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30 de outubro de 2011

289-O Choro de Mosongo

 ENQUILlM - pequeno tambor feito em madeira da terra - em ritmo convencional, ouvia-se à distância, a transmitir aconteci­mento raro.
A notícia, veloz como o vento, ultrapassara matas e campa das, rios e bolanhas e chegar-a a lugarejos recônditos de palhotas anichadas entre matas exuberantes, a anunciar a morte de Monsongo.
Balantas folgazões, entretidos com as lavras, ora cantando, ora soltando gargalhadas trocistas, misturadas de pilhérias maliciosas, acusam-se mutuamente de estranhas aventuras - furtos de mulheres e de vacas - façanhas cheias de riscos por estarem sujeitos a serem apanhados de surpresa.
 distância, para as bandas do palmar, situa-se a «lagoa grande~, éden de caça plumosa, refúgio dos mais variados espécimes, onde centenas ou talvez milhares da patos marrecos, patos ferrões, águias pesqueiras, corvos marinhos e pica-peixes malhados vivem entre alismas amarelejadas. Era local seguro, desde que intrépidos caçadores, como o Barbosa da Imprensa ou o cabo Machado, não se lembrassem de entrar na bolanha, por vezes em manhãs de céu plúmbeo, chuvosas e frias, com água pelo peito! Nessas manhãs era o fim. Sempre que a lala silenciosa, ao romper da alva, acordasse em sobressaltos, na «lagoa grande: matança extraordinária era facto consumado. Quatro tiros apenas ... e a caçada - a grande caçada daquele domingo - redundara em pleno êxito. Horas depois. em Jabadá, o Pires do Jamíl, homem alegre e bom porque era justo, recebia sorridente a remessa dos saborosos palmípedes, carne excelente para a famosa «cafrialada», pitéu ainda hoje preferido pelo branco que vive no mato.
Lavradores balantas, com arados primitivos, continuavam a reta­lhar a terra ensopada da bolanha imensa, que se estendia até à barreira amarela esverdeada de mangais e de tarrafe, que ao longe definia o limite das águas na preia-mar, Os balantas trabalhavam com ânimo, porque anteviam aquelas terras esplêndidas num futuro próximo apinha­das de gramíneas dobradas com o precioso arroz jambarã, o mais produtivo da região. Mais além, outro grupo de balantas, de troncos luzidios de suor que, afoitamente, lavravam a terra, abandonaram os arados e regressaram a Bicílão, onde há momentos se dera o passamento do lavrador mais respeitável daquele chão de balantas.
Por seu turno, parentes e amigos do finado, entretidos com traba­lhos agrícolas, ao ouvirem o enquilim transmitir a notícia, deixaram os campos, e, quase em ar festivo, regressaram às moranças, prepa­rando-se para o grande choro que durante dias iria alterar a vida monótona daquela gente aborígene tão simples como feliz.
Mulheres novas, até uma ou outra seresma, enquanto se adere­çavam com colares, búzios, mandilhas e panos coloridos, não ocultavam o júbilo que as dominava por irem assistir a um choro grande, talvez o mais famoso de todos os tempos daquela região, devido à importância da pessoa do falecido. :É: que, em cerimónias idênticas, jamais faltara a presença de jovens circuncidados e, desta vez, em maior número, porque a morte de Monsongo coincidira com o termo das festas do Fanado. O Fanado (circuncisão) sempre fora rito de grande trans­cendência na vida do balanta, porque a partir daí é tido como adulto e, como tal, autorizado a manter relações com mulheres.
Por esse motivo, a presença de mulheres mais ou menos crapulosas da tribo seria maior, até porque constitui gesto de honra o facto de serem possuídas por «homens em primeira mão».
Monsongo era o homem mais velho daquele chão. A sua morte era aguardada de um dia para outro. A atestar a sua longevidade estava a cor amarelecida dos seus cabelos e das barbichas mal cuidadas. Entretanto o simpático ancião possuía uma lucidez perfeita. Retinha na memória vários episódios das lutas do passado e recordava os tempos de quando as tribos se guerreavam sem tréguas, em guerras sanguinolentas, que só terminavam quando as tropas do Governo intervinham. Foi o que sucedeu, vezes sem conta, nos primórdios da ocupação...
Monsonqo, de quando em quando, rememorava feitos e passagens distantes, com a rara habilidade que sempre caracterizara os grandes das tribos da Guiné, apalermando, com relativa facilidade, novos e velhos que o escutavam boquiabertos.
duas luas, talvez nem tanto, debaixo da figueira brava, ao fundo do terreiro, em noite morna e luarenta, conseguira prender, durante horas, numeroso auditório, com várias narrativas de guerras do passado. Entre elas. não se cansava de enaltecer a figura de um bravo militar, preclaro, que veio de Lisboa submeter os que se haviam rebelado contra o Governo, só porque era possuidor das mezinhas e guardas de corpo mais raras e poderosas de todo o imenso chão afrí­cano. «Se o quereis conhecer - dizia Monsongo - olhai para as notas do banco onde o seu rosto se mantém, como aviso permanente tanto para os que têm muito dinheiro como para os que têm pouco».
O respeitável ancião contara outra história verídica, relacionada com a maneira como se havia tornado o mais abastado lavrador da região.
- Certo dia - contava Monsongo - aportara em Bolama um barco de guerra que trazia a bordo vários deportados. Entre outros, destaca­vam-se dois homens de tipo estranho. Tinham os olhos em forma de amêndoa e os rostos lívidos, como se viessem acometidos da malária. Falavam, porém, a língua do branco. Um deles, o mais velho, chama­va-se Alassane. O nome do outro fugira-me da memória. Vieram dos lados donde o Sol nasce, do outro lado do mar, das terras de Macau. Não teriam feito acção digna, para serem deportados para tão longe.
Para o Balanta, tão destemido, que prima em desafiar o perigo, seria morte certa. O Balanta, na realidade, é destemido e valente; morre no entanto como um passarinho, quando arrancado ao seu chão, e sabe que jamais voltará.
Entretanto - prosseguira Monsongo - em boa hora os dois infelizes vieram para o Tombali. O crime que praticaram ninguém o soube ao certo. Para nós, foram humanos, justos e atê generosos. Com todo o carinho ensinaram-nos a cultivar o arroz, dado que as nossas bolanhas eram pouco produtivas. Depois da sua vinda, a produção redobrou, e foi ainda Alassane que nos ensinou a cultivar bolanhas profundas. Se hoje sou o maior lavrador das terras de Títe, como oiço dizer, devo-o incontestavelmente aos dois coitados que, mau grado seu, vieram aqui encontrar a morte, roídos de saudades das gentes e das terras longínquas, vítimas da fatídica malária.
Nos últimos dias. o chefe balanta sentira-se alquebrado e triste. Tristeza diferente. Talvez a mais lúgubre de toda a sua vida. As forças desapareciam-lhe dia após dia. E enquanto, durante a noite, o corpo se lhe cobria de suor gelado, o peito arquejante abrasava. Por fim, ficara acusmático. Das muitas vozes imaginárias que pela noite fora ouvia, as que mais o atemorizavam era a voz do Irã, ali a dois passos da palhota. Mesmo assim, nunca se arrabujara. Sabia sofrer com resignação.
Certo dia, à tardinha, olhara o Sol toldado por nuvens de fumo que, em forma de grande bola de cristal cor-de-rosa alaranjada, mer­gulhara, quase de repente, na floresta densa. Sentira estranho alívio percorrer-lhe o corpo com a brisa vinda do mar, agitando suavemente as folhas das mangueiras. Animado pelo inesperado sopro de vida, empunhara o inseparável bordão, levando na outra mão trémula uma garrafa com aguardente de cana, segura por um cordel. Ia consultar o Irã, oculto entre poílões e calabaceiras.
A demora fora curta. De regresso parecia feliz. Sim, porque o Irã, senhor absoluto do destino das gentes, havia ditado a última sentença. Monsongo sabia que, no dia seguinte, ao cair da tarde, ia morrer. Sabia-o perfeitamente. Não tinha a menor dúvida!
Com enorme sacrifício conseguira chegar à palhota. Deitara-se mas não dormira. O cachorro malhado, que dava pelo nome de anquinanquê, nome que em balanta significa «se soubesse não vinha cá», ganiu baixinho e enrolou-se pegado ao canapé. Ao romper da aurora, Mon­songo quis erguer-se, mas não teve forças. Sentira arrepios de frio. Um frio horrível. Ainda assim, num esforço supremo, conseguira arras­tar-se até à porta da palhota e lançou o último olhar pelas mangueiras floridas, que, há décadas, havia plantado com mil cuidados na sua campada.
Sentara-se em tronco corroído. Mandara reunir a família (onze mulheres, trinta e seis filhos de ambos os sexos e uma infinidade de netos, que jamais soubera distinguir). O filho dilecto era Irmna, por ter herdado de Monsongo os dotes que em novo, ainda blufo, o haviam feito famoso: ladrão valente, lutador invicto e folgazão como não havia nas redondezas. Além disso, Irmna tinha servido durante três anos, como soldado atirador, na Guarnição Militar de Bolama. Fora impedido do Comandante da Companhia e no Quartel aprendera a falar, a ler e a escrever razoavelmente. Ao regressar à tabanca, Irmna não sentia muita atracção pela vida do mato. Tinha saudades do Quartel, da Instrução de ginástica e na luta corpo a corpo, em que se tornara famoso. O velho lavrador não se fartava de o mimar. Revia-o constan­temente de alto a baixo. Monsongo admirava os brancos do Quartel que lhe haviam modificado o filho.
Das mulheres, a mais jovem e mais prendada era Enramne. Viera de Encheia, mas havia sido criada em casa de chefe de Posto. Primeiro em Binar e depois em Encheia. O Chefe de Posto com a família regressara a Lisboa. Enramne regressou a Enquida. O Chefe de Posto quisera levá-Ia, mas o pai não autorizou. Enramne quis fugir, mas fora ameaçada com o Irã. Enramne não podia ir para Lisboa, porque havia sido prometida ao cipaio da Administração de Mansoa, Pigna Cul, o qual, pouco depois, encontrara a morte numa desordem em Olossato. Em seguida, fora cedida a Monsongo por preço exorbí­tante em dinheiro, cana e vacas. Enramne era realmente linda. Não tinha dentes limados. Em princípio, na tabanca, vestia como menina branca, mas as colegas troçavam dela. Nos primeiros tempos, em Enquída, levara uma vida degradante por não se conformar com a sua desdita. Chorou muito. As lágrimas haviam levado do seu rosto meigo e alegre os últimos sinais de beleza. De quando em quando, sonhara com Lisboa. Lisboa era terra de sonhos, assim dizia a Senhora do Chefe de Posto, e Enramne sonhara com Lisboa, mas uma Lisboa diferente. O Irã implacável tolhera-lhe o caminho! Enramne bem sabia que não tinha sido o Irã que a impedira de ir a Lisboa. Mas de igual modo sabia que o Balanta e o Irã caminham lado a lado. O Balanta sem Irã deixaria de existir por não ter quem lhe guiasse os passos.
      Enramne fora finalmente para Bicilão. Era mulher de Monsongo. Ele com oitenta anos. e ela com dezoito! Monsongo recebera-a com alegria. Mais uma peça de trabalho... E desta vez valiosa, porque Enramne era nova e saudável. Enramne, em Bícílão, passara os dias mais tristes da sua existência. Chorara dias seguidos. Desconhecia, porém, que, na tabanca, havia alguém que sofria imenso ao vê-la sofrer. Sofria em silêncio, mas pouco a pouco fora-se abeirando da infeliz. Irmna falava-lhe sempre em «crioulo» a Incutír-lhe ânimo e esperança. Os balantas de Bícílão não compreendiam «crioulo», pelo que de nada se aperceberam. Os dias foram passando e os diálogos entre Irmna e Enramne tornaram-se mais amistosos e íntimos. Irmna falara-lhe muitas vezes do quartel de Bolama, e Enramne da casa do Chefe de Posto, onde a Senhora branca a ensinara a fazer trabalhos domésticos «muíto giros». Assim, entre a bolanha e a floresta, Enramne deixara de chorar enquanto a alegria e a beleza iam retomando lugar no seu rosto meigo e bronzeado. O jovem par compreendera então que o longo convívio com os brancos lhes mudara o destino. Não era o mato o seu lugar, porque um mundo novo os chamava. Não sabiam ainda definir bem esse mundo, mas devia relacionar-se com uma palavra mágica que retinham na memória, a qual haviam aprendido, ele no Quartel e ela em Encheia: Civilização!
Monsongo tinha enorme vaidade na mulher e no filho. Por vezes confundia-os. A amizade que tinha por Enramne era bem diferente da que tivera pelas outras mulheres. Realmente Monsongo gostava imenso de Enramne, mas ... ele tinha oitenta anos e ela dezoito!
Irmna vivia preocupado. Sabia que havia procedido mal e tinha remorsos. Não devia ter praticado aquele acto indigno, porque o pai era seu amigo. Mas Monsongo fora o único culpado em ter desposado uma jovem encantadora com dezoito anos de idade. Irmna tinha vinte e um. Entretanto, enquanto os dias se passavam monótonos e iguals, Enramne mais se deixara prender de amores por Irmna. E, neste comenos, Enramne estava grávida. Monsongo não o duvidara. Sabia até quem tinha sido o autor daquele acto menos digno, mas preferira o silêncio. Pelo sim e pelo não, um dia, quando Enramne vinha da fonte, chamou-a a sós e suplicou-lhe comovido:
- Enramne, quando parires, se o teu filho for «macho», gostaria que tivesse o nome de Irmna, por ser o nome do meu filho mais novo. E porque não o nome do pai do meu último filho?! - concluiu irado.
Monsongo, quando se viu rodeado pelos que o haviam ajudado a vencer na vida, fora dominado por forte emoção. Levaram-no para o canapé no interior da palhota. Pouco depois, mais calmo, com um sorriso indefinido a acentuar-se-lhe nos lábios gretados pela febre, aguardava sereno que se quebrasse o ténue fio que o prendia à vida. Ainda assim, conseguira sorrir por instantes. Sorrira, ao notar a pre sença de um raíozínho de sol que, furtivamente, penetrara por abertura do capim que cobria a palhota, como se enviado dos céus para lhe iluminar o rosto sereno, nos últimos alentos de uma vida despreocupada e feliz.
Monsongo deixara de sorrir. Fizera sinal com a mão para que se aproximassem. Com visível dificuldade, entre convulsões e soluços, conseguira balbuciar de modo impressionante:
- Dentro de instantes serei cadáver. Não quero lágrimas nem lamentações. Uma coisa, porém, vos peço. É a minha última vontade. Pretendo um choro como jamais se vira neste chão. As trinta e duas vacas da laia do Enxudé são para abater. No cerco da tagarra grande temos arroz limpo que chega para mais de cem pessoas durante uma semana. Debaixo do cerco da mancarra tenho escondidos dez tambores com aguardente de cana, com duzentos litros cada. Se não chegar, adiante, pa... ra os la... dos. .. do ... vídum...
não terminou a frase! Deixara cair bruscamente o braço, que erguera com dificuldade para indicar algo de importante. Os dedos esqueléticos crisparam-se num repente, para se distenderem lentamente, muito lentamente mesmo! O raiozinho de sol incidia agora sobre garrafa de vidro cheia de mezinha da terra, dependurada na parede, um pouco acima do rosto de Monsongo. Cintilava na penumbra do quarto mortuário como estrela resplandecente que iria acompanhar ao mundo dos justos a alma do velho e honrado lavrador. Monsongo estava morto!
Anquinanquê, o cachorro malhado, que havia permanecido aninhado junto do canapé, deu um salto, e lambeu-lhe as mãos e o rosto, e cirandou de um canto para outro, como aturdido com o infausto acon­tecimento. Depois, fugiu para o terreiro e correu sem rumo certo, direito à mata, ganindo e uivando desesperadamente, como se quisera anunciar bem alto a morte do seu melhor amigo.
Todos se retiraram em silêncio. Sem o menor lamento. Todavia no rosto de Irmna via-se agora maior apreensão e o seu olhar era cúmplice. Chorou por se lembrar do que havia feito com Enramne, que era agora sua mulher. De igual modo, só Irmna sabia onde o velho havia escondido o garrafão com as notas do banco. Estavam ali bem perto no vidundji-pêbe (cemitério de balantas), de quando em quando remexido por hienas famintas. Vira-o uma tarde, por entre palmares, quando frechava rolas no mato.
Silêncio de morte. Ouvira-se o matraquear de enquilim, seguido do rufar de tambores a confirmar a morte de Monsongo. Em breves segundos, as terras circundantes souberam da morte do velho chefe de Bícílão.
Ao fundo do terreiro, debaixo das mangueiras, Balantas do seu tempo e outros mais novos quedaram-se, acenando a cabeça, como se resignados com o desenlace. Enquanto o mulherio preparava a água para o primeiro banho do cadáver. Morna Cumba, considerado o mais famoso necrólogo da região, em voz compassada e dolente ia relem­brando diversas passagens da vida do finado desde os recuados tempos em que fora ladrão de vacas, lutador valente e invicto e hábil ferreiro como não houvera outro nas redondezas. Morna Cumba terminara por enaltecer as virtudes de Monsongo nas últimas décadas da sua vida de chefe gentílico, cumpridor, justo e humano, qualidades que o leva­ram à conquista de estima e respeito não só dos Balantas da sua área, mas também das autoridades administrativas. Fora sempre homem prestante, trabalhador e leal e, por isso, agora. iria receber o prémio da sua bondade. Mas isso era com o Irã! ...
Os tambores rufavam! .......... Rufavam continuamente ...
Um touro de pelo fulvo e luzidio, preso a tronco abatido, urrou enraivecido e ajoelhara ao encaixar entre os chifres curtos a lâmina de aço de terçado manejado por destro magarefe. Logo depois, outro e mais outros tiveram a mesma sorte. Todavia, os últimos urros e gemidos eram abafados pelo barulho ensurdecedor dos tambores de peles retesadas.
Balantas das tabancas limítrofes, que chegavam a Bicilão, entravam e saíam, ordeiramente, da palhota mortuária. Todos quiseram prestar a última homenagem ao velho balanta, que em vida tanto os havia ajudado. Todos são parentes, e o Balanta, quando rico, não admite pobreza na sua morança. Era o caso de Monsongo.
O cadáver fora sentado em cadeira de tarrafe; permanecia inerte de rosto sereno; na mão direita, espada ferrugenta que em novo lhe granjeara fama e prestígio; na cabeça, cofió encarnado e, envolto ao pescoço, um lenço branco; vestia fato forrado, sem cor definida, amarrotado, que anos antes lhe havia oferecido um engenheiro que viera de Lisboa e percorrera a área para ver as palmeiras. O seu aspecto era de estátua bronzeada, talhada por hábil escultor.
As exéquias foram dirigidas pelo novo chefe de Bicílão, que. segundo a tradição. seria o filho mais velho de Monsongo. Fora auxiliado pelo Pêbe - coveiro - que na tribo gozava de grande prestígio. O corpo ficara sentado em cova circular voltada para Nascente. Monsongo, além de chefe gentílico, fora ferreiro. E, para o Balanta, homem que saiba dominar o ferro merece prestígio à parte. Fora envolto em esteira de palmeira, nova e limpa, porque a terra não pode tocar o corpo de um ferreiro. Em vista do elevado número de homens e mulheres que barraram a cabeça e o peito com a lama acinzentada da bolanha, adivinha-se o conceito em que era tido o velho chefe dos Balantas.
Como sucede entre os grandes da tribo, só no dia seguinte ao falecimento teve lugar a cerimónia do choro.
A mortandade entre novilhos e vacas havia ultrapassado todas as previsões. Blufos, quase exaustos, prosseguiam a faina sanguinolenta, esquartejando dezenas de reses agonizantes. Outros, em azáfama sem precedentes, transportavam balaios de arroz limpo e pedaços de carne tremulante, que atiravam para enormes tambores de gasolina, cortados a meio, assentes sobre enormes fogueiras espalhadas pelo terreiro. A fervura erguera no ar alvos cachões fumegantes que espalhavam odor agradável a aguçar o apetite desmedido de centenas de balantas, que, impacientes, formigavam em volta dos caldeiros, sem se impor­tarem com o cheiro nauseabundo das vísceras, avidamente disputadas por centenas de jagudis.
Entrementes, enquanto continuava a distribuição de cabaços de arroz e nacos de carne, bem regados com óleo de palmeira e aguar­dente de cana, lá ao fundo, à entrada da mata, algo de irregular se passava.
As gentes de Monsongo (mulheres. filhos e netos) gritavam e insultavam-se mutuamente, gesticulando e saltando de modo estranho, até porque a aguardente ainda não tinha tempo de exercer os seus efeitos. Os grandes da tabanca haviam acorrido ao local, procurando acalmar os mais exasperados, com receio de que o choro de Monsongo terminasse em tragédia, como tantas vezes sucede em casos seme­lhantes. Porém, pouco depois, com pasmo dos presentes, aquela família, em litígio tão confuso como estranho, correra para a palhota que fora do velho lavrador. Ali tivera lugar um acto cómico, com balbúrdia invulgar no chão dos Balantas.
A cobertura de palha da casa que fora de Monsongo era desman­telada, malas de madeira despedaçadas, potes de barro feitos em mil pedaços, talhas de arroz voltadas nos corredores, colchões, depois de remexidos, desfeitos em tiras, enquanto as paredes estavam a ser batidas palmo a palmo. Porém, ao fim de busca minuciosa e turbulenta, nada encontraram. Mistério... Verdadeiro mistério!... Ninguém conse­guira encontrar as notas de banco que Monsongo, anualmente, trazia de Bolama ou de Fulacunda, quando vendia a colheita de arroz ou de mancarra. O dinheiro não era só de Monsongo! Pertencia também às mulheres, filhos e netos ...
Serenados os ânimos depois de uma arrumadela à palhota, não se falara mais no caso. Se o Irã assim o quis, nada havia a fazer!
- Vamos para o choro! - acordaram unanimemente.
De cima de enormes poilões e tagarras que envolviam o povoado, o Irã espreitava, dia e noite, os movimentos das «suas gentes». Assim pensavam os balantas idosos.
Na tabanca, os tambores continuavam a rufar, cada vez com mais furor.
Homens e mulheres, velhos e novos, comiam e bebiam desmedida­mente. Outros, em grande número, tem-te-não-caías, dançavam no terreiro com mil gestos símiescos. Ao rufar dos tambores, não havia no povoado nenhum balanta, mesmo cambaleante, que não procurasse acompanhar o ritmo em jeitos de dança, desarticulando-se em gestos difíceis de imitar.
Barulheira infernal. Um balanta, de tronco nu, já idoso, sumira-se na mata próxima, com uma perna de vaca às costas. Talvez receasse que a carne das trinta e seis vacas não chegasse para todos! Aquele balanta sem norte era Pêbe, o coveiro dos balantas, o qual, como era hábito na tribo, levara a sua quota-parte, a melhor perna de vaca.
Homens idosos, aturdidos, de mãos dadas, em pequenos grupos, cuspinhando a cada passo, caíam aqui e além, aninhando-se a seu jeito, sem se preocuparem muito com a dureza do leito...
O alarido redobrara. Os tambores rufavam ainda com mais furor! Mulheres novas, excitadas pelo álcool e pela dança sensual em ritmo de batuque, deixavam-se levar pelos blufos para moitas de capim ali a dois passos, entregando-se-lhes com o à-vontade que caracteriza povos primitivos.
Facto curioso! Entre os Balantas, as mulheres, enquanto novas, são autorizadas pelos maridos a praticar o adultério. Julgam assim praticar o mais sensato acto de justiça, dado que, no seu tempo de homens viris, da mesma forma lhe foram relevadas vezes sem conta faltas no género. Além do mais, é honra para o Balanta ver que as suas mulheres são requestadas por homens estranhos. O comportamento das mulheres, nesse capítulo, é menos interessante. Sempre que uma amiga da tabanca próxima a visite e queira aproveitar o ensejo para dormir com o seu homem, prima em lhe proporcionar o melhor acolhi­mento, circundando-a de atenções e procurando em primeiro lugar arranjar-lhe boa cama. Ela sabe muito bem que, na altura em que lhe for retribuir a visita, pode contar ainda com melhor acolhimento, porque nenhuma gosta de ficar atrás.
As festas prosseguiriam ainda enquanto durassem as provisões de arroz, da cana e de vaca. Ninguém arredava pé. Agora, era a vez de as mulheres de menor atracção tentarem a sua sorte. Mas nada con­seguiam. Os Blufos estavam exaustos da bebedeira e da estroíníce.
A madrugada surgia. O orvalho desprendia-se dos galhos circundantes em gotas de prata. Dispersos pelo terreiro, dezenas de corpos inertes davam aspecto de tragédia. O álcool imobilizara-os! Dezenas de fogueiras mortiças tremulavam ainda à distância. Pelo terreiro, mesmo até junto da mata, cabaços e mais cabaços de arroz e restos de carne sobejavam com abundância. Um bidão de aguardente de cana havia-se esvaziado por incúria durante a noite. O cheiro do álcool na terra ensopada dominava o ambiente. Surgira o dia. Os galos deixa­ram de cantar. Milhares de pardais saíam dos cachos de ninhos que enfeitavam a velha calabaceíra, chilreavam incessantemente a animar o povoado. Bandos enormes de garças brancas, voando em caprichosas formações, seguiam rumo ao poisio distante. Centenas de jagudis, empoleirados nos galhos, aguçavam o bico preparando-se para o último repasto, de quando em quando interrompidas por lutas inúteis. Por fim, à distância, ouvia-se ainda o som vibrante de trombeta impro­visada de chifre de vaca, cujos acordes anunciavam a alvorada na selva!
Calaram-se os tambores. Terminaram finalmente as provisões de arroz, de vaca e de cana e com elas o choro de Monsongo. Um choro famoso, que irá perdurar pela vida fora na lembrança dos Balantas daquela região!
Só decorridos dias, as gentes de Monsongo conseguiram ânimo para retomar o trabalho. Era preciso continuar. A bolanha reclamava a sua presença. De resto tudo continuaria como dantes. Dia após dia, todos regressaram à bolanha. Bessunha dirigia agora as lavras de Monsongo e por isso todos regressaram.
Todos, não!... Faltavam Irmna e Enramne e ainda o cachorro malhado. Durante a euforia do choro ninguém dera pela sua ausência. Ninguém sabia do seu paradeiro. Abandonaram a selva. Talvez tivessem atravessado a raia para chão diferente, para muito longe mesmo, em busca da palavra mágica que um dia os brancos lhe ensinaram: Cívi­hzaçãol
Enramne, Irmna e o cachorro malhado desapareceram misteriosa­mente, e, com eles, as notas de banco do garrafão de vidro que o velho Monsongo, pensando no choro, havia escondido avaramente no velho e infecto vindundji-péba (cemitério de Balantas).

26 de março de 2011

91-O choro

O CHORO

Ainda o sol não tinha despontado, quando Tia Maninha, com uns sessenta e tantos anos bem contados na pontada, subia, com a ligeireza dos seus tempos de badjudessa, a avenida que ela teimosamente continuava a chamar Avenida da República. É que essa história da troca dos nomes das ruas depois da Independência só servia para lhe baralhar a cabeça. Coisa muito complicada mesmo, que não dava para entender! Então, se a vila de Teixeira Pinto se passou a chamar Cantchungo, porque razão o chofer do táxi se riu dela, no outro dia, quando lhe pediu que a levasse até à estátua de Cantchungo, ali na Mãe d'Água?
Como de costume, Tia Maninha tinha combinado com as suas mandjuas encontrarem-se em casa de Nha Arminda, para juntas seguirem para o choro de Nhu Djon, falecido na véspera. "Coitado de Nhu Djon! Chegou mesmo a sua hora. De nada lhe valeram as idas à baloba nem os mècinhos do mouro. Paz à sua alma. Amém! " dizia para consigo tia Maninha enquanto acelerava o passo e avançava no sereno da manhã. Mais um bocadinho e chegaria à casa de Nba Arminda, que ficava mesmo ali atrás dos Bombeiros.
Todas as manhãs era esse o seu primeiro trajecto, quando da sua Mansoa natal vinha passar umas semanas a Bissau. Depois seguia com a manjuandade toda animar os choros e polir as calçadas da capital, não fossem as circunstâncias, dir-se-ia até alegremente ... Por vezes iam a três num mesmo dia, porque acompanhar os mortos é coisa sagrada e, um dia, quando ela morresse, também gostaria que lhe fizessem companhia ...
Naquela manhã, a nobre missão de velar o morto tomava ares de cerimónia oficial, porque Nhu Djon, antigo varredor da Câmara antes da Independência, era pai de dois combatentes da liberdade da Pátria, sendo um deles um Membro actualmente. Certamente que a nomenclatura viria falar mantenhas de choro e as coisas teriam que ser feitas a preceito. Haveria que ajudar as parentes do falecido a preparar o cuscus, que seria servido com o café, logo cedinho. Depois viria a cena à volta do morto, durante a qual cada uma, entre gritos e lamúrias, despejava um rosário de elogios ao defunto que, só pelo facto de ter morrido, passara a ser a melhor pessoa do mundo. Havia também as mensagens a dar, que o defunto deveria levar aos falecidos, quase sempre as mesmas transmitidas a cada morto que velassem.
- Nhu Djon, diga à minha vizinha Maria Té que não se preocupe com o marido. Na vizinhança, olhamos todos por ele. Que ela peça só a Deus que lhe dê forças e saúde­recomendou Tia Maninha, enquanto enxugava os olhos com as costas da mão.
Tudo isso ela fez com a devida solenidade, não por ser um caso especial, mas por ser esse o seu carácter: o dever deve ser cumprido e bem cumprido. Tinha ganho o seu dia e mais uma graça de Deus de que Ele não se esqueceria quando chegasse a sua hora de entregar a alma ao Redentor.
Com a sensação do dever cumprido, despediu-se e pôs-se a caminho da casa do sobrinho, onde habitualmente ficava alojada quando vinha a Bissau. Naquele dia, como saíra ainda de madrugada, não vira ninguém e nem pôde avisar que não esperassem por ela para o almoço.
O sol começava a declinar e dentro de alguns minutos cairia a noite. Tia Maninha ia atravessar a rua diante da Segunda Esquadra, quando viu no passeio do outro lado uma multidão de gente à porta de uma casa.
"O que terá acontecido?", perguntou-lhe a sua curiosidade.
Para lá se dirigiu e entrou no quintal da casa. Foi até à varanda e viu umas quantas pessoas vestidas de preto e sentadas nas cadeiras colocadas ao longo das paredes. "Um choro!", concluiu rapidamente Tia Maninha e logo tomou os ares próprios à circunstância: rosto fechado, patenteando uma pena visível.
- Não posso deixar de ir falar mantenha àquela gente - disse para com os seus botões - só mesmo entrar e sair ...
Avançou-se para o grupo de mulheres grandes que estava na sala ao lado da varanda. Muito dignamente, apresentou-lhes os seus mais sentidos pêsames e desejos que Deus recolhesse aquela santa alma na Sua Graça Divina. "Amém!", responderam as mulheres em uníssono, num lamuriante sussurro. Depois, ao mesmo tempo que se benzia aproximou-se do caixão colocado no meio da sala. Parou junto aos pés do defunto e ergueu as mãos para começar a sua conversa com o falecido. Nisto, engasgou-se com a emoção e foi assaltada por um ataque de tosse que lhe arrancou a dentadura postiça da boca, atirando-a para dentro do caixão. Tia Maninha, confusa com o que lhe acontecia, apanhou precipitadamente a sua dentadura e, metendo-a no bolso do vestido, saiu apressadamente do velório, em direcção a casa, sem sequer se despedir. "Credo! Cruzes! Quem é que me quer impedir de falar? Passa de largo!", disse para consigo enquanto se persignava repetidas vezes.
Chegou à casa do sobrinho ainda muito agitada com a cena que acabara de viver. Deixou­-se cair numa cadeira e, enquanto enxugava com o lenço o calor que lhe escorria pelo rosto, contou à família a mofineza por que passara. Ninguém se atreveu a rir ao imaginar Tia Maninha naquela cena, pois a consternação dela era realmente profunda. O sobrinho, querendo mostrar que compartilhava a sua pena, perguntou-lhe curioso:
- Mas tia, quem é que morreu?
Tia Maninha arregalou os olhos e com o ar mais contrariado deste mundo respondeu: - Como é que eu sei, meu filho?! Nem sequer tive tempo de saber!

Filomena Embaló
Paris, 18 de Outubro de 2002
 ln Mealibra, nº 11, Dezembro 2002
Revista de Cultura, Centro Cultural do Alto Minho, Portugal

Glossário

Badjudessa: juventude (no caso da mulher); termo crioulo proveniente de badjuda (menina, moça).a
Baloba: local sagrado dos animistas, templo.
Choro: velório, cerimónias à volta do enterro.
Cuscus: espécie de bolo feito em geral, no caso da Guiné-Bissau, com farinha de arroz. É cozido a vapor dentro de um binde; binde: utensílio culinário feito de barro, de forma cónica, com o vértice arredondado e com três buracos, por onde passa o vapor de água.
Falar mantenha: cumprimentar (tradução literal da expressão crioula).
Falar mantenha de choro: apresentar os pêsames.
Mandjuas: pessoas da mesma geração, muitas vezes que cresceram juntas.
Mandjuandade: grupo de mandjuas.
Mantenhas: cumprimentos, saudações.
Mècinho: mezinhas (termo crioulo);
Membro: forma como se designava, nos primeiros anos da Independência, os membros dirigentes do PAIGC, partido único na época.
Mofineza: desventura, azar.
Mouro: curandeiro muçulmano.
Mulher grande: mulher idosa
Nha: senhora.
Nhu: senhor
Pontada: costas, na zona dos rins
Sereno: bruma.


Guineense de coração e por opção, Filomena Embaló nasceu em Angola, em 1956, filha de pais cabo-verdianos. Em 1975, os acasos da vida levaram-na para a Guiné-Bissau, país que adoptou e em cuja labuta dos primeiros anos de independência se forjou a faceta guineense da sua identidade.
Formou-se em Ciências Económicas em França e ocupou cargos na Função Pública bissau- guineense no país e no exterior. Actualmente trabalha em Paris, numa organização intergovernamental.
Tem publicações em revistas e jornais de artigos sobre a economia guineense e literários. As encruzilhadas do seu percurso multicultural inspiraram o seu primeiro romance, "Tiara", editado em 1999.

28 de fevereiro de 2011

72-Choro, ataque, a mulher do capitão e o Quecuta zangado


   Aquela barulheira estava a dar cabo de mim. Bombolons, danças e gritos associados eram demais para os meus tímpanos frágeis. Manga[1] de grogu[2] e bit-bit[3] possuíam aquelas gajas e os panelões de bianda[4] e carne davam-lhes força para aquelas danças loucas, para o flutuar dos braços e o agitar frenético das pernas, para o balanço ritmado das mamas. Disso estava a gostar, e era o que me mantinha ali no meio daquela chinfrineira de altos decibéis. Conventuário forçado pelo deus das armas, aquelas pernas e coxas e aqueles seios fugidios eram o meu horizonte do desejo de mulheres belas. Era um choro[5] dos balantas da tabanca[6].
Eles e mandingas eram os seus habitantes, sendo o chefe da tabanca um mandinga, o Quecuta Seidi. Não havia grandes problemas entre eles como houvera antes da guerra, quando havia régulo que era um balanta mané[7], mas os mandingas maioritários não gostavam. Agora só havia chefe de tabanca.
A mulher do capitão tinha chegado numa DO para estar uns dias com ele.
- “Tínhamo-nos casado há pouco tempo quando eu fui destacado. Quis vir da Metrópole porque estava com saudades…e eu também, é claro”, confidenciou-me a sorrir.
Entendi-o. A D. Eugénia, era assim que começámos a tratá-la, respeitosamente, embora nos perturbasse os olhares, ela era morena e tinha uns olhos parecidos com a minha florista, e eu também sentia saudades da Júlia. Procurava às vezes a ajuda do Bailo, e do Quecuta também, para matá-las, mas não era a mesma coisa evidentemente. Ia suprindo.
- “É um bocado perigoso. Isto não é um local para ela”, observei-lhe.
- “É pá, mas há quanto tempo é que não há um ataque?”.
- “Sim, é verdade. Mas não sei, não somos nós que decidimos quando há...”
Nesse dia não houver saídas para o mato. O Alves falou à mulher que havia um choro. Intrigou-se com o nome mas ele explicou-lhe o que era e ela mostrou-se interessada em ver. E fomos desafiados para os acompanhar.
- “Mas é só para ver, não é? É que eu não me meto no meto no meio dessa confusão”, avisei logo.
Quando já lá estávamos, a certa altura houve um palerma qualquer de gorro
vermelho[8] que me veio desafiar para entrar. O gajo sabia que eu era o alferes dos
balantas, claro…


Tive de lhe dar uma desculpa.
-  “Yantey, bi tuli ma agulu[9].
- “Bii ta  oom[10], e riu-se.
- “Vai à merda, pá”. Olhei atrapalhado para a D. Eugénia.
- “Desculpe, D. Eugénia.”
- “Não dei por nada. Sou casada com um militar, era bonito se eu fosse ligar a tudo o
que vocês dizem… mas ouvi-o falar com aquele homem. O senhor alferes Aiveca… é
Aiveca que se chama, não é? Nome estranho”.
Fazia um esforço para a ouvir. Detestava diálogos no meio de barulhos, parte do que
me diziam muitas vezes não conseguia entender e para responder tinha de falar alto,
era o raio dos ouvidos. Além do mais estava mais interessado no alvo dos olhares
gulosos do Salvado, eram as  mamas e aos cus das bailarinas, e isso não era preciso

ouvir, além de não estar a ver porque é que me vinha com esta coisa no meio daquilo.
Mas dei conversa.
- “Conhece o Alentejo?”, gritei-lhe.
- “Não, nunca lá estive.”
- “Devia ir lá, terra bonita e boa gente. Aiveca é o nome dado a um arado especial
atrelado aos tractores. Não me pergunte coisas técnicas sobre ele que eu não sei. Por
isso, lá na terra, no Penedo Gordo, o meu pai Eduardo, que era tractorista, era o
Eduardo Aiveca. E a mim, ao filho António, todos me chamavam o António Aiveca.”
Os bombolons[11] aceleravam e os gritos delas subiam.
- “Ah…”, e disse mais qualquer coisa.
- “O quê!?”.
Aproximou-se mais de mim.
- “Mas este é o seu nome verdadeiro?”.
- “O verdadeiro é Lopes, é o que consta nos papéis. Mas é muito corriqueiro, e eu
gosto mais de Aiveca…”.
Vi que ia dizer mais qualquer coisa e pus-me atento.
- “Vejo que você fala a língua deles”.
- “Não, não falo, minha senhora. Gostava mas não, é muito complicado. O  que sucede
é que procura apanhar-lhes algumas coisas dá para os entender melhor. Nem
sempre…”.
O Roberto deu-me um encontrão.
- “É pá, há gajos teus ali no meio!”.
Estavam.
- “Admirava-me é se não estivessem.”
O Bletche, o Benhanté e o Nfanda bamboleavam-se da garrafa na mão. Era cana de
certeza. Não lhes dava muito tempo para ficarem esticados no chão.
- “Vai ser bonito, vou ficar feito num oito. É o meu pelotão que vai estar de guarda esta
noite.”
O capitão olhou-me alarmado.
- “Ó Aiveca, então é preciso ter muito cuidado. Você tem de estar em cima deles.”
- “Pois é isso que eu sei. Não vou para o mato mas não vou dormir na mesma. Só vi
aqueles ali, mas é mais que certo que devem andar por lá outros. Vou ter que andar a
ver se os gajos não dormem nos postos.” Não os devia ter deixado ir ao choro. Mas
não me lembrara quando  sou informado do choro que eles que estavam de serviço.
Além disso, pensei melhor, não terá sido bom impedi-los, fazer  isso era pior do que
lhes cortar uma orelha.
Ficámos mais algum tempo a ver o espectáculo, a D. Eugénia fazia comentários
maravilhados. Até que notámos que o sol se começava a pôr.
- “É melhor irmos embora”, disse o capitão. “Daqui a bocado vamos jantar”.
E fomos, passado tempo jantámos, depois fomos ao king na secretaria. A mulher do
Alves divertiu-se também com este prazer de homens limitados de acção. Mas o
capitão não estava, levantou-se depois de alguns jogos.
- “Eugénia, é melhor irmo-nos deitar porque amanhã tenho que me levantar cedo para
ir a Bigene a uma reunião no COP3. O seu pessoal está nos postos, Aiveca?”
- “Vou-me levantar também e dar uma volta para ver. Vou ver se está tudo  nos
conformes”.



A tabanca estava pegada ao quartel, não estava em autodefesa, portanto, não havia
milícias. Tínhamos um pelotão destacado em Camjambari, pelo que tínhamos três
pelotões para as guardas e segurança durante a noite. Com o que tínhamos
montáramos um esquema para isso: à volta da tabanca, dois postos de sentinela no
lado oeste, mais dois do lado sul virado para o Cacheu e outros dois do lado norte em
frente da mata que vinha do Senegal; à volta do quartel, eram três na paliçada note
virada para a pista, três virados para a picada a oeste que ia até ao Cacheu, e dois a sul
virados para o rio. Os postos à volta da tabanca eram uma sobrecarga, mas
achávamos melhor. Pela experiência que tínhamos, eles nunca atacavam a tabanca,
era só o quartel, no entanto havia a precaução de ter ali gente, era onde havia pontos
de infiltração.
Fui ter com o meu furrriel Fernandes, que era o sargento de dia.
- “Então, Fernandes, os homens estão nos postos?”
- “Estão, são os da minha secção mais uns da do Sousa”.
- “Vamos dar uma volta por aí, pra ver.”
Na tabanca estava tudo bem. Até me admirei que estivessem todos despertos. E não
tinham cantis com cana. 
Ai deles, sabiam já que eu não tolerava isso, tinha-os avisado.


Fomos depois ver os do quartel. 
Tínhamos entrado quando vi o Benhanté e o Nfanda a manusear a bazuca.
- “O que é que aqueles cabrões estão a fazer?”.
- "Oh, estão bonitos, estão. Estive quase para os mandar embora pois vi que estavam
pedrados, mas não o fiz porque ia baralhar a escala…"
Apressámos o passo em direcção a eles. Quando vi o Nfanda enfiar uma granada no
cu da bazuca desatei a correr. Mas já não fui a tempo.
De repente um bô! e um  clarão. Pouco depois uma explosão na mata do outro lado da
pista.
Corri para eles a gritar.
- “Seus filhos da puta! Vou-vos partir os…”.
Parei e não acabei de dizer o que lhes ia partir porque ouvi um silvo  agudo e um
rebentamento. 
Olhei e vi que tinha sido no lado direito das traseiras da secretaria, onde ficava a porta
do quarto dos alferes. Havia lá fumo e luz de fogo. Começou a seguir um fogachal 
intenso, do quartel para a mata e desta para o quartel. Mais silvos a granadas de 
morteiro a estoirar. Corri para o edifício, alarmado.
Mas o Rolando e o Salvado saíam apressados da porta da frente quando lá cheguei.
Atrás vinha o capitão só de calças e a mulher… em cuecas. Mas não liguei.
- “Olha se a gente não ficava a beber umas cervejas em vez de ir para a cama…”, disse
o Rodolfo apressado.
- “Vou foder os gajos!”, gritou o Salvado.
Enfiaram-se na valeta. Fui atrás deles. O pessoal da caserna corria por lá também para
os postos de combate. O capitão metera a mulher no abrigo da secretaria e também ia.
Foram cerca de quinze minutos, o normal em situações idênticas. Morteiros, G3,
kalashs, PPSH, degtyarevs, RPGs, bazucas… tudo à mistura. 
Toma lá, dá cá. Ora agora atiro eu, ora agora amandas tu. E, no meio disto tudo, a 
grande explosão do fornilho que o Salvado montara do outro lado da pista. Só uma 
vez nos tinham presenteado com uma coisa que não tínhamos:um canhão sem recuo 
que nem se deram ao trabalho de o tirar do Senegal. As bujardas chegavam vindas de 
lá, do lado de Sano.
A certa altura começámos a sentir que éramos só nós a disparar. O capitão saiu da
vala.
- “Cessar fogo!”, gritou. “Os gajos já se foram embora”.
Eu e o Salvado fomos para o pé dele.
- “Deixem ficar a malta ainda um bocado nos postos. Mas um de vocês vá fazer uma
batida na mata ao pé da pista”.
- “Vou eu. Quero ver o que é que deu o fornilho”, ofereceu-se o Salvado.
- “Temos alguma baixa?”, perguntou o Alves.
- “Morreu um soldado meu”, disse o Rodolfo, que entretanto se
 aproximara também. “Foi o Bacar Baldé. Levou com um estilhaço de
morteiro na cabeça. O furriel enfermeiro está lá com ele.”
Não disse nada, mas vi que ficou desolado.
-“Mal”, cara fechada. “Vou ali ao abrigo buscar a minha mulher”.
Afastou-se, vimo-lo depois chamar a D. Eugénia à boca do buraco. Ela saiu, na pose
em que entrara, em cuecas. Atrás dela saíram o 1ºsargento Mota e o escriturário
Armindo.
- “Oh! Aqueles é que estiveram ao ataque”, chasqueou o Salvado.
Não achei piada.
- “Não sejas parvo, pá. Vai mas é fazer a batida.”
Fiquei com o Rodolfo a falar da morte do Bacar. Às tantas vi que se aproximava uma
bicicleta. Era o Quecuta.
- “Corpo di bo?”[12]
- “Tá bom, nossalfero[13].”
- “O que é que há, Quecuta?”
- “Da quesa di tropa”[14].
- “O quê?!”
- “Tropa kiri mal, kiri asasina”[15].
- “Parbisa, a bo bu parbu dimas”[16].
- “Ka parbu. Tropa lansa granada bomborda morança[17] Quecuta”[18].
- “O quê?!” O Rodolfo estava de boca aberta. “É dos turras, pá, só pode ser”.
Tinha de acabar com aquilo.
- “Anos va jubi la”[19].
Fomos ver o caso da morança do Quecuta, acompanhados pelo seu pedalar de
perneta. Lá chegados mostrou-nos. Estava de facto uma granada por deflagrar
enterrada à porta de casa, só com um pouco à mostra. E era das nossas,´era verdade,
do morteiro 80. Tinha de arranjar desculpa.
- “Kil bomborda as bes disvia”[20].
- “ Mau família falsi. Balantas disgosta Quecuta. Alfero disiplina.”[21]
Só me faltava era este gajo estar a dar-me lições.
- “Deixa-te de tretas. Kin ki odja a bo meresi kastigu[22]. O turra de Limane fugiu. Kin
fusinti el? Bo mandinga, el mandinga…[23]”. Tramei-o.
- “Ka  sibi.”[24] Ficou de monco caído.
- “Vamos embora. Há-de vir o furriel sapador para tirar a granada. Ka kiskisi.[25]
Fomos.
O Salvado tinha regressado da batida, apenas vira sangue ao pé do buraco do
fornilho. Um ou mais tinham sido feridos aí, mas tinham-nos levado. 
Se calhar por isso é que o ataque só durara quinze minutos.
O capitão ainda nessa noite pediu uma DO para a mulher, obviamente com
fundamentos, e ela partiu para Bissau no dia seguinte. Com pena minha por não lhe
poder ouvir as sensações vividas, sobretudo durante o ataque.

                                                        ###########

O Quecuta Seidi, mandinga, era o chefe da tabanca de Barro quando eu lá estive.
Subira uma vez a uma palmeira e fora mordido por uma kakuba verdi[26] e tiveram de
amputar uma perna. Por isso, ele a andar de bicicleta só com uma perna, o seu meio de
deslocação, era um espectáculo. Havia suspeitas de que estava feito com o PAIGC, 
razão por que muitas vezes me sentei a falar com ele à porta da morança, para tentar
tirar-lhe alguma informação. Mas ele “tinha esperto no cabeça”[27] e nunca se
descoseu. Mas ia lá também por outra razão. É que ele tinha quatro mulheres. Três 
delas mais jovens.
- “Es noti bo durmi suma djoto. Alfero ka durmi…”.[28]
 Ria-se e, nesta matéria, era sempre condescendente.
- “Yo, otrizado. Fika. Signi.”[29]
Gostava muito desta, era mais mulher. Às vezes era a Uace, mas era mais catraia e
franzina. Mas não desgostava, claro.


Em 1998 fui à Guiné e passei por Barro. Perguntei pelo chefa da tabanca, de propósito,
para ver como estava aquilo agora. Indicaram-me a morança  do Quecuta. Assim que
me viu ficou admirado e nem me deixou falar.
- “Alfero Aiveca!”
Trinta anos depois! Não me admirei. Foram muitas conversas.
Houve as mantenhas[30] da ordem.
- “O Bailo?”, perguntei-lhe, porque também estava interessado em encontrá-lo. O Bailo
tinha sido o guia principal da CCAÇ3.
Ficou atrapalhado e baixou a cabeça.
- “Gubernu di no tera ilimina el”[31].
- “Ah! Alfero Aiveca tin roson. Gubernu ka ilimina bo. A bo kontinua chefi di
tabanca”[32].Sorriu.
Estive também na Guiné em 2006 e fui novamente a Barro. Perguntei por ele e
indicaram-me o filho. Era o Bala Sani.
- O teu pai onde está?
- O meu pai morreu o ano passado.


Fiquei com pena. Tinha ido lá de propósito para ver o homem. No fundo, eu até
gostava dele, e não era só por aquelas benesses salvadoras da solidão da carne. É
que, guerra à parte, parecia-me um homem bom e honesto. Por isso terá tomado o
partido que era o seu. Além do mais era uma das ligações da minha juventude que se
perdera
_______________
[1] Grande quantidade (crioulo)
[2] Aguardente de cana (crioulo)
[3] Vinho e palma e de caju (crioulo)
[4] Prato á base de arroz (crioulo)
[5] Cerimonia fúnebre, com batucadas, danças e comida desregrada, sempre que alguém importante morre.  
[6] Aldeia (crioulo)
[7] Balanta islamizado.
[8] Símbolo de passagem à idade madura na etnia balanta
[9] Deixa lá, não me sinto bem. (língua balanta)
[10] Não tens coragem. (língua balanta)
[11] Bombolon ou bumbulum é um instrumento de percussão, feito de um tronco grande e escavado, tocado ou batido em cerimónias fúnebres ou para transmitir alguma mensagem.
[12] Cono é que estás? (crioulo)
[13] Nosso alferes
[14] Venho-me queixar da tropa (crioulo)
[15] A tropa não gosta de mim, quer-me matar (crioulo)
[16] Parvoíce, e tu és muito parvo (crioulo)
[17] Casa ou casas de uma família (crioulo)
[18] Não sou parvo. A tropa atirou uma granada de morteiro grande para a casa do Quecuta (crioulo)
[19] Vamos lá ver (crioulo)
[20] Aquele morteiro grande às vezes muda de direcção (crioulo)
[21] É mau a minha família morrer. Os balantas não gostam do Quecuta. Alferes, castiga-os.
[22] Se calhar tu é que mereces castigo (crioulo)
[23] Quem o ajuou a fugir? Tu és mandinga e ele é mandinga… (crioulo)
[24] Não sei (crioulo)
[25] Não mexas na terra, não esgravates (crioulo)
[26] Cobra de palmeira (crioulo)
[27] Era inteligente (expressão comum na Guiné)
[28] Esta noite vais dormir a sono solto. Aqui o alferes não dome… (crioulo)
[29] Sim, estás autorizado. Fica cá. Com a Signi (crioulo)
[30] Cumprimentos (crioulo)
[31] O governo da nossa terra andou matá-lo (crioulo)
[32] O alferes Aiveca tiha razão. O governo não te mandou matar. Continuas chefe de tabanca (crioulo)
[33] Cobra de palmeira (crioulo)
[34] Era inteligente (expressão comum na Guiné)
[35] Esta noite vais dormir a sono solto. Aqui o alferes não dome… (crioulo)
[36] Sim, estás autorizado. Fica cá. Com a Nhegne (crioulo)
[37] Cumprimentos (crioulo)
[38] O governo da nossa terra andou matá-lo (crioulo)
[39] O alferes Aiveca tinha razão. O governo não te mandou matar. Continuas chefe de tabanca.