Lembranças da Guiné, na guerra e já fora dela. Pesquisa, comentários e factos. A memória sempre presente. Não está por ordem. É conforme me vou lembrando. Tudo o que tem a ver com a Guiné, a sua história, as etnias, a colonização e as guerras de resistência. Também a minha experiência durante a guerra colonial (está nos primeiros posts). Para quem não sabe ou viveu que veja e avalie se é realidade ou ficção. Para quem sabe ou viveu são lembranças.
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26 de janeiro de 2012
369-Aspectos e tipos da Guiné XX
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25 de janeiro de 2012
368-Colonização e religião
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24 de janeiro de 2012
367-Recordações... e saudades? Os restos estão em Cacheu.
Não sei se o Mário Lopes Garcia e o seu amigo Poates (?...) ainda estão vivos, já lá vão 50 anos... no entanto talvez, eu também ainda cá ando há mais de 50. O Mário é capaz de ter saudades, admito, daquela "terra longínqua, mas Potuguêsa". O Poates não me parece, pois desfez-se destes postais que encontrei num alfarrabista.
Mas aconselho o Mário a ir ver que, embora a História se mantenha no que foi verdade, as coisas mudaram, o que também é verdade, e História:
O "Pacificador da Guiné" Teixeira Pinto e o descobridor Diogo Gomes estão agora em Cacheu, assim:
fotografias de http://reservanaval.blogspot.com/2010_11_01_archive.html
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23 de janeiro de 2012
366-A descolonização que Salazar recusou
A descolonização que
Salazar recusou
O ministro dos Negócios Estrangeiros da Ditadura, Franco Nogueira, propôs a Salazar, em Janeiro de 1962, escassos dias depois da anexação de Goa pela União Indiana, a entrega de Macau à China e de Timor à Indonésia, acompanhadas de negociações sobre a independência da Guiné e de São Tomé e Príncipe, como forma de assegurar o domínio colonial sobre Angola, Moçambique e Cabo Verde. O documento que explicita o surpreendente volta-face da estratégia política do chefe da diplomacia do Estado Novo, mantido até hoje secreto, foi encontrado no espólio do ditador, depositado na Torre do Tombo, à guarda da Biblioteca Nacional.
Texto de Orlando
Raimundo*
Intitulado “Notas Sobre a Política Externa Portuguesa”, o
documento, de 18 páginas, datado de 12 de Janeiro de 1962, não está assinado,
como era costume entre os diplomatas, mas não há grandes dúvidas sobre a sua
autoria. O «dossier» onde foi encontrado reúne pastas do gabinete de Franco
Nogueira nas Necessidades, relativas a conversas mantidas com Salazar e com embaixadores
acreditados em Lisboa, no ano de 1962 e inícios de 1963. A anotação aposta na
primeira página, pelo punho do próprio ditador - «Começado a analisar com o
ministro dos Negócios Estrangeiros numa das nossas conferências» - é a prova da
sua autenticidade e a confirmação categórica de que o tema foi discutido com
Salazar.
A iniciativa de
Franco Nogueira surge num momento de grande vulnerabilidade para o regime: a 18
de Dezembro de 1961, as tropas indianas tinham invadido Goa, Damão e Diu. Os 50 mil
homens armados, dos três ramos das Forças Armadas, só precisaram de 24 horas
para obter a rendição total, assumindo soberania plena sobre os territórios e
abalando fortemente o edifício político da Ditadura. Apesar de «avisado», desde
Julho de 1954, pelo assalto aos enclaves de Dadrá e Nagar-Aveli, Salazar não
acreditava que a invasão se concretizasse.
Apostado em conseguir a admissão de Portugal
na ONU, o ditador ensaiara, no rescaldo da II Guerra Mundial, uma pequena
operação de cosmética, na tentativa de convencer a comunidade internacional de
que Portugal vivia uma «democracia orgânica» e não uma ditadura. Anunciou
eleições «tão livres como na livre Inglaterra», e mudou o nome da polícia
política (de PVDE para PIDE); do secretariado de propaganda (de SPN para SNI) e
dos Tribunais Militares Especiais (que passam a chamar-se Tribunais Plenários).
Durante os anos de 1946 e 1947, concede um espaço de
breve respiração à oposição, no que apelidou de «liberdade suficiente», sempre
vigiada pela polícia política, e mandou transformar o Tarrafal de campo de
concentração em «prisão normal».
Apesar dos protestos da oposição, sobre a ausência de
liberdades, a ONU acabou por aceitar a entrada de Portugal em Dezembro de 1955,
em simultâneo com a Espanha franquista. A decisão da
comunidade internacional foi determinada por dois factores associados: o receio
de que o comunismo se instalasse na Península Ibérica, que obrigava a ter em
atenção o papel de Franco e Salazar; e a necessidade de encontrar uma
compensação, de sinal contrário, para a entrada da União Soviética na
organização.
Apesar dos ataques e das condenações, a elite salazarista
continua a resistir à descolonização.
A posição do ditador é determinada por razões
exclusivamente políticas. Salazar, que recusara todas as tentativas dos
movimento nacionalistas africanos para consigo negociar uma transição pacífica,
já não está convencido de que a sobrevivência económica do país dependa das
colónias. Os resultados da exploração económica são cada vez menores. E não são
os interesses da CUF na Guiné, ou os investimentos em Angola, que o fazem mudar
de posição. A tese de Salazar é outra: fundamenta-se na convicção de que o
regime ditatorial não sobrevive sem as colónias. E não hesita, por isso, em
enfrentar tudo e todos, resistindo mesmo às pressões dos países que o apoiam.
O avanço de Nehru sobre Goa, para além de
pressionado pelo movimento terceiro-mundista, tinha sido discretamente
encorajado pelo Presidente norte-americano John Kennedy, adepto assumido da
descolonização. «A Índia, onde estava como embaixador americano John Kenneth
Galbraith, era muito importante para os Estados Unidos. Kennedy, de acordo com
o Governo brasileiro, tinha tomado antes uma iniciativa diplomática, oferecendo
a Salazar uma solução gradual e negociada para os territórios chamados então
províncias ultramarinas. Mas Salazar voltou a recusar o diálogo, pensava que
podia resistir», recorda Mário Soares, na longa entrevista memorial concedida a
Maria João Avillez em 1996.
Significativo é o facto, que não passou
despercebido a ninguém, de o avanço das tropas indianas cobre a colónia
portuguesa ter sido concretizado escassas semanas após o pacifista Nehru ter
regressado de uma viagem aos Estados Unidos.
O célebre «Discurso de Goa», de 3 de Janeiro
de 1962, em que Salazar desafia Nehru, dizendo que «a questão não acaba ali,
antes começa» - lido de forma teatral pelo presidente da Assembleia Nacional,
Mário de Figueiredo, por o ditador estar supostamente «com a voz embargada pela
emoção», serve de mote à proposta. A iniciativa partiu do próprio Franco
Nogueira, que faz questão de anotar, logo a abrir, que se trata de uma
«contribuição não solicitada».
Dando por adquirido que as bases da política colonial
«não se coadunam com o mundo ocidental em que somos obrigados a viver» e que o
objectivo da pressão anticolonial «não é uma vitória militar, mas a queda do
regime», o chefe da diplomacia do Estado Novo divide as colónias entre
«essenciais e não essenciais». No lote das primeiras inscreve Angola,
Moçambique e Cabo Verde, colocando todas as outras na posição de dispensáveis.
Desprezando por completo S. Tomé e Príncipe,
onde então se não vislumbrava qualquer possibilidade de haver petróleo,
lembrava que a Guiné se configurava já «como o território para o qual é mais
difícil delinear uma solução aceitável». E propunha, para abrir caminho, a
realização de «conversas exploratórias secretas» com o regime senegalês.
No caso de Macau, o ditador não é
confrontando de chofre com a necessidade de promover a «transferência de
soberania com manutenção de laços simbólicos com Portugal». Como qualquer bom
negociador, Franco Nogueira descortina duas hipóteses alternativas, como forma
de ganhar tempo, embora não pareça acreditar em nenhuma delas: o estatuto de
«porto franco» ou a criação de um «condomínio». E sugere «negociação semelhante
com a Indonésia em relação a Timor».
Para Angola, Moçambique e Cabo Verde,
elevadas à condição de «jóias da coroa», Franco Nogueira prescreve várias
soluções cruzadas, destinadas todas elas a assegurar o poder colonial: «pactos
militares secretos de assistência mútua local» com a Rodésia e a África do Sul,
obtendo empréstimos financeiros e mão-de-obra barata a troco de energia; a
criação de elites locais; a fixação de «colonos espanhóis» e emigrantes de
outros países, «designadamente italianos, gregos e franceses da Argélia, da
Metrópole ou do norte de África»; a concessão de facilidades económicas a
Espanha, na base de um novo Tratado Peninsular, e de facilidades ou
preferências comerciais ao Brasil; e a «captação», no caso específico de
Angola, «de certos grupos políticos estabelecidos no Congo, de feição
nacionalista angolana mas moderados e ainda não lançados na luta armada». Um
pedido de associação rápida ao Mercado Comum (actual União Europeia)
facilitaria imenso as coisas, em sua opinião.
Advertindo para a necessidade de se dispor de
recursos financeiros para o êxito da operação, que deveria provocar um surto de
desenvolvimento, o diplomata propunha-se ainda negociar com os países vizinhos
o estatuto de Cabinda, que na sua opinião «nem historicamente nem em função da
geografia ou da economia terá (teria) necessariamente de acompanhar Angola»;
reduzir a contribuição financeira na NATO, «procurando libertar-nos da rede de
obrigações impostas pela organização»; e aumentar «substancialmente» o montante
do arrendamento da base das Lajes, reduzindo o prazo da durabilidade dos
acordos.
A chegada de John Kennedy à Casa Branca
mudara por completo o modo como os norte-americanos encaravam as ditaduras
ibéricas e os impérios coloniais. Salazar foi a primeira vítima da nova
política de Washington para com África. E o embate entre o Presidente democrata
e o ditador de Santa Comba foi inevitável. O inquilino da Casa Branca chegou a
propor ao ditador a completa independência das colónias, sob a fórmula da
autodeterminação, mas Salazar recusou liminarmente a proposta. Inaugurando um
novo estilo, Kennedy privilegiou sempre os contactos directos com os movimentos
de libertação, que apesar da desconfiança correspondiam aos acenos de simpatia
norte-americanos.
«Salazar tinha traçado a política externa
portuguesa, tornando-se prisioneiro das suas opções políticas. Tendo assumido o
poder quando Portugal tinha fronteiras imperiais respeitadas internacionalmente
e motivo de orgulho para os portugueses, incluindo intelectuais e políticos de
oposição ao regime, Salazar empenhou-se em defender essas fronteiras sem fazer
concessões, consciente de que se tratava de uma política nacional, legítima e
julgada exequível, e convencido de que a menor cedência teria efeitos em cadeia
que seriam incontroláveis e irreparáveis», observa o embaixador João Hall
Themido no seu livro de memórias.
Na lógica radical do ditador, a defesa
intransigente das colónias portuguesas, «cobiçadas pela URSS através dos seus
peões no terreno», os movimentos nacionalistas de libertação, deveria ser
encarada pelos países capitalistas como causa sua. Estava mesmo convencido -
assegura Hall Themido - que o mundo ocidental «acabaria por reconhecer as
vantagens de poder contar com um espaço territorial português de incontestável
valor estratégico, mesmo que discordasse do regime existente em Lisboa e da
política colonial prosseguida».
Enquanto Franco Nogueira, encarregue de aplicar no
terreno as suas orientações pessoais e directas, procurava construir um
argumentário coerente - manipulando como podia a memória histórica e os
documentos oficiais das próprias Nações Unidas -, Salazar apostava forte no
agravamento da Guerra Fria. Era a fobia do comunismo, encarado como
ameaça séria não apenas pelo regime do Estado Novo mas também pelas potências
ocidentais. Na esperança de que fosse tudo uma questão de tempo, o ditador
enfrentava com grande convicção e com muita firmeza as adversidades, tanto a
nível interno como no plano internacional.
A 4 de Fevereiro de 1961 rebentara a rebelião
em Angola, com o assalto às prisões de Luanda onde se encontravam presos
activistas e dirigentes da resistência nacionalista. A Argélia tornara-se já
independente e 17 outros Estados do continente africano também. Mas a questão
colonial continuava a ser o mito e a obsessão do salazarismo.
O ano começou da pior maneira para Salazar,
com o assalto ao paquete «Santa Maria», logo em Janeiro, numa operação
comandada por Henrique Galvão, que contribui fortemente para desacreditar o
regime a nível internacional. A 15 de Março, o Norte de Angola é sacudido por
ataques terroristas e dias depois os Estados Unidos, seguindo uma orientação de
John Kennedy, eleito dois meses antes, votam no Conselho de Segurança das Nações
Unidas uma resolução contra Portugal. Segue-se a decisão do Congresso
norte-americano de decretar um embargo à venda de armas a Portugal. O ditador
sente-se traído pelo «amigo americano» mas assume directamente o comando das
operações. «Se é precisa uma explicação para o facto de assumir a pasta da
Defesa Nacional, mesmo antes da remodelação do Governo que se verificará a
seguir, a explicação pode concretizar-se numa palavra, e essa é Angola», diz,
num célebre discurso, difundido por todos os meios de informação .
Internamente, a situação complica-se também
bastante: a 13 de Abril, o general Botelho Moniz, ministro do Exército, lidera
uma tentativa de golpe de Estado, que fracassou; em Novembro um avião da TAP é
desviado, em pleno voo, por um grupo de opositores liderado por Hermínio da
Palma Inácio, que depois lança «panfletos subversivos» sobre Lisboa; e a 31 de
Dezembro dá-se o «Golpe de Beja», uma nova tentativa (também falhada) de
derrubar Salazar, durante a qual o general Humberto Delgado entra e sai
clandestinamente de Portugal.
O golpe de Botelho Moniz, um homem de
direita, visava precisamente a procura de uma solução negociada para o problema
colonial, no pressuposto de que a guerra era uma opção sem saída. O conspirador
contava com o apoio dos comandos militares e o discreto incentivo dos
americanos, com quem contactava directamente nas reunião da NATO. Mas cometeu
uma ingenuidade de última hora, ao pressionar Américo Thomaz para demitir
Salazar, acabando por ser por ele denunciado e colocado em prisão domiciliária.
É no rescaldo desse processo que Salazar, em jeito de resposta, profere a
célebre frase: «Para Angola, rapidamente e em força».
O «Golpe de Beja», que não passou afinal de
um assalto mal sucedido ao quartel daquela cidade alentejana, durante o qual
foi morto o secretário de Estado do Exército, foi liderado por um grupo de
militares e civis que incluía os capitães Varela Gomes e Eugénio Oliveira, que
foram presos, e Manuel Serra, Fernando Piteira Santos e Ramos da Costa, que
tiveram que fugir clandestinamente do país.
O documento encontrado no Arquivo Salazar
contraria em toda a linha tudo quanto Franco Nogueira disse e escreveu sobre o
assunto, antes e depois do 25 de Abril, alterando profundamente a imagem de
total intransigência que dele retém a História. Esse facto constitui, por si
só, um elemento de grande perturbação para os homens do regime que com ele
partilharam missões. Adriano Moreira, o ministro do Ultramar - que reconhece de
imediato a caligrafia de Salazar e a «maldita caneta com o aparo já gasto», que
dificultava a decifração -, diz que o documento nunca lhe foi mostrado.
O ex-presidente do CDS sublinha, sem arriscar
qualquer comentário, o facto de não figurar na obra supostamente minuciosa de
Franco Nogueira, «nem referência ao documento nem apontamento de que esta
política tenha sido por ele sugerida ou assumida». Mas evoca uma recordação
capaz de ajudar a decifrar o mistério: «O dr. Salazar, que raras vezes reunia o
Conselho de Ministros, mantinha uma relação bilateral com cada um dos
ministros, a quem fazia muitas vezes notar que saber secreto é poder, não
partilhando com outros as reflexões feitas a dois». Poderá estar aí a
explicação para o secretismo.
O
general Silvino Silvério Marques, na altura governado de Cabo Verde, contactado
também pelo Expresso, confessa-se igualmente estupefacto. «Falei muitas vezes
com ele e custa-me muito a acreditar que tenha feito uma proposta dessas. A ser
verdade, é uma viragem completa na sua actuação política.»
De Angola - onde o MPLA, a FNLA e a UNITA
contam com a cumplicidade dos países vizinhos (Congo-Brazzavile, Zaire e
Zâmbia, onde possuíam bases) e o apoio mais ou menos discreto da URSS e da
China (a que se juntam mais tarde os EUA, confiantes em Holden Roberto) -, o
rastilho independentista estende-se à Guine. É a fase em que Kennedy manda
oferecer a Salazar apoio ao desenvolvimento económico e social das colónias, a
troco de abertura à negociação. Paralelamente, Amílcar Cabral, o fundador do
PAIGC e seu primeiro presidente, (que em Dezembro de 1960 participara com
outros líderes nacionalistas numa conferência de Imprensa em Londres contra o
colonialismo português), escreve em Outubro de 1961 uma «Carta Aberta» a
Salazar. O ditador despreza uma iniciativa e outra. E /CW>Chega depois a vez
de Moçambique, onde os combates começam a 25 de Setembro de 1964. Kennedy tinha
sido assassinado há quase um ano, a 22 de Novembro de 1963, e na Casa Branca
estava agora Lyndon B. Johnson. Mas «Lisboa estava informada da ajuda secreta
americana à Frelimo de Eduardo Mondlane e à FNLA de Holden Roberto, além de
conhecer o apoio dispensado pela CIA aos missionários que em Angola
desenvolviam actividade hostil à política portuguesa. Salazar pensaria ainda
que uma reforma profunda da vida do país podia levar à queda do regime político
que construíra», recorda o embaixador Hall Themudo. O ditador avalia como
imprevisíveis, nos planos nacional e externo, as consequências de uma cedência.
E resiste uma vez mais.
Com as três frentes de guerra em crescendo, o
ano de 1965 surge também particularmente difícil para o regime. Num momento em
que Ian Smith declara a independência unilateral da Rodésia, a PIDE assassina
perto de Badajoz o general Humberto Delgado, e «Luanda», de Luandino Vieira
(então a cumprir no Tarrafal uma pena de 14 anos de prisão por «actividades
subversivas contra a segurança do Estado»), ganha o Grande Prémio da
Novelística da Sociedade Portuguesa de Escritores.
O regime abre uma grande brecha, mas não
entra ainda em agonia. A guerra, em vez de isolar o ditador dá-lhe novo alento,
com a exploração manipulada da teoria da vitimização. O grande problema
decorria da posição hostil dos Estados Unidos, que perturbava a política
externa portuguesa, toda ela centrada no problema colonial. Numa entrevista
concedida em Abril de 1966 ao «Chicago Tribune», Salazar manda um recado
directo ao Presidente Johnson: «As dificuldades com o Governo (americano) vêm
apenas deste, ante o facto de a Nação portuguesa ser constituída por parcelas
dispersas em vários continentes, julgar ser-lhe lícito aplicar-nos o estatuto
de aliados numa parte do território e o de inimigos noutra.»
Enquanto se mantém no poder, Salazar não dá o
mínimo sinal de cedência em relação à questão colonial, que irá deixar como
herança fatal ao seu sucessor, Marcello Caetano. Nem Franco Nogueira, que só
abandona a pasta após a morte política do ditador, em 1968, fará qualquer
referência à «solução» recusada. Falecido em Março de 1993, com 75 anos, o
diplomata manteve-se fiel até ao fim ao pacto de silêncio.
*
Investigação de Luísa Amaral
Publicado
no Expresso, em 31.08.2002
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22 de janeiro de 2012
365-Efeitos da actividade do PAIGC e suas consequências
Com a devida vénia ao amigo Sousa de Castro, que publicou estes quadros no seu blogue
http://cart3494guine.blogspot.com/ , e ao Luís Gonçalves Vaz (filho do Cor. Henrique Gonçalves Vaz, último CEM - Chefe do Estado-Maior - do CTIG), que foi quem para lá os enviou. E os meus agradecimentos aos dois porque estes dados vieram ao encontro das dúvidas que já expressei anteriormente aqui.
São excertos de um Relatório da 2ª REP do CTIG (2ª Repartição do Comando Territorial Independente da Guiné), o qual diz assim no início:
«Entendeu-se para dar uma ideia mais objectiva da situação em 25ABR74 e sua evolução previsível se não tivesse ocorrido o M.F.A., seria necessário incluir além dos primeiros meses de 1974 todo o ano de 1973. Só uma visão deste lapso de tempo nos poderia revelar o progressivo agravamento da situação de tendência irreversível.
...O ano de 1973 juntamente com os primeiros meses de 1974, até ao 25ABR, constituem um período de nítido agravamento da situação militar, económica e político-subversiva no território da GUINÉ. Este estado de coisas reflectia a agudização do problema colonial português especialmente no plano internacional.»
Os quadros são claros na perspectiva do agravamento.
Vou dar um destaque às acções contra as NT (Nossas Tropas) - os ataques a tabancas (aldeias), raptos e roubos são decorrentes do tipo de guerra lá travada (mesmo assim com uma evolução negativa, o que também é significativo):
- ataques a destacamentos e embarcações, emboscadas, sabotagens, interdição de itinerários (não refere os aviões abatidos - ver aqui): 669 em 1972, 1008 em 1973; 249 do início de 1973 até 30 de Abril de 1973, 399 do início de 1974 até 30 de Abril de 1974
- quanto aos mortos, feridos, retidos e capturados: 940 em 1972, 1366 em 1973; 321 do início de 1973 até 30 de Abril de 1973, 507 do início de 1974 até 30 de Abril de 1974
Entre as"Populações" (mortos, etc) o quadro não diferencia os causados pelo PAIGC e os causados pelas NT. Houve pelas duas partes, evidentemente, mas com evolução negativa. Os americanos chamam-lhes "danos colaterais"... mas eu não: foram também vítimas de uma guerra injusta e inútil.
Quanto às baixas causadas ao PAIGC, vou dar igual destaque, tendo em conta, no entanto, só os "confirmados" (mortos confirmados, feridos confirmados, capturados, apresentados), pois eu sei, por experiência própria, que os números apresentados nos relatórios raramente correspondiam à realidade; mesmo assim: de certeza "confirmados" foram os capturados e os apresentados (resta saber se eram guerrilheiros ou se eram população controlada pelo PAIGC...); depreendo que os mortos e feridos "confirmados" foram os que ficaram no terreno ou de notícias colhidas junto dos informadores, mas em muitas situações relatou-se que "foram vistos rastos de sangue"... uma coisa é certa - os nossos mortos, feridos e "retidos" é que foram mesmo "confirmados":
- baixas causadas ao PAIGC: 538 em 1972, 472 em 1973; 195 do início de 1973 até 30 de Abril de 1973, 151 do início de 1974 até 30 de Abril de 1974
É evidente uma progressão inversa nas baixas dos dois lados: as das NT a subir, as do PAIGC a diminuir.
São excertos de um Relatório da 2ª REP do CTIG (2ª Repartição do Comando Territorial Independente da Guiné), o qual diz assim no início:
«Entendeu-se para dar uma ideia mais objectiva da situação em 25ABR74 e sua evolução previsível se não tivesse ocorrido o M.F.A., seria necessário incluir além dos primeiros meses de 1974 todo o ano de 1973. Só uma visão deste lapso de tempo nos poderia revelar o progressivo agravamento da situação de tendência irreversível.
...O ano de 1973 juntamente com os primeiros meses de 1974, até ao 25ABR, constituem um período de nítido agravamento da situação militar, económica e político-subversiva no território da GUINÉ. Este estado de coisas reflectia a agudização do problema colonial português especialmente no plano internacional.»
Os quadros são claros na perspectiva do agravamento.
Vou dar um destaque às acções contra as NT (Nossas Tropas) - os ataques a tabancas (aldeias), raptos e roubos são decorrentes do tipo de guerra lá travada (mesmo assim com uma evolução negativa, o que também é significativo):
- ataques a destacamentos e embarcações, emboscadas, sabotagens, interdição de itinerários (não refere os aviões abatidos - ver aqui): 669 em 1972, 1008 em 1973; 249 do início de 1973 até 30 de Abril de 1973, 399 do início de 1974 até 30 de Abril de 1974
- quanto aos mortos, feridos, retidos e capturados: 940 em 1972, 1366 em 1973; 321 do início de 1973 até 30 de Abril de 1973, 507 do início de 1974 até 30 de Abril de 1974
Entre as"Populações" (mortos, etc) o quadro não diferencia os causados pelo PAIGC e os causados pelas NT. Houve pelas duas partes, evidentemente, mas com evolução negativa. Os americanos chamam-lhes "danos colaterais"... mas eu não: foram também vítimas de uma guerra injusta e inútil.
Quanto às baixas causadas ao PAIGC, vou dar igual destaque, tendo em conta, no entanto, só os "confirmados" (mortos confirmados, feridos confirmados, capturados, apresentados), pois eu sei, por experiência própria, que os números apresentados nos relatórios raramente correspondiam à realidade; mesmo assim: de certeza "confirmados" foram os capturados e os apresentados (resta saber se eram guerrilheiros ou se eram população controlada pelo PAIGC...); depreendo que os mortos e feridos "confirmados" foram os que ficaram no terreno ou de notícias colhidas junto dos informadores, mas em muitas situações relatou-se que "foram vistos rastos de sangue"... uma coisa é certa - os nossos mortos, feridos e "retidos" é que foram mesmo "confirmados":
- baixas causadas ao PAIGC: 538 em 1972, 472 em 1973; 195 do início de 1973 até 30 de Abril de 1973, 151 do início de 1974 até 30 de Abril de 1974
É evidente uma progressão inversa nas baixas dos dois lados: as das NT a subir, as do PAIGC a diminuir.
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21 de janeiro de 2012
364-Guiné-Bissau, uma ONG nos Bijagós
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20 de janeiro de 2012
363-Amílcar Cabral foi assassinado há 39 anos
ROSA NEGRA
Rosa,
Chamam-te Rosa, minha preta formosa
E na tua negrura
Teus dentes se mostram sorrindo.
Teu corpo baloiça, caminhas dançando,
Minha preta formosa, lasciva e ridente
Vais cheia de vida, vais cheia de esperanças
Em teu corpo correndo a seiva da vida
Tuas carnes gritando
E teus lábios sorrindo...
Mas temo tua sorte na vida que vives,
Na vida que temos...
Amanhã terás filhos, minha preta formosa
E varizes nas pernas e dores no corpo;
Minha preta formosa já não serás Rosa,
Serás uma negra sem vida e sofrente
Ser’as uma negra
E eu temo a tua sorte!
Minha preta formosa não temo a tua sorte,
Que a vida que vives não tarda findar...
Minha preta formosa, amanhã terás filhos
Mas também amanhã...
... amanhã terás vida!
Amílcar Cabral
Para falar de Amílcar Cabral, os espaços (os caracteres!) vão sendo cada vez mais escassos. Pela sua dimensão humana, pela relevância das suas ideias-chave, pelo exemplo de revolucionário, de marxista [...].
Num programa gravado da Antena 2 no dia 5 de Fevereiro de 1999 (http://www1.ci.uc.pt/cd25a/wikka.php?wakka=Tc1350):........
Para falar de Amílcar Cabral, os espaços (os caracteres!) vão sendo cada vez mais escassos. Pela sua dimensão humana, pela relevância das suas ideias-chave, pelo exemplo de revolucionário, de marxista [...].
O homem
Os
vários sentidos do contributo de Amílcar Cabral escoram-se na sua quase
desconcertante simplicidade (1), que coexiste com a enorme
complexidade dos temas sobre que reflectiu e das tarefas que assumiu por
decisão pessoal e pela dinâmica colectiva em que se inseriu.
Não
encontro melhor adjectivo que humanista para essa postura. Essa dimensão humana
ganha toda a expressão quando o dirigente da luta da libertação de dois povos –
de Cabo Verde e da Guiné-Bissau – do jugo colonial português, revela também
sentir como seu o povo português.
A
simples (!) destrinça entre o regime fascista e colonialista de Portugal, contra
quem dirigia a luta, e o povo português que (também) o sofria, é um dos
aspectos mais marcantes da sua personalidade. É uma atitude que merece o apodo
de corajosa pois se faz parte da preparação para a (e da ideologia da) guerra
desumanizar o inimigo, se é fácil suscitar ódios, em contrapartida, mostra uma
enorme (e magoada) lucidez ver – e não o esconder! –, no aparente e próximo
inimigo, a vítima do mesmo poder contra que se trava uma luta de vida ou
morte (2).
E,
sobre o homem, não se pode ainda esquecer, por mais sucinta que seja a
anotação, a referência ao técnico, ao engenheiro agrónomo que, com grande
exigência de rigor científico, fez a sua formação na universidade, em Lisboa,
estudou a erosão dos solos no Alentejo e a morte súbita do cafeeiro em Angola,
fez o recenseamento agrícola da Guiné-Bissau.
Ideias-chave
Pelo
enunciado de ideias-chave, resume-se, telegraficamente mas procurando não se
ser redutor, o mais significativo do pensamento de Amílcar Cabral.
Das
referências ao homem, ao técnico e ao revolucionário, decorre a importância da
ligação entre teoria e prática. O volume I das Obras escolhidas de Amílcar
Cabral (3) tem o título A
arma da teoria – unidade e luta e o II A
prática revolucionária – unidade e luta II, e é feliz e esclarecedora a escolha desses títulos
pois traduz a procura constante em fazer da teoria, do estudo, da reflexão, a
arma para a prática revolucionária.
Outra
ideia-chave é a unidade. Não só a unidade dialéctica – a arma da teoria
indispensável para a prática revolucionária e esta indispensável para aquela –
mas também a inovadora unidade na luta e orgânica entre os povos de Cabo Verde
e da Guiné Bissau, conduzida por um único partido – o PAIGC – Partido Africano
para a Independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde – para se conquistar a
independência de dois países, levando à criação de dois Estados em espaços
nacionais autónomos, com o mesmo partido saído da luta a manter a unidade entre
diferentes... aliás porque apenas entre diferentes pode haver unidade. E a
ideia da unidade “dos povos de Cabo Verde e Guiné-Bissau”, com base em reforço
de complementaridades, inseria-se numa ideia mais larga da unidade africana –
PAI... – e da unidade da luta de libertação dos povos do colonialismo e,
também, da exploração capitalista.
A
estas ideias-chave, junta-se uma outra, só aparentemente menor: a da relevância
do factor cultural. Na chamada “Declaração
da Praia” (4) pode
ler-se: “Na linha do pensamento de
Cabral, (...) quanto menos as bases materiais forem adequadas às relações
sociais a serem criadas, mais devem ser tomados em consideração os elementos
culturais nos processos de transição (...) cada povo deve poder dar a sua
contribuição própria ao património mundial, graças a uma produção cultural
original e dinâmica, verdadeiramente popular e livre de se exprimir
criativamente (e) se o particular se chama cultura e responde deste modo às
exigências da vida quotidiana e da identidade de cada povo, a solidariedade
internacional é também uma exigência do pensamento e da acção”.
A
relevância do factor cultural não apaga nem diminui a abordagem dialéctica e a
perspectiva materialista histórica, de onde a ideia-chave da importância
decisiva da libertação das forças produtivas, espartilhadas pelas relações
sociais de produção coloniais e neo-coloniais. Para Cabral, a libertação das
forças produtivas nos países sob o jugo colonial era determinante para a
verdadeira independência dos povos.
Outra
ideia-chave, esta merecedora de referência particular pelo modo como provocou e
“encantou” quem, na década de 60 e começos da de 70, “pensou a revolução”, é a
do suicídio da pequena burguesia. Na impossibilidade de mais fazer que resumir
o essencial, cito o próprio Amílcar Cabral quando escreveu que “esta alternativa – trair a revolução ou
suicidar-se como classe – constitui o dilema da pequena burguesia no quadro
geral da luta de libertação nacional”, no pressuposto, na sua análise numa
perspectiva de luta de classes, da inexistência de uma classe revolucionária
que pudesse, nesses locais, conduzir a luta.
Não
quereria isto dizer que o PAIGC fosse um partido de pequeno-burgueses mas que
os seus dirigentes, na consciência da luta política que travavam, incluíam a de
que contra si, como parte de uma classe, lutavam e que, por isso, a sua opção
de revolucionários serem semelhava um suicídio (como classe!).
Porquê o assassinato?
O
PAIGC levou, com a declaração da independência da Guiné-Bissau a 24 de Setembro
de 1973, a sua tarefa até ao fim de uma etapa. Impedi-lo teria sido uma das
razões do assassinato de Amílcar Cabral que, num relatório já de Janeiro de
1973, escrevia que “a nossa situação é a
de um Estado independente de que uma parte do território nacional, nomeadamente
os centros urbanos, está ocupada por uma potência estrangeira” e definia
como se iria proclamar a independência.
Mas
se o seu assassinato não impediu essa machadada no colonialismo português, já
terá sido determinante para o agravar das dificuldades, e depois abrupto
rompimento, na concretização do projecto de unidade Cabo Verde-Guiné-Bissau (Uma luta, um partido, dois países,
título do recentíssimo livro de Aristides Pereira), que concitava alguma
animosidade – e bem mais do que isso... – por parte de alguns dos que, sem o
desaparecimento de Cabral, não teriam força para o combater. Além de que a
capacidade de Amílcar Cabral, com o seu rigor e exigência do ponto de vista
técnico-científico, seria determinante no equacionar e na resolução de
dificuldades de projecto tão inovador e ambicioso.
Mas
a História (e a política) não é o que poderia ter sido, é... o que é depois do
que foi!
Era Cabral marxista?
O
simpósio internacional, organizado pelo PAICV na capital de Cabo Verde em
Janeiro de 1983, para assinalar o 10º aniversário do assassinato de Amílcar
Cabral e consagrado à sua obra e pensamento, juntou um grande número de
participantes (5) de várias origens,
nacionais, continentais e ideológicas, que, a partir da obra e do pensamento de
Cabral, reflectiram o Mundo, a sua mudança e como a fazer. Do simpósio, suas
comunicações e documentos, editou-se o volume de 705 páginas já citado. Refiro
esta publicação porque nela se encontra um repositório de contributos, alguns
de grande importância a todos os títulos, e ainda porque nela se aborda uma outra
questão que, por vezes, surge quando se fala de Amílcar Cabral: era ele
marxista? Aproveito dois trechos, meros aperitivos para aprofundada
fundamentação da resposta que, a meu ver, só pode ser afirmativa. [leiam a demonstração disso em http://coisasdaguine.blogspot.com/2012/01/359partir-da-realidade-da-nossa-terra.html?spref=fb]
Um,
de Imre Marton, universitário húngaro, afirma que Amílcar Cabral faz parte da “reprodução alargada do pensamento marxista
(que) é, em suma, o devir histórico da identidade do pensamento marxista”,
e acrescenta “como toda a identidade, ela
é confrontada com as mudanças que se operam no tempo e com as especificidades
que encontra no curso da sua extensão no espaço (...) A grandeza de Cabral foi
a de ter sabido detectar e responder às exigências de correntes do devir
histórico da identidade do pensamento marxista. Se ele encontrou respostas
adequadas aos imperativos da luta de libertação nacional a partir de uma
situação singular, a da Guiné-Bissau e de Cabo Verde, foi porque ele localizou
o mundial e mundializou o local.”(6)
O
outro trecho é da Declaração final do simpósio:
“A época das lutas ainda de modo nenhum
terminou (...) Trata-se muito claramente da gigantesca luta de classes, que
entrou numa fase nova da sua dimensão mundial. Uma burguesia sem fronteiras
conseguiu dotar-se de bases técnicas e jurídicas para a sua dominação (...)
Essas lutas não se revestem de um carácter linear. Elas são atingidas por
contradições muitas vezes dolorosas, devidas a factores internos de classes ou
culturas, bem como a factores externos de dominação económica e política e, às
vezes, mesmo militar. Amílcar Cabral, que foi um dos autores do despertar das
consciências populares, e dos dirigentes das lutas de libertação, também deu um
impulso novo à reflexão teórica. É missão dos intelectuais prosseguir essa
tarefa de um pensamento ligado à prática e de práticas fecundadas pelo
pensamento.”
Notas
(1) Para cuja
caracterização o que Manuel Alegre conta em Continuar Cabral,
Grafedito/Prelo-Estampa, 1984 dispensa grandes exposições: “...de repente ele
virou-se para mim e disse: ‘Sabes o que me apetecia? Apetecia-me ser ponta
esquerda do Benfica ou chefe de orquestra do Morro’”.
(2) Num livro de
Miguel Urbano Rodrigues, O tempo e o espaço em que vivi - 1, Campo das Letras,
2002, há páginas dedicadas a encontros com Amílcar Cabral em que tal se
reflecte de forma impressiva: “Emocionou-me ouvi-lo, numa antevisão do futuro
próximo, lamentar um absurdo. (...) Antes de disparado o primeiro tiro já lhe
doía a inevitabilidade da guerra. Sofria pela juventude que iria morrer nos
campos de batalha. A sua gente teria de morrer para que a História avançasse; os
portugueses, esses seriam triturados pela máquina do colonialismo, como carne
para canhão de uma causa condenada. ‘É terrível, angustiante, sabermos que isso
vai acontecer’ – não esqueço as suas palavras – ‘e não podermos deter a máquina
da morte, accionada pela irracionalidade do colonialismo mais retrógrado de
todos os colonialismos’”.
(4) Declaração
final, aprovada pelos participantes no Simpósio Internacional Amílcar Cabral a
20 de Janeiro de 1983, em Continuar Cabral.
Almada Duarte e dezenas de quadros.
Convidados estrangeiros: Leopold
Senghor, Lúcio Lara, Alda Espírito Santo, O. Martichine, Basil Davidson, Ario
L. de Azevedo, Jean Suret-Canale, R. Chilcote, J. Medeiros Ferreira,
Nzongola-Ntalaja, Manuel Alegre, François Houtart e G. Lemercinier, M.
Glisenti, Mário de Andrade, Luis Moita, Bernard Magubane, Sérgio Ribeiro, M.
Diawara, Babacar Sine, Solodovnikov, Yves Benoit, I. Wallerstein, P.
Pierson-Mathy, L. Luzzato, Imre Marton, S. Bosgra, Jean Ziegler, Sylvia Hill,
K. Roth, Álvaro Mateus, Pascoal Mocumbi, T. Ngakoutou, E. Apronti, O.
Dzuverovic, Kim San Koun, A. I. Sow, N. Kamati, D. Cindi, Jorge Manfugas, G.
Chaliand, S. Malley (ordem apresentada pelos organizadores de acordo com as
comunicações e distribuição por temas).
(6) “L’apport
d’Amilcar Cabral à une universalisation concrète de la pensée revolutionnaire,
marxiste”.
«O Militante» - N.º 262 Janeiro/Fevereiro de 2003 (http://pcp.pt/publica/militant/262/p35.htm)
Num programa gravado da Antena 2 no dia 5 de Fevereiro de 1999 (http://www1.ci.uc.pt/cd25a/wikka.php?wakka=Tc1350):........
Fernando Rosas - Acha que a morte do Amílcar Cabral prejudicou a política do
Spínola para a Guiné?
Carlos Fabião - Se fosse do Spínola para a Guiné! Foi a toda a África, na
minha opinião. Foi a toda a África. Era um homem, por exemplo, o Amílcar Cabral
era um homem extraordinariamente culto, extraordinariamente capaz de levar as
pessoas, de influenciar. Dizia-me o Zé Araújo, já falecido, que o único homem
que o Agostinho Neto, era teimoso que se fartava, e o único homem que ele ouvia
e aceitava era o Amílcar Cabral. Ao nível de África também o Amílcar Cabral era
um indivíduo ouvido, era um líder africano. [Fernando Rosas - Uma referência,
claro.] Tinha grandes ligações a nós e todo o
seu discurso foi sempre um discurso de entendimento connosco e nunca de ataque
a nós. Ele tem aquela frase que aliás os tipos do PAIGC me disseram que ele
durante a guerra disse, durante a guerra terá dito, contou-me também o Zé
Araújo e outros, terá dito, Vocês hão-de ver que quando vier a paz os
portugueses são os únicos indivíduos com quem a gente se vai entender. É claro
ele tem muita ligação a Portugal, não é verdade. Ele estava casado com uma
portuguesa. Estudou em Lisboa. [Fernando Rosas - Fez os estudos cá,
etc.] Está ligado aos outros indivíduos e
movimentos pela Casa dos Estudantes do Império na altura.
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A. Marques Lopes
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Amílcar Cabral
362-Há nuvens que envolvem ainda o assassinato de Amílcar Cabral
Dalila Cabrita Mateus diz em “A PIDE/DGS na Guerra Colonial, 1961-1974” que «O assassínio de dirigentes foi um tipo de operações levado a cabo pela PIDE/DGS. No entanto, constituía um assunto delicado». E refere que o elemento dessa polícia incumbido de dar andamento ao plano para a liquidação de Amílcar Cabral escreveu à margem do processo: «Comuniquei particularmente ao chefe da Delegação que este assunto não pode ser objecto de correspondência oficial. Ou não se dizem ou não se fazem». Refere, por isso, que não é possível encontrar relatórios da PIDE sobre a liquidação de Amílcar Cabral, até porque, citando José Pedro Castanheira, in “Quem mandou Matar Amílcar Cabral”, o inspector adjunto Alberto Matos Rodrigues recomendou que «Em trabalhos desses, não se deixam provas».
Os americanos também procuram baralhar...
«Inventaram-se pretextos para a morte de Amílcar Cabral», diz Pedro Pires
E houve vários planos, assevera esta investigadora dos Arquivos da PIDE existentes na Torre do Tombo.
O primeiro terá sido em 1967, o do inspector Miguel António Cardoso, então chefe da delegação da PIDE na Guiné, que mandou vir de Conacri um antigo combatente para que, conhecedor dos locais por onde Cabral costumava passar nessa cidade, o matasse a tiro ou com granadas apreendidas aos guerrilheiros. Só que, azar, esse homem foi preso pela tropa portuguesa e deixou de valer. Mandou vir de Conacri mais dois elementos para o mesmo objectivo, mas, entretanto, foi substituído. O novo chefe da delegação achou que um deles era bêbedo e que o outro não tinha estofo e a operação foi abandonada.
Em 1969 houve outra tentativa, esta planeada pela Aginter Press, uma encapotada agência de informações sedeada em Portugal mas que, efectivamente, se dedicava ao recrutamento de mercenários. Tinha ligações com a PIDE e com a Legião Portuguesa desde 1966. Teve a colaboração da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, do Ministério dos Negócios Estrangeiros e da Casa de Portugal em Paris, e participavam um diplomata senegalês, oposicionistas a Sékou Touré e elementos da FLING. O orçamento era superior a quatro mil contos, e o prémio em caso de êxito mil contos. Foi a Operação Chèvre. Se não deu ou não foi avante, a investigadora não precisa.
Veio, depois, a Operação Mar Verde, em Novembro de 1970, planeada e comandada por Alpoim Calvão, com o apoio de Spínola e de Marcelo Caetano. No livro de António Luís Marinho, “Operação Mar Verde, Um Documento para a História”, vêm as missões atribuídas a cada um dos grupos participantes na operação. Por exemplo, uma das do comandante Benjamim Lopes de Abreu era “a eliminação física do Presidente da República da Guiné Ahmed Sékou Touré” (documento 11). A ninguém foi explicitamente atribuída a missão da “eliminação física de Amílcar Cabral”. No entanto, ao 1º Ten. FZE Raul Eugénio Dias da Cunha e Silva tinha como missão: “Ataque e destruição de elementos e instalações do PAIGC em Conacry II: …41-Secretariado e habitação de Amílcar Cabral; 42-Casa de Aristides Pereira e Propaganda”. E diz ele, no seu relatório, que “decidi atacar primeiro e rapidamente os objectivos considerados de primeira importância: 41 e 42…”. Não é, pois, credível que a eliminação de Amílcar Cabral não fosse também um dos objectivos. Dalila Mateus narra que foi lançada sobre a casa de Amílcar Cabral uma chuva de obuses, tendo um deles acertado em cheio no quarto ao lado daquele onde dormia a mulher de Cabral, que teve de sair com os filhos pelas traseiras da casa. Numa casa ao lado ficaram gravemente feridos um casal jugoslavo e uma filha, uma outra filha deles morreu com um estilhaço na cabeça. E refere que Alpoim Calvão disse ao Público de 21 de Maio de 1991 que se Cabral estivesse em Conacri teria sido seguramente eliminado.
Em 1971 foi a delegação da PIDE em Cabo Verde que mobilizou mil contos para contratar um cabo-verdiano residente em Monróvia, na Libéria, e com anteriores ligações a Cabral e Agostinho Neto. Era para, com mais seis indivíduos, assassinar Amílcar Cabral e destruir um depósito de material de guerra em Conacri. Não resultou.
Mas a PIDE andava também atenta às divisões dentro do PAIGC.
Em Junho de 1967 teriam armadilhado a casa de Cabral em Koundaré e teriam sido enviadas cartas para Catió, Cabedu, Farim, Mansoa e Bula com o intuito de não serem acatadas as ordens de Amílcar Cabral. Os conjurados foram presos e fuzilados. E a PIDE afirma ter ouvido, na altura, que Nino Vieira encarou com simpatia “o movimento conspirativo do Boé”. Também em Setembro desse ano parece ter havido um atentado contra o Secretário-geral do PAIGC. Foi também o ano, constou em Dezembro, do descontentamento dos mandingas pelas baixas sofridas em combate e pelo facto de os cabo-verdeanos serem poucos a combater.
Em Janeiro de 1968 foi assinalado novo movimento de revolta e, nesse ano, as notícias das divisões no PAIGC levaram a PIDE a tomar nota e, como consta numa das pastas dos Arquivos da PIDE, “Em face desta notícia foi considerado superiormente que se devia procurar, por todos os meios, se necessário mesmo financeiros, explorar estas divergências”.
(...)
E conta Otelo Saraiva de Carvalho, em “Alvorada em Abril”, que o inspector Fragoso Allas (grande amigo de Spinola) lhe terá dito que “os tipos tinham ido longe demais, porque a missão era só raptar e conseguir trazer Amílcar Cabral para Bissau como refém”.
É claro, então, que foi resultado de uma missão da PIDE. Não condiz o "era só raptar" com as declarações acima citadas do Ten. FZE Raul Eugénio Dias da Cunha e Silva, quando este diz que, na operação Mar Verde, decidiu a destruição do "Secretariado e habitação de Amílcar Cabral", bem como com Alpoim Calvão, que disse que Amílcar Cabral seria eliminado se estivesse em Conacri na altura da invasão.
Como se vê, a eliminação dos líderes dos movimentos de libertação foi um objectivo desde sempre. Relativamente a Amílcar Cabral também o era em 1970. Não em 1973?...
Podem ler este texto completo que escrevi em
http://coisasdaguine.blogspot.com/2011/01/42-amilcar-cabral-foi-assassinado-ha-38.html
É claro, então, que foi resultado de uma missão da PIDE. Não condiz o "era só raptar" com as declarações acima citadas do
Como se vê, a eliminação dos líderes dos movimentos de libertação foi um objectivo desde sempre. Relativamente a Amílcar Cabral também o era em 1970. Não em 1973?...
E esta!!
BRUNO OLIVEIRA SANTOS entrevista ÓSCAR CARDOSO, inspector da PIDE
B.O.S: A PIDE delineou algum plano secreto para matar Amílcar Cabral?
O.C: Não. Assim como lhe disse abertamente que a PIDE colaborou na eliminação de Eduardo Mondlane, também lhe garanto que nunca existiu nenhum plano para matar Amílcar Cabral. Quam matou Cabral foram dissidentes do PAIGC, a PIDE não teve nada a ver com aquilo. Essas histórias estão todas muito mal contadas. E na altura do 25 de Abril havia já um acordo entre o Nino Vieira e o nosso governo para aquele vir para Portugal, com a mulher e a filha, cuja colocação na Universidade estava já assegurada. Ora, quem conta essa história muito bem é o coronel Vaz Antunes, que estava então na Guiné, num opúsculo chamado Uma Diligência Interrompida. Os guerrilheiros do PAIGC estavam cansados, queriam acabar com a guerra e sobretudo não admitiam a sua subordinação aos cabo-verdianos.QUEM MANDOU MATAR AMÍLCAR CABRAL?
Amílcar Cabral foi assassinado a tiro, à porta da sua residência na Guiné-Conacri, na noite de 20 de Janeiro de 1973. Sabe-se que é líder do PAIGC e principal dirigente dos movimentos de libertação das colónias portuguesas foi morto por um companheiro de luta, fuzilado dias depois, juntamente com quase uma centena de conspiradores. O que nunca se soube foi quem verdadeiramente o mandou matar, quem, na sombra, preparou e organizou o crime e tentou um golpe de estado no interior do partido. Terá sido uma facção guineense e negra, que não aceitava a liderança dos cabo-verdianos e mestiços? Qual o papel do despótico presidente da República da Guiné, Sekou Touré, que não suportava a projecção internacional de Cabral e a sua ligação à cultura portuguesa? E da PIDE/DGS, que pusera a sua cabeça a prémio, que se infiltrara na direcção do PAIGC e que tudo fizera para eliminar o principal inimigo do regime? Enfim, será que os militares portugueses estiveram de todo alheados desta trama, eles que, anos antes, comandados por Spínola, não haviam hesitado em invadir Conacri?
O livro que constitui o desenvolvimento de uma reportagem publicada no “Expresso” em 1993 procura desvendar todos estes enigmas, a partir de uma investigação feita em Portugal, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Senegal e República da Guiné, de uma centena de entrevistas e da consulta inédita aos arquivos da PIDE/DGS e do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Um contributo para desvendar um crime que permanece misterioso. Uma homenagem a uma figura grande da História contemporânea de África, comparável a Nelson Mandela.
Autor: José Pedro Castanheira
Editor: Relógio d’Água
Ano de edição: 1999 (3ª)
Segundo os Serviços de Informação dos Estados Unidos, em relatório datado de 1 de Fevereiro de 1973, o crime resultara de um conflito “entre mulatos das ilhas de Cabo Verde e africanos do continente". O conflito racial instalado no seio do PAIGC vinha “de longa data" e havia também "oposição esporádica dura dos seus comandantes militares que se irritavam com os limites por ele (Amílcar Cabral) imposto à actividade militar na Guiné portuguesa e à continua subordinação dos militares aos objectivos políticos
Washington, 26 Dezembro – Trinta e seis anos depois do assassinato de Amílcar Cabral ( a 20 de Janeiro de 1973), o Departamento de Estado norte-americano libertou os documentos oficiais nele arquivados sobre a conspiração que eliminou o líder do PAIGC. Segundo os documentos norte-americanos agora revelados, um mês após o crime a Administração norte-americana mostrava-se convencida de que Portugal não esteve directamente envolvido na morte de Amilcar Cabral, não excluindo todavia a possibilidade da "cumplicidade de Lisboa".
Segundo os Serviços de Informação dos Estados Unidos, em relatório datado de 1 de Fevereiro de 1973, o crime resultara de um conflito “entre mulatos das ilhas de Cabo Verde e africanos do continente". O conflito racial instalado no seio do PAIGC vinha “de longa data" e havia também "oposição esporádica dura dos seus comandantes militares que se irritavam com os limites por ele (Amílcar Cabral) imposto à actividade militar na Guiné portuguesa e à continua subordinação dos militares aos objectivos políticos".
Lê-se que os norte-americanos manifestaram sérias reservas às confissões tornadas publicas de elementos envolvidos na morte de Amílcar Cabral que culparam Portugal pelo assassinato, mas apontam que, "na base daquilo que sabemos, a cumplicidade portuguesa não pode ser excluída".
Ao Estados Unidos estavam ao corrente da intenção do PAIGC declarar a independência da Guiné-Bissau nas zonas libertadas do território (que aconteceu em Setembro de 1973) e da existência de contactos de Portugal com representantes do movimento de libertação havidos nesse ano, que tinham decorrido em Paris.
Os documentos mostram também que o secretário de estado Henry Kissinger estava farto e irritado com a inflexibilidade portuguesa na questão colonial. Para Kissinger, lê-se, "não hà solução excepto tirar-lhes (os territórios)". “Eu sempre assumi que o único meio que os forçará a sair de Angola e Moçambique é os africanos tornarem as coisas tão quentes que eles sairão. Antes disso não sairão. Falar com eles não os vai levar a sair", disse Henry Kissinger. E opinava que os Estados Unidos deveriam tomar uma decisão política "para tentar levar os portugueses a saírem (de África) o mais rapidamente possível, usando o argumento que esse é o melhor meio para preservar os vestígios da sua posição". "Se seguirmos isso, isso é uma posição razoável … é um ponto de vista político perfeitamente legítimo. Mas não vai avançar só através de consultas”. Para Kisinger Portugal tinha duas opções: "aguentar o máximo tempo possível ou tentar sair o mais rapidamente possível" afirmando que na sua opinião o "meio de sair é seguir a via que De Gaulle escolheu" quando decidiu abandonar a Argélia.
Ou seja: os Estados Unidos, em fins de 1973, já tinham decidido abandonar o colonialismo português à sua própria sorte. Meses depois, dava-se em Portugal o golpe de Estado que derrubou a ditadura e abriu caminho à democracia, ao fim das guerras coloniais e à independência dos países africanos sob dominação portuguesa.
«Inventaram-se pretextos para a morte de Amílcar Cabral», diz Pedro Pires
O Presidente de Cabo Verde, Pedro Pires, destacado líder
da luta de libertação na Guiné-Bissau e em Cabo Verde, considera que muito
"foi inventado" para não se encontrarem os responsáveis pela morte de
Amílcar Cabral.
"Há causas e há pretextos e há gente que inventou
pretextos para não se responsabilizar pela sua morte", afirmou Pedro Pires
em entrevista à Agência Lusa sobre o assassínio de Amílcar Cabral, a 20 de
Janeiro de 1973, na Guiné-Conacri.
"O crime beneficiou a quem?", questiona-se
Pedro Pires sobre a morte do principal impulsionador da guerra de libertação na
então Guiné portuguesa.
"Não foram contradições internas no seio do PAIGC que estiveram na génese da morte de Cabral, como alguns pretendem fazer crer", acrescenta, contrariando algumas teses sobre a matéria que ainda hoje desperta acesa discussão tanto na Guiné como em Cabo Verde.
"Não foram contradições internas no seio do PAIGC que estiveram na génese da morte de Cabral, como alguns pretendem fazer crer", acrescenta, contrariando algumas teses sobre a matéria que ainda hoje desperta acesa discussão tanto na Guiné como em Cabo Verde.
Segundo o Presidente, "houve muitas tentativas de
matar Cabral e todas falharam até 20 de Janeiro de 1973", na capital da
Guiné- Conacri.
"Depois de falhar no assalto a Conacri (a Operação Mar Verde, protagonizada pelo exército português), depois de falhar a tentativa de dividir o PAIGC dentro da Guiné, havia que atacar o lado mais fraco, que era a República da Guiné. E a razão está exactamente aí", entende Pedro Pires.
"Depois de falhar no assalto a Conacri (a Operação Mar Verde, protagonizada pelo exército português), depois de falhar a tentativa de dividir o PAIGC dentro da Guiné, havia que atacar o lado mais fraco, que era a República da Guiné. E a razão está exactamente aí", entende Pedro Pires.
Numa guerra "não há bons inimigos e maus
inimigos", há apenas "o" inimigo "e ponto final",
prosseguiu, adiantando que "o inimigo está sempre interessado em
ganhar" e, na época, "o inimigo" era o exército colonial
português.
No PAIGC, insiste, "houve sempre o respeito pela
dignidade do homem, logo também do inimigo, e muitos, no PAIGC não entendem até
hoje essa linha de conduta. É neste contexto que se deve analisar a morte de
Cabral, sempre no contexto de uma guerra".
"A
Guiné era o palco da luta mais avançada nas ex-colónias portuguesas, era preciso
travá-la, e apareceu como método para isso, para travar esse avanço na luta,
cortar a cabeça ao seu pilar mais forte", o líder histórico do PAIGC,
Amílcar Cabral.
Profundo
conhecedor do processo histórico da independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde,
Pedro Pires, fala ainda sobre a importância do pensamento de Amílcar Cabral
para a resolução dos principais problemas nos dois países.
"Na
abordagem que Cabral faz da luta de libertação nacional, há muito de útil para
Cabo Verde e para a Guiné-Bissau, mas também para a África no seu todo",
adianta, lembrando, no entanto, que, como o próprio dizia, "era preciso
ter em conta a forma de aplicar as ideias, porque a realidade varia na
geografia e no tempo".
"Nenhum
pensamento pode abarcar toda a realidade e não há ideias puras, as ideias são
sempre enriquecidas com a prática e a experiência individual e colectiva",
insiste.
Sobre
os processos de evolução em Cabo Verde e Guiné-Bissau - o primeiro com índices
de desenvolvimento considerados exemplares e uma democracia sólida, ao
contrário do segundo, marcado por sucessivos golpes de Estado - Pedro Pires
mostra-se prudente, indicando que não quer "correr o risco de ser mal
interpretado".
Mas,
admite: "é uma matéria que deve ser discutida para se encontrarem as
causas", nomeadamente nos escritos de Cabral, "onde existem várias
referências para as razões que levaram a que os processos fossem tão díspares
nos dois países".
É "um desafio estimulante procurar
trabalhar por essa via, encontrar as causas e as razões que levaram a que os
dois países, que têm Cabral como grande referência, tivessem e tenham
realidades tão distintas".
E
deixa a promessa: "Antes da minha morte, gostaria que muitas coisas
ficassem clarificadas e vou fazê-lo".
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