da messe, cravamos a esse parceiro um prato, tigela, marmita, o que houver com comida e nos puder transportar trazer com nas mãos, à cabeça, como puder. Cada qual passa a trazer para o abrigo o número de refeições que o vasilhame permitir e dividimos os morfos. Sede? Também já não sentimos, que se lixe a água. Somos novos e o corpo aguenta. Aprendemos a compartilhar, a dividir a bianda, que da última vez apareceu no lugar do esparguete e, em vez da salsicha, os cozinheiros foram desencantar sardinha em lata.

Há quem dialogue sobre as informações prestadas pelo pára-quedista quanto à saída de Guileje, questionando se não será também uma boa “saída” para nós, em… Guidaje. Sim, há que pôr sobre a mesa todas as possibilidades e equacioná-las. Uma tal hipótese teria de ser bem medida, teríamos que avaliar todas as consequências. Até se admite que uma coluna em debandada mais facilmente sairá de Guidaje por terrenos senegaleses do que em direcção a Binta. Sem se pôr de parte a ideia (um miliciano da CCaç 19 alvitra que nesse caso deveríamos entalar o comandante, “encostá-lo à parede” para que também adira), vinga a opinião mais sóbria de que uma solução militar haverá de encontrar-se para nos safarmos. Apesar do estado psicológico (moral em baixo) e dos desaires anteriores, contando os homens que aqui estão sitiados, nenhum de nós quer acreditar que numa operação em força não consigamos mesmo furar as barreiras do PAIGC.

A improbabilidade de se fazerem evacuações de feridos e mortos, o tempo quente e a quantidade de corpos em decomposição (o cheiro que exala da enfermaria é horrível), leva o pessoal da enfermaria (um primeiro-sargento e alguns auxiliares e maqueiros), que já não consegue acudir às gangrenas, a derreter velas e a tapar os orifícios dos mortos (nariz, boca, orelhas) com velas de estearina. Os corpos são trancados numa sala afastada da enfermaria propriamente dita, mas o cheiro pestilento escapule-se pelas frestas da porta, pelo buraco aberto pela morteirada no canto da parede… Sem perspectivas de tão depressa haver coluna que possibilite a saída do pessoal e sem restar um único caixão livre nem havendo a mínima possibilidade de o construir de improviso, Correia de Campos fala com os comandantes das unidades respectivas e é decidido enterrar os mortos mais “antigos”, no sítio onde já repousam dois cadáveres, que é no perímetro externo das fiadas de arame farpado, “a 25 metros da caserna do lado sul e na direcção do azimute 112”.

Há pára-quedistas a meter bala na câmara, dá a sensação que se preparam para sair, embora a hora não pareça a mais propícia (se é que ainda existem horas melhores e piores para o efeito). Se eles abalarem, nós vamos atrás, admitimos. Afinal, trata-se dos preparativos para enterrarem os seus três camaradas (abatidos na emboscada de dia 23). São abertas covas no local onde já repousam os soldados Manuel Geraldes (da 2ª companhia do BCaç 4512/72, que teve morte brutal, a 10 de Maio, também dia de crise e de isolamento locais), e Becute Tungué, do 4º grupo da 3ª companhia de comandos (ferido na operação Ametista Real).

São numerosos os pára-quedistas da CCP 121 que vão dirigir um último adeus aos camaradas António Vitoriano, José Lourenço e Manuel Peixoto, ao lado dos quais ficará também o corpo do soldado António Talibó Baio, da CCaç 19. O comandante comparece para dirigir as cerimónias. Atrás dele estão outros graduados, nomeadamente o alferes Luciano Diniz, que por ser madeirense aproveita estes dias para matar saudades da terra e sempre que pode vem tagarelar com os nossos soldados. Os semblantes estão carregados, nem poderiam estar de outra forma. Depois das continências e das palavras de Correia de Campos, os pára-quedistas apontam as armas ao alto e dão três 3 tiros sincopados para o ar. São tiros da cerimónia militar, mas o IN que tem vigilantes sobre as árvores mais próximas da fronteira e controla os nossos movimentos, pensa que o estão a atacar e reage ao fogo, naturalmente que levando o pessoal a abrigar-se. No meio da precipitação o alferes da companhia africana atirou-se mesmo para dentro de uma das campas. O fogacho não dura muito, clarifica-se o equívoco e os corpos são tapados com terra. Só no fim o pessoal se retira, angustiado, alguns temendo ver o seu futuro a passar por aquele espaço nas costas da caserna do lado sul…

Os pára-quedistas e todo o pessoal que assistiu à cerimónia fúnebre regressam aos seus lugare e a circulação volta a ser quase nula. Está um ror de gente dentro do perímetro do quartel e quase não se vê vivalma, tudo enfiado nos buracos. Nem os poucos que restam a morar do lado civil metem o bedelho de fora. Nas moranças residem essencialmente as famílias de militares africanos da CCaç 19. Em geral, são desarranchados, isto é, atravessam a passagem que divide o arame, tipo porta de armas, e vão comer e dormir “a casa”. E habita ali também um par de djilas, comerciantes da raia guineense que fazem o seu contrabando de produtos, fronteira cá fronteira lá, quando os dias estão bons para o comércio, o que não acontece agora. Costumam falar francês muito bem e ser utilizados como informadores, soa que muitos são agentes duplos que levam e trazem o que os dois lados da contenda querem ouvir. Não faço ideia se tal se passa com os que aqui moram.

Estamos sentados nas camas (dificilmente conseguimos deitar-nos os oito ao mesmo tempo em camas tão apertadas), uns encostados à parede, outros debruçados sobre os joelhos. Fumamos quase todos Português Suave, sem filtro, o “barista” disse que já não há de outra marca. Mas o tabaco ainda não faltou e, se nenhuma bernarda der cabo do stock, ainda há bastantes pacotes entre as paredes que restam do armazém. Por isso, fuma-se. Que mais se pode fazer? A lâmpada de 25 velas que parece querer desprender-se do casquilho do tecto alumia o abrigo que, a esta hora, parece ter paredes de ardósia. Irradia uma luz que dança consoante o gemer do gerador. Quando a corrente baixa quase se oculta por cima na nuvem de fumo em que estamos. De dia ainda vamos fumar lá para fora, só que de noite poucos se arriscam a transformar-se num alvo luminoso e apetecível. Não me lembro de quantos fumamos ao mesmo tempo nesta cova sem janelas, mas devemos ser muitos. Para já, arrumados como podemos, estamos cá dentro eu, os alferes Igreja e Cruz, os furriéis Monteiro, Machado, Silva e Fernandes e o nosso cabo artilheiro.

Já se dormita quando damos por novo ataque de artilharia. São mais levas de granadas, (serão seis de cada vez?), a estoirarem bem no interior da guarnição. Dá a ideia que os tipos nem se deslocam com o armamento, sabem que não conseguimos desalojá-los e têm os canhões, morteiros e o carago todos os dias no mesmo sítio, prévia e certeiramente apontados a nós, é só passarem por ali de vez em quando, meter munições e catrapumba! O alferes Diniz e soldado Talibó, ambos da CCaç 19, que estão de passagem, descem os degraus do abrigo e vêm refugiar-se ao pé de nós. Também o furriel de operações e informações Carlos Jorge Pereira, que viera de Bigene com Correia de Campos e tinha sido incumbido de conferir o número de munições de Obus existentes no aquartelamento, se apressa a saltar cá para dentro. Um outro militar africano entra atrás dele, porém, escapa-me a sua identidade. As granadas rebentam cada vez mais perto de nós. Ouço palavrões lá de fora que as mães dos atacantes não gostariam de ouvir. Por instantes, parece que tudo se vai acalmar, mas ainda estamos a respirar fundo e outros silvos anunciam a queda de mais bombarda.

Na sequência duma granada que estrondeou tudo em redor do abrigo, faltou-nos a luz. De dentro do buraco não percebemos se o corte é geral ou se apenas a lâmpada do abrigo, de tão fraquinha que se mostra, foi desta vez que se finou. Os minutos passam e a intensidade do fogo sobe de tom. São maiores e mais assimétricos os rebentamentos. Como no último ataque houve feridos nas valas (um projéctil cair dentro de uma vala de meio metro de largura é uma probabilidade reduzida) há mais pessoal a rastejar por elas em direcção ao Obus e a vir abrigar-se junto de nós. Às escuras não os identifico, mas rapidamente percebo pelas vozes que entram o cabo Telo e os soldados Ferreira e Gonçalves, todos da minha companhia. Trazem consigo o cabo Santos, do COMBIS, que veio connosco na operação. Alguns arranjam lugar nas camas de cima e por aí se acomodam. Outros, sem espaço, ficam de pé na pouca área que sobeja entre os degraus e as camas. Nota-se um certo abrandamento no fogo, mas sentimos que os rebentamentos estão muito concentrados à volta do abrigo e cada vez parecem mais próximos.

Há opiniões, que só mais recentemente conheci, de que os postos de artilharia eram os alvos a atingir neste ataque específico do PAIGC, que faria o tiro com observadores avançados, como numa carreira de tiro. Essa tese é sustentada pelo capitão Salgueiro Maia no livro Capitão de Abril – Histórias da Guerra do Ultramar e do 25 de Abril, Editorial Notícias, Novembro de 1997. pág. 64)

É aflitivo estarmos enfiados num buraco sem luz, sem nos vermos uns aos outros e sem controlarmos o que se passa lá fora. Já nas noites anteriores havíamos admitido que um dia destes “eles” viriam atacar-nos ao arame, com armas ligeiras e, de passagem pelo abrigo, bastava atirarem uma granada-de-mão cá para dentro para nos limpar a todos…

Num instante, fez-se um clarão capaz de cegar qualquer um, não sei bem dizer bem o que se passou. Quer dizer, sei, mas há um hiato de tempo em que não me lembro de nada. Uma granada imensa perfura o tecto que tínhamos como muito seguro e provoca o caos. Confesso que não me lembro patavina do estrondo, apenas do clarão. Passado não sei quanto tempo abro os olhos e os meus braços tremem sem que consiga controlar os movimentos. Eu devo ter desmaiado por alguns instantes, nem faço ideia se breves, se longos! Estou sentado ao fundo, na cama de baixo, do lado esquerdo. Oiço gemidos vários. O Igreja grita roucamente “as minhas pernas, ai as minhas ricas perninhas”, apercebendo-se que as tinha num crivo de estilhaços. O Cruz (ferido num pé, viu-se depois que sem gravidade) trepa à superfície, aparentando estar coxo ao subir os degraus um por um, parece-me que auxiliando o Monteiro, que dobra uma perna com dificuldade. Também o cabo artilheiro sai, puxado por alguém que lhe estica os braços lá de fora. Vai muito queixoso e parece bastante debilitado. Lá fora o Obus dá um disparo, depois outro.

Só bastante mais tarde vim a saber que o soldado Vieira, sem nunca obter formação para tal, recebeu ali mesmo umas dicas do cabo artilheiro e, provavelmente sem a melhor das direcções, agarrou-se ao Obus 10,5 e desatou a responder ao fogo inimigo. Foi mandado parar, para evitar o desperdício de munições e porque, entretanto, haviam chegado maqueiros que levaram para a enfermaria os feridos mais graves, nomeadamente o soldado Gonçalves e o furriel Fernandes, cujos ferimentos eram de tal monta que “ninguém já dava nada por eles”…

A meu lado, o Silva desata a rezar a Avé Maria em voz alta e eu, porventura mais assustado do que ele, dou-lhe um valente safanão e imploro-lhe: “cala-te caralho”! Nem sei mesmo (nem ele o saberá) se o sítio das costas em que o empurrei foi o mesmo por onde um estilhaço o tinha perfurado, mas nada de importância. Eu queria ouvir bem o que se passava em redor, sobretudo lá fora. Percebo muito próxima uma respiração irregular, gorgolejante. Guio-me pelo ouvido e concluo que o ruído dos borbotões tem origem no corpo do Machado, que sei estar sentado da mesma coma que eu, na outra ponta. Apalpo-lhe o corpo e trago na mão uma substância quente e pegajosa. Foi atingido no peito e o sangue das feridas entope-lhe a respiração. O som atrofiado apaga-se suavemente e com ele percebo que também o Machado se apaga, atravessado na cama, encostado à parede e pernas de fora, estendidas. Depois, bem, depois acho que me fui outra vez a baixo das canetas, já que não me lembro de ver o Silva sair nem os outros feridos, como o alferes Luciano Diniz, também com as pernas bastante danificadas por estilhaços. Se estivesse acordado certamente teria saído com eles; se estivesse acordado também eles dariam por mim e não me deixariam ali “sozinho”!?

Quando recobro noto um silêncio estranho. Gritos e lamentos que ouvira antes desapareceram em absoluto. E é esse vácuo que me desperta os sentidos, sobretudo o auditivo e o olfactivo. A fumarada, que agora não é provocada pelos cigarros, some-se muito, muito lentamente. Percebo isso ao ver no tecto, no lugar da desaparecida lâmpada de 25 velas, aparecer um círculo baço de céu a querer impor-se à escuridão. É estranho que só neste momento interiorize que fomos atingidos pelo IN (granada de Morteiro 120 mm).

Passo as mãos pela cabeça, pelo rosto, ao longo do camuflado e em todos os lugares dou por mim encharcado. Cheiro as mãos, o odor pastoso do sangue invade-me as narinas e provoca-me um vómito. Penso para comigo que estou ferido. Bem, nada me dói em particular. Também o desenho dos primeiros degraus, aos pés da cama, para lá das pernas do Machado, parece furar a escuridão. Interrogo-me sobre o que faço aqui e resolvo sair. Ergo-me, tento apoiar-me nos ferros das camas de cima e, de cada vez que pouso as mãos sinto que o faço sobre corpos que nem consigo imaginar a quem pertencem. Antes, nunca imaginei que pudesse haver mais vítimas mortais para além do Machado. Tento dar um passo em frente no estreito “corredor” entre camas e piso um corpo. Alargo o passo e tropeço nas pernas que podem ser do meu amigo ou de outro camarada qualquer. Quem serão estes companheiros? E se algum deles ainda vive? Que maleita poderei causar-lhe, calcando-o e passando-lhe por cima? Desespero e sento-me no mesmo sítio. É curioso que, fumador inveterado desde muito novo, não me lembro de alguma vez não trazer lume comigo. Sempre usei isqueiro mas, dada a dificuldade de arranjar pedras e gasolina no mato compro sempre carteiras de fósforos (de cera, que os de madeira apagam-se mais com o vento). Logo agora, não tenho uma coisa nem outra e não consigo iluminar a saída e zarpar daqui para fora, para o pé dos outros, onde estarão?

Guio-me mais uma vez pelo ouvido. Qualquer coisa frita baixinho a cama à minha frente. Ajoelho-me, estico o braço e apanho o “rádio-banana” (AVP-1) utilizado pelo cabo artilheiro e que a explosão deve ter projectado para ali. Como estava farto de ouvir o nome de código do comandante arrisquei:
– Águia Águia, diga se me ouve, escuto!…
Aí à terceira tentativa irrompe a voz do tenente-coronel a responder. Queixo-me que estou no abrigo do Obus, com vários mortos em redor (da existência destes, logicamente, ele já sabe), que está escuro como breu e que preciso de ajuda para sair. Correia de Campos assegura-me que enviará alguém ao abrigo logo que seja possível, pois a barafunda é grande na enfermaria. Aguardo prolongadíssimos minutos e por fim oiço o milagre de duas vozes que se aproximam e passos temerários a descer os degraus do abrigo. Um clarão de lanterna percorre rapidamente o interior:
– Ena como isto está! – exclama um dos homens. Ele vê (e eu também, pela primeira vez), as silhuetas dos camaradas que jazem sobre as camas e no chão.
– Alumia aqui para o fundo! – peço-lhe.
– Olha pá, está aqui um gajo vivo! – exclama o soldado da lanterna.
Ilumina-me, então, a passagem. Alargo o passo para ultrapassar um corpo tombado a meus pés e, logo depois, passar por cima das pernas esticadas do Machado. O espaço entre as camas é exíguo (a minha memória visual aponta para os 40 centímetros) e à passagem raspo o meu ombro num braço que pende da cama superior. O braço, que só deve estar preso ao corpo por umas farripas dum sovaco de dólmen, cai ao chão. O som cavo que provoca só desaparecerá dos meus ouvidos no dia em que a morte também me bata à porta.

O soldado não me deixa ver bem os terrenos que piso, talvez para não me impressionar. Os repentes da lanterna deixam-me identificar os rostos dos meus camaradas Telo e Ferreira e do soldado da CCaç 19 que durante o ataque se refugiou no abrigo com o alferes madeirense. Cá fora, abatido com o que vi, sento-me no chão, no lado interior da cerca de bidões cheios de terra que protegem o Obus. Puxo dum cigarro e peço lume ao soldado (europeu, não sei de que unidade) enviado pelo comandante. Acendo o cigarro com o quico a fazer de abat-jour e não sei se alguma vez na vida estive tão triste e angustiado como neste momento. Os dois soldados voltam ao interior do abrigo e um deles sai a correr, para regressar três minutos depois com uma maca e mais um ajudante. Algo os fez desconfiar que o corpo do africano deitado no chão ainda respira, pelo que decidem transportá-lo para a enfermaria, quem sabe? Em vez disso, chamar um enfermeiro não seria a melhor opção, estavam todos sem mãos a medir.

Volto a apalpar nuca, pescoço, peito, tudo o que as mãos alcançam até me certificar se não estou realmente com ferimentos. É “apenas” o sangue dos meus camaradas que me ensopa da cabeça aos pés e isso já é ferida bastante. Deito um derradeiro olhar para dentro do abrigo e retenho a imagem do gravador de Akay virado do avesso, no chão. Sigo atrás da maca até à enfermaria para me inteirar do estado dos evacuados, pois nem sabia ao certo quem sofrera o quê. A azáfama é tanta que me barram o caminho, os enfermeiros não deixam entrar ninguém. Encontro finalmente o Ângelo Silva, abraçamo-nos em lágrimas (confirma-me que levou apenas com um pequeno estilhaço nas costas) e fico a saber por ele do estado dos restantes militares da companhia. O Gonçalves, que dificilmente resistirá a tão profundos ferimentos, é um caso à parte. Dos restantes, a mais complicada é a ocorrência do Igreja, bastante atingido mas felizmente só nas pernas e, informara o sargento enfermeiro, dos joelhos para baixo. O Monteiro tem também um joelho bastante ferido e o Cruz um estilhaço no pé, coisa de pouca monta, o mesmo sucedendo com o nosso cabo de artilharia. O alferes madeirense da companhia africana (Diniz) tem nas pernas ferimentos parecidos com os do Igreja, embora pareça que houve estilhaços que lhe atingiram os ossos. O estado do furriel Fernandes é bastante crítico. Nada sabemos quanto ao furriel de operações e informações que entrara no abrigo, deve-se ter safado e, se assim foi, verificamos que os nossos corpos (que não a nossas mentes) terão sido os únicos a esquivar-se aos estilhaços…

Por heresia do destino, este é o proclamado Dia de África (também Dia da Libertação de África), por ser a data da fundação da OUA, – Organização da Unidade Africana, fundada a 25 de Maio de 1963, – “para o Mundo celebrar com os africanos, medindo o progresso que este continente faz na comunidade internacional”… Penso que, pela nossa parte, estamos a pagar uma factura pesadíssima para assinalar este 10º aniversário! Por estes dias, durante a crise de Guidaje (e ainda antes do que viria a passar-se a sul, em Guileje), o comandante-chefe informou o titular da pasta da Defesa, – ministro Silva Cunha, – que “nos aproximamos, cada vez mais, da contingência do colapso militar” e que, “de há uns tempos para cá o PAIGC alcançou uma inesperada supremacia em potencial de guerra”. O homem parece que é bruxo, digo eu, mas anos mais tarde…