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5 de março de 2012

406-A morte de Nuno Tristão


«O Chefe de Posto António Baptista Morais Trigo enviou-nos para apreciação uma curiosa lenda que acaba de recolher entre os nalús de Cacine, e que também corre entre os de Boqué, no território francês por onde passa o rio Nuno.
Essa lenda, que os indígenas dizem vir-se transmitindo de pais para filhos através de muitas gerações, narra a chegada de uma caravela portuguesa ao rio Nancheribá e os sucessos que aí ocorreram e explica a razão da mudança de denominação do rio para Nuno.
O chefe de posto Morais Trigo entende ser essa lenda motivo sufi­ciente para demonstrar que Nuno Tristão foi morto no Noncheribá.
Em nosso juízo parece-nos o assunto bem mais complexo. Se algum dia o pudermos fazer, investigaremos no local o que os indígenas dizem de modo a discernir o grau de crédito que tal lenda merece. Podia, por exemplo, ter sucedido que ela se formasse muito depois dos acontecimen­tos e em consequência da influência dos civilizados, facto que, a dar-se, não seria único.
De qualquer maneira, a dar inteiro crédito à narração indígena, ela não vem provar que Nuno Tristão atingiu o Nancheribá. O próprio chefe de posto Morais Trigo nos confessou que os nalús não falam em Nuno Tristão, mas simplesmente, em Nuno, e que a identificação com aquele navegador é ilacção sua. Por isso, e por serem complementarmente diver­gentes dos de Zurara os pormenores do que se passo no rio, seria mais lógico deduzir que se traia de um navegador diferente, possivelmente com o nome de Nuno também, como já aventámos no nosso trabalho publicado no primeiro número deste «Boletim». Seria portanto esse i.gno­rodo Nuno quem teria descoberto o Noncheribâ, encarregando-se depois a lenda de confundir a sua morte com a de Nuno Tristão.
Dado, porém, o seu evidente interesse, publica-se seguidamente o escrito do chefe de posto Morais Trigo.
A. TEIXEIRA DA MOTA.

Lemos com grande interesse no «Boletim Cultural da Guiné Portu­guesa» um trabalho largamente documentado da autoria do senhor Te­nente Avelino Teixeira da Mota [ver aqui], em que o digno investigador esclarece de modo impecável que Nuno Tristão não podia ter terminado os seus dias no rio Nuno nem nas suas proximidades.
Nós somos alheios às artes de navegar nem podemos consultar doutos tratadistas e modernos compêndios. Não é portanto nossa intenção ofuscar tão exaustivo estudo. Apresento, assim, este trabalho com singeleza e des­pretensão, desejando somente que a morte do grande navegador, do herói magnífico, do palpitante marinheiro e do audacioso português seja dis­cutida por quem tenha competência.
É certo que não temos documentos escritos de peso e parece-nos também que os cronistas e escritores posteriores tiveram carência de elementos relativos ao facto. Por isso surgiram opiniões e controvérsias, e finalmente se pretende negar o que cinco séculos de história e de tra­dição disseram ao pais e ao mundo, isto é, que Nuno Tristão foi morto pelos nalús no rio «Nancheribá» - depois rio Nuno.
Nós, por enquanto, aderimos espontaneamente à tradição ininterrupta de pais para filhos, fonte de história digna de fé, com cinco séculos de existência. A tradição é a voz do povo e esta é a voz de Deus: «voz populi, vox dei». Por ela me guio e ela me basta. Conhecendo-a, acho-a suficiente para escrever algumas palavras incultas, a fim de transmitir aos leitores o remexer sagaz e fecundo da acção de um povo. Este trans­mite a verdade. Não vem nos livros, porque podem estar mal feitos, por motivos vários; não vem nos mapas, porque podem também estar errados por razões idênticas; mas encontra-se em cinco ou seis gerações, nas quais não houve indisposições nem deturpações dos cronistas, que tantas vezes aumentavam ou diminuíam 'os acontecimentos a seu talante por causas estranhas. A tribo nalú não sabia escrever e ainda hoje poucos o sabem fazer; por isso não pode ter sido influenciada por escritos de qualquer natureza ou nacionalidade. No entanto, exige a lógica das coisas, que as suas palavras narrativas não fiquem vibrando no ar sem se transforma­rem em escrita. E, de resto, as suas afirmações não são intermitentes.
O que dizem os indígenas nalús, que hoje respeitam a bandeira por­tuguesa e a francesa? Simplesmente o seguinte:
A caravela de Nuno Tristão, vinda do mar, entrou no rio Nanche­ribá e encalhou pouco depois perto da povoação de Tassequene; o intré­pido navegador, com alguns tripulantes, entrou no batel, continuou a na­vegar no rio referido, e bastante mais acima sentiu falar na margem esquerda, vendo gente momentos depois. Como havia um riacho de cerca de duzentos ou trezentos metros de comprido nesse local, entrou nele e foi até ao lugar, porto da povoação de Sógóboli, termo derivado da pala­vra nalú «insóbole» que significa cobra grande e muito venenosa. A gente, admirada de ver brancos, tinha fugido para a povoação, a qual distava e dista do porto certa de duzentos metros; o caminho estava relativamente limpo como costumavam estar todos os que vão para os portos. Nuno Tristão, com os seus companheiros, seguiu a pé até Sógóboli; os nalús fugiam dele por ser branco, por não o entenderem e por desconfiarem que os brancos queriam levar pretos; apenas os velhos se conservaram na aldeia. Nesse dia nada sucedeu; Nuno Tristão e os seus companheiros regressaram à caravela incólumes. No dia imediato, o audacioso mari­nheiro, com bastantes pessoas, foi novamente ao porto de Sógóboli e à tabanca, enterrou uma bola de chumbo, tendo antes metido no chumbo' não sabem ~ quê, e assentou-se no lugar aonde havia enterrado a bola, conversando com os companheiros. Momentos depois procuravam agarrar indígenas, estes fugiam, os navegadores teimavam em querê-los agarrar, e como se não entendiam por palavras começou o barulho; por último já queriam os brancos correr para o porto, tomar o batel e recolher ao navio, mas era tarde pois estavam feridos e alguns mortos, em conse­quência das azagaias, lanças, punhais, etc., estarem envenenados com sucos herbáticos e veneno da cabeça de réptis malignos (ex.: da cobra «insó­bole», que abunda naquela região). Os nalús continuaram a luta, quando estavam a entrar no bote e enquanto seguiam na direcção da caravela. De entre os mortos de terra, figurava Nuno Tristão, que foi sepul­tado próximo de um «poilão», onde nos revelaram que, ocultamente, faziam a cerimónia do Machol,
Quem seria o assassino do grande português? Foi um homem nalú de nome Samane, filho do chefe da povoação de Sógóboli. Dias depois dessa carnificina, o assassino foi nomeado chefe da aldeia e passou a chamar-se Samane-Mandapilon, que significa dono do Dapilom; Dapilom é palavra nalú, cujo significado é brilhante.
Assim a povoação de Sógóboli passou a designar-se por Dapilom; ainda hoje existe no mesmo lugar e continua a ser habitada por nalús descendentes dos assassinos de Nuno Tristão e dos seus companheiros.
E por nas proximidades do rio Nancheribá ter sido morto e sepul­tado esse Português de rija têmpera, o rio em causa começou a ser de­signado pelos indígenas pelo nome de Nuno.
Pelo exposto, concluímos que, de facto, o herói em foco foi morto pelos nalús na povoação de Sógóboli, hoje Dapilom, bem perto do rio Nan­cheribá e presentemente chamado Nuno pelos indígenas e civilizados. 
António Baptista Morais Trigo, Chefe de Posto, interino


Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Volume II, Nº 5, 1947


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