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2 de outubro de 2011

269-A guerra de Geba II

Em "A guerra de Geba I" (aqui) há uma descrição genérica, com datas e alguns factos, sobre a guerra feita pelas forças portuguesas do presídio de Geba contra as rebeliões nas zonas de Bafatá e do Gabú. Como diz aqui Avelino Teixeira da Mota, era o local mais avançado das forças colonizadoras no último quartel do século XIX. E ele apresenta aqui o relatório do homem que comandou aí as operações contra a não aceitação do domínio português: o capitão Sousa Lage.

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5 de julho de 2011

215-A guerra de Geba I


 Os “presídios”, praças de pequenas dimensões e escassos meios defensivos, constituíam organizações administrativas no interior da Guiné durante o período colonial anterior ao século XX. Tal como Farim, Ziguinchor e Rio Nuno, Geba tinha um presídio. Também aqui, como em Bissau, não foi fácil a implantação do domínio colonial. Já vimos como foi em Bissau (ver aqui). Vejamos agora como conta João Basso Marques o que foi A GUERRA DE GEBA (no Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, nº 001-004, 1946, não em livro, como vi algures):

«Por toda a Colónia grassavam as discórdias entre indígenas, que nem sempre acatavam a política adoptada, de meios brandos, suasórios e conciliadores.
Aqui, as questões, sempre crescentes, entre os fulas dos territórios de Joladú e Ganadú, vizinhos do presídio de Geba; acolá, a pre­meditada revolta de Mamadú Paté, de Bolola -um dos régulos do «For­reá» - acolitado por um dos seus «grandes», Mamadú Yeró, de que resultou a sua morte, depois de ter tentado, por meio de falsa conferência com O Comandante da praça de Buba, aprisionar e matar o enviado deste, alferes Moreira do Carmo; mais além, as desavenças dos povos de Antula e Intim, que mais tarde originariam uma campanha em Bissau:
No território de Geba, com o fim de demonstração do poderio e força do Governo, haviam-se já efectuado algumas campanhas - a última no período decorrido de Agosto a Setembro de 1889 - todas infrutíferas porém.
Agora, em virtude da invasão e assalto à mão armada, praticada pelo súbdito francês, Mussá Moló, chefe de guerra do senhor do chão de Fuladá - o rei Dembel- o qual, capitaneando forças consideráveis, invadiu os nossos territórios de San Cariá e Cariá, sitos entre Farim e Geba; e ainda às extorsões feitas pelo salteador Mali Boiá e aos ataques dos fulas pretos de Joladú e Ganadú (sob o comando do mesmo Boiá) aos mandingas e beafadas da ponta de Sambel-Nhantá, o major Augusto Rogério Gonçalves dos Santos, Governador da Colónia ao tempo, de­cretou o estado de guerra nos territórios da Circunscrição de Geba, nos termos de uma portaria régia de 1864.
Ia já adiantado o espírito de revolta. Mali Boiá de há muito se havia constituído em manifesta rebelião contra as determinações do Governo, praticando actos em oposição às leis e atacando povoações pacíficas.
Esses ataques consubstanciavam o seu intuito de se apoderar da margem direita do rio Geba, para melhor desferir o que pretendia con­tra a praça. Para esse efeito, com auxílio dos régulos de Chime, Badora, Corubal e Guerat, gente do Mussá e do Paté-Coiade, atacando, fazia os possíveis para expulsar daquela zona o régulo escolhido pelo Governo e pela maioria do povo, Sambem Serandim, e as famílias fieis, de man­dingas e beafadas, que residiam na já falada ponta de SambeI Nhantá.
Por outro lado, a revolta alastrava, por isso que, não obstante os vários arrolamentos minuciosos feitos às armas e munições existentes, alguns comerciantes indignos vendiam pólvora e munições aos mandingas de Bambadinca, que, em canoas de «poilão», as levavam depois aos rebeldes, aumentando assim a sua resistência.
Estes factos traziam as populações ordeiras sobreexcitadas, prejudi­cavam o comércio e constituíam risco grave para as embarcações que se empregavam no tráfego do rio.
Justificava-se, pois, o estado de guerra declarado e acção do Governo para pôr cobro a tais desmandos.
Às tropas existentes no presídio, constituídas por dois subalternos e cento e dez praças de pré, de caçadores 1 e da bateria de artilharia na Colónia destacada, se juntaram outras enviadas de Bissau.
O comando das forças em campanha foi cometido ao capitão Zaca­rias de Sousa Lage.Empregou-se o melhor material bélico existente na Colónia para lá se mandando a metralhadora «Nordenfeeld», as espoletas de granadas que acabavam de chegar, e as diversas armas Enfield existentes no depó­sito de material.Para protecção da coluna e do tráfego no rio seguiram as lanchas canhoneiras «Ave», «Flecha» e «Zagaia», respectivamente do comando dos primeiros tenentes Sena Barcelos e Santos Nunes e do segundo te­nente Álvaro Herculano da Cunha.
Dirigiram-se os primeiros ataques contra as tabancas dos territórios de Chime, Juladú e Ganadú, até chegar ao maior, efectuado em Caran­tabá.
Foi de facto este o ataque mais violento, nele se registando actos de heroísmo diversos: o cidadão Domingos de Araújo, conhecido pela «Man­camá», depois de ferido mortalmente, incitava os auxiliares, seus com­panheiros. a não abandonarem o ataque, dando-lhes assim, o exemplo da sua coragem, denodo, valentia e amor pátrio: o 1.0 tenente de bateria de artilharia, Jorge de Lucena, segundo comandante das forças em campa­nha, mesmo ferido mantinha-se em combate; o médico Sant'Ana Álvares exercia debaixo do, fogo a sua espinhosa missão; os sargentos Barros Cardoso e António Maria dos Santos, ambos feridos em combate­tendo o segundo ficado militarmente incapacitado - houveram-se também com energia e valentia louváveis.
O régulo de Ganadú e Galona Dabó, chefe de guerra dos mandingas e beafadas, tão. brilhantemente se houveram nos serviços de campanha que lhes foram ordenados, que assim conseguiram a derrota moral do Mali Boiá.
Diga-se também, prestando justiça à maioria dos comerciantes, o auxílio dado pelos negociantes de Gêba, Francisco Rodrigues e Joaquim da Costa, que, fechando os seus estabelecimentos com manifesto pre­juizo dos seus interesses e colocando-se à ordem do comando, arriscaram as suas vidas sob fogo intenso.
Os comerciantes estrangeiros, da firma Blanchard & Companhia e Otto Schacht, cederam também as suas embarcações para transporte de tropas e material d.e guerra.
Após o ataque e destruição das moranças de Batanjá, Gebará, Col­lufi e muitas outras, castigos que se infligiram aos rebeldes, muitos dos seus chefes se apresentaram solicitando perdão com deposição de armas.
Dirigiram-se os primeiros ataques contra as tabancas dos territórios de Chime, Juladú e Ganadú, até chegar ao maior, efectuado em Caran­tabá.
Foi de facto este o ataque mais violento, nele se registando actos de heroísmo diversos: o cidadão Domingos de Araújo, conhecido pela «Man­camá», depois de ferido mortalmente, incitava os auxiliares, seus com­panheiros. a não abandonarem o ataque, dando-lhes assim, o exemplo da sua coragem, denodo, valentia e amor pátrio: o 1.º tenente de bateria de artilharia, Jorge de Lucena, segundo comandante das forças em campa­nha, mesmo ferido mantinha-se em combate; o médico Sant'Ana Álvares exercia debaixo do fogo a sua espinhosa missão; os sargentos Barros Cardoso e António Maria dos Santos, ambos feridos em combate­, tendo o segundo ficado militarmente incapacitado - houveram-se também com energia e valentia louváveis.
O régulo de Ganadú e Galona Dabó, chefe de guerra dos mandingas e beafadas, tão brilhantemente se houveram nos serviços de campanha que lhes foram ordenados, que assim conseguiram a derrota moral do Mali Boiá.
Diga-se também, prestando justiça à maioria dos comerciantes, o auxílio dado pelos negociantes de Geba, Francisco Rodrigues e Joaquim da Costa, que, fechando os seus estabelecimentos com manifesto pre­juizo dos seus interesses e colocando-se à ordem do comando, arriscaram as suas vidas sob fogo intenso.
Os comerciantes estrangeiros, da firma Blanchard & Companhia e Otto Schacht, cederam também as suas embarcações para transporte de tropas e material de guerra.
Após o ataque e destruição das moranças de Batanjá, Gebará, Col­lufi e muitas outras, castigos que se infligiram aos rebeldes, muitos dos seus chefes se apresentaram solicitando perdão com deposição de armas.
Conseguira-se assim arredar para mais longe o perigo e desassossego. Entretanto, ainda que mais distante, a revolta mantinha-se.
Decorria já o ano de 1891, e a campanha que se iniciara em Dezem­bro do  ano anterior, devido à época das chuvas e a questão mais instante, em Bissau, embora não resolvesse a paz nem a completa obediência dos indígenas revoltados, houve que ser suspensa.
Realmente, em Bissau, já mesmo muito antes do início das hostili­dades em Geba, coisa grave andava no ar.
Em meados do ano de 1890 guerreavam-se, entre si, os papeis de Antula e Intim, ajudados aqueles pelos balantas de Nhacra e Cuntanga e estes pelos grumetes da praça de Bissau.
Baldados esforços empregava o Governo, aconselhando-os a que cessassem as hostilidades na guerra cruenta que entre si mantinham as referidas tribos.
Só mais tarde - alguns meses depois - o governo conseguiu os seus intuitos, através do juramento de obediência prestado pelo régulo de Antula.
Revoltado continuava ainda o gentio de Intim, cujo régulo Cumeré, despeitado pela atitude do de Antula e secundado pelos de Bandim, Bór e Enterramento, a todo momento mostrava o seu desrespeito pela auto­ridade, chegando em certa altura, armado com espingardas e pedras, ele e os seus homens, a apedrejarem polícias da praça e tentar aprisionar, para assassinar, o comandante e dois oficiais que passeavam na praça dos grumetes.
Que nisso se houve com culpa o comandante da praça, tenente-coro­nel da guarnição de Angola Pedro Moreira da Fonseca, assim se de­monstrou; acarretando-lhe tal facto a sua demissão do comando e uma censura no Boletim Oficial.
Contudo as provocações não acabavam. Agora os íncolas da praça estavam em permanente sobressalto. Os papéis de Intim, secundados pelos de Antula, que se tomaram perjuros, e escudados pelos grumetes que constituíam a sua guarda avançada na praça, matavam a tiro os sol­dados que guarneciam os baluartes da sua fortaleza.
Por força do prestígio do Governo, tão ofendido, e para mantença do ascendente moral sobre os indígenas, iniciou-se então a campanha de Bissau.
Fora ela que, conjuntamente com a impraticabilidade das operações devida à época das chuvas, motivou a suspensão da Guerra de Geba.
Como atrás se disse: arredou-se para mais longe o desassossego que os revoltosos criavam, mas não se conseguiu desbaratá-los.
Ainda que na região do presídio lavrasse paz absoluta, um pouco distante, na região vizinha de Mancarosse, os agentes de Mussá Moló faziam das suas prendendo o régulo Cambel, que depois fugiu, e matando outros que recalcitravam perante os seus abusos.
Todavia, a Guerra de Geba não deixou de constituir jornada glo­riosa da nossa penetração colonial, precursora das outras que mais tarde - em 1915 - conseguindo a pacificação dos povos da Guiné, imortali­zaram o nome do denodado e heróico cabo de Guerra, Teixeira Pinto.»
ALGUMAS DATAS (significativas das dificuldades encontradas na região do presídio de Geba):
24-VII-1843Manuel José Semedo, comandante do presídio de Geba, consegue do régulo de Badora, Mamadú Sanhá, a cedência do território de Ganjarra. 
25-V-1853Depois de ter conseguido dominar a insubordinação dos moradores do presídio de Geba, Honório Barreto regressa à Praça de Bissau acompanhado dos grandes daquele território que vinham prestar acto de obediência.
25-IX-1865 O régulo futa-fula Tudé Mussá, vencido pelos fulas, refugiou se no presídio de Geba. Avisa­ram os Fulas que entrariam nele pela força para resgatar o chefe inimigo. Porque o dever de leal­dade o obrigava a defender quem procurava pro­tecção na bandeira portuguesa, decidiu o coman­dante do presídio recusar tal proposta. No assalto que os fulas fizeram ao presídio foram rechaçados.
1-XI-1865 - O gentio de Geba ataca a praça, sendo rechaçado e pedindo a paz. O comandante do Presídio, 2º tenente de artilharia Manuel José da Silva, foi promovido por distinção ao posto imediato, por decreto de 9 de Junho de 1866, pelos relevantes serviços prestados nesta guerra.
20-XII-1880 -Foi marcada a data em que o régulo de Ganadú [zona de Geba] deveria prestar termo de juramento e obediência à bandeira nacional segundo os preceitos do seu rito.
3-VIII-1885Louvados o capitão Caetano Alberto da Costa Pessoa e o tenente Joaquim António do Carmo Azevedo, por terem restabelecido a tranquilidade no presídio de Geba e mantido o prestígio da autoridade em relação aos gentios que se lhes mostraram hostis.
6-VIII-1886Louvado o tenente Francisco A. Marques Geral­des, chefe do presídio de Geba e o alferes Manuel do Amaral Carvalho Vieira pela maneira como castigaram o chefe de guerra dos fulas pretos, Mussa Moló, tomando-lhe dez tabancas.
21-IX-1886Saiu do presídio de Geba à frente de uma expe­dição composta de 4.500 homens, sendo 80 praças de caçadores, 2 oficiais, 2 peças com os respectivos serventes e o resto constituído por auxiliares, o tenente Francisco Marques Geraldes, com o fim de bater as forças do Mussá Molo, no território de Sam Corlá [zona de Geba].
17-VII-1889O régulo de Ganadú, de nome Corrai, fez procla­mações de desobediência ao Governo convidando os seus povos à revolta. O governador Correia e Lança tomou medidas rápidas e enérgicas para enfrentar os acontecimentos. Organizada urna coluna de operações foram batidos os rebeldes e preso o régulo.
2-XII-1890Constituída uma coluna de operações contra Mali Boia, residente na circunscrição do presídio de Geba, sendo nomeado comandante o capitão Za­carias de Sousa Lage e 2.º comandante o tenente António Jorge Lucena.
9-III-1891Suspensas as operações militares na circunscrição do presídio de Geba e mandados recolher a Bissau três oficiais, dois oficiais inferiores e 160 cabos e soldados.
28-IV-1891Louvados pelas operações militares de Geba os comandantes das lanchas-canhoneiras «Flecha» e «Zagaia», l.º tenente Filipe dos Santos Nunes e 2º tenente Alvaro Herculano da Cunha. Louvado o capitão Zacarias de Sousa Lage pelos relevan­tes serviços no presídio de Geba como chefe e comandante da coluna de operações, dando inequí­vocas e sobejas provas de coragem, valor e mérito nos ataques que dirigiu às tabancas gentílicas de Joladú, Ganadú, Chime e outras.
28-IV-1891Louvados alguns negociantes do Presídio de Geba e chefes de guerra auxiliares, destacando-se Do­mingos Gomes Araújo (o Mancamá) , pela cora­gem, denodo, valentia e amor pátrio, do que foi vitima no ataque dado a Carantabá em 13-12-1890.
14-V-1891Foi estabelecido em Geba um depósito de incorri­gíveis onde deveriam completar o tempo de serviço que lhes faltasse as praças da guarnição de An­gola mandadas servir na Guiné por terem sido condenadas como desertores ou incorrigíveis.
20-I-1892Foi declarado em estado de guerra o Presídio de Geba e sua circunscrição, suspensas as garantias dos seus habitantes e considerados rebeldes todos os povos da mesma região que se reuniram ao chefe de guerra do rei Dembel de Firdú, Mussá Molô.
22-I-1892Constituída a coluna de operações de Geba contra Mussá Molô. Nomeado seu comandante o capitão Carlos Augusto de Almeida Saraiva, que faleceu dias depois, sendo substituído pelo capitão Zaca­rias de Sousa Lage.
2-III-1892Auto de vassalagem do régulo de Cabomba, Dembá Methá, de Geba.
10-III-1892Vitória das nossas forças comandadas pelo capitão de caçadores Sousa Lage sobre os rebeldes da cir­cunscrição de Geba, coroada pela entrada da coluna de operações em Gussará-Dandum, aldeia indígena fortificada considerada até então inexpugnável.
24-III-1892 Louvado o guarda marinha Joaquim Pedro Vieira Júdice Biker, comandante da lancha-canhoneira «Zagaia» pelos serviços prestados em apoio à coluna de operações  militares de Geba. Louvado o capitão Zacarias de Sousa Lage, pela maneira como diri­giu a coluna de operações militares em Geba, obri­gando os rebeldes a abandonarem a sua mais forte tabanca de guerra, Gussará Dandum, onde a coluna teve de sustentar aturada fuzilaria com o inimigo, durante 18 horas nos dias 10 e 11 de  Março.
24-III-1892Foi considerada pacificada a região de Geba pela derrota de Mussá Molô.
28-VIII-1892Foi celebrado no presídio de Geba, em presença das autoridades, o auto de vassalagem do régulo de Gabú e Forreá Mamadú Paté, que ali se apre­sentou acompanhado dos seus conselheiros.
20-I-1893Tenente Aníbal Augusto da Silva Machado Gomes louvado pela forma como desempenhou a comis­são que lhe foi incumbida de fazer a travessia de Farim a Geba com uma força militar e por ter feito o levantamento da carta dos terrenos que atravessou.
27-III-1893Auto de vassalagem do régulo de Chime, Béllar Bandi.
20-V-1903Embarcou para Lisboa a força expedicionária europeia enviada da Metrópole para submeter os rebeldes de Geba e de Bissau. Ficou na colónia a Companhia de Macuas de Moçambique.
21-XI-1907 Constituída a coluna de operações na circunscrição de Geba.
1-XII-1907A coluna de operações organizada pelo governa­dor Muzanty cai sobre a povoação fortificada de Campampe, desbarata os rebeldes partidários de lnfali Soncó, mata o régulo Dembage e estabelece as comunicações com Bambadinca.

2 de junho de 2011

191-A PIDE andava por lá

Os primeiros-sargentos, da anterior e da actual, já estavam a falar ao pé da secretaria. Esta tinha uma sala com duas secretárias e um cubículo anexo onde era a casa de banho. A outra casa tinha dois quartos e uma casa de banho também. Nas traseiras das duas, um pequeno descampado, separado de umas palhotas com arame farpado.
“Neste quarto aqui fico eu”, disse o capitão, “Naquele ficam vocês os dois.”
 A casa não tinham janelas, só portas com uma paliçada em frente.
“É para não entrar nada pelas janelas, sabe-se lá…”, explicou o Braga, e convidou, depois de arrumadas as coisas de cada um:
“Vamos ali ao bar beber um copo.”
Já tardava. Disto é que ele sabia muito, era perito. E aprendi muito com ele, é verdade. Aos fins-de-semana, depois da instrução da companhia, dava-me boleia até Lisboa no seu Alfa Romeo e tive grandes noitadas na Cave, no Comodoro, na Taverna Imperial, bebidas, mulheres…e eu disso sabia pouco ou nada… no seminário não dava, e depois cá fora também não deu.
O bar ficava por trás daquelas casas, era uma barraquita muito pequena coberta de chapa, com um balcãozito que só dava para três.
“Não está cá ninguém. O barista da outra companhia deve estar a preparar-se para ir embora, mas isto agora é nosso. Os primeiros-sargentos estão a tratar. Whisky simples ou com água?”
“Com água”, disseram os alferes.
“Então estão aqui as perriers, é melhor que a castelo.”
Ficaram a conhecer as garrafinhas verdes da  água perrier. O capitão foi bebendo e falando.
“Quando chegarem os dos destacamentos estes gajos vão-se embora. Temos de montar guardas lá em cima no quartel e aqui em baixo. O primeiro-sargento há-de fazer as escalas. Você, Aiveca, amanhã vai comigo até à sede do batalhão, tenho de falar com o tenente-coronel.”
“Tá bem, vou avisar os furriéis”
“Não é preciso, é aqui a trinta quilómetros.”
“Sozinhos?!”
“Não há problemas, vamos só nós.”
Este sacana quando bebe passa-se dos carretos, pensei eu, mas não disse nada. Fomos, depois, para os quartos.
“Belas camas”, e assentei-me.
“ É como as mulheres, quando estamos à rasca qualquer uma serve”, e o Zé Pedro esticou-se ao comprido.
“Não é bem assim.”
“ Ai não, não é, ó filho, não percebes nada.”
“Talvez não.”
“ Mas ouve lá, vocês são malucos, irem-se meter por aí sozinhos, é arriscado.”
“O que é que queres, o gajo é que manda". Virei-me para o lado, não deu para mais conversa. O cansaço e o whisky venceram.
Parecia-me que tinha acabado de me deitar, que ainda era noite. Mas não, já era dia quando a porta se abriu e o capitão nos acordou.
“Temos de ir embora, Aiveca. Zé Pedro, você fica a mandar nisto, vá ver se está tudo bem no quartel e se o primeiro pôs a secretaria a funcionar, veja se está tudo nos conformes e a andar. Nós só voltamos depois do almoço.”
Já estava um jipe pronto, entrámos nele, cada um com a sua G3. O Braga foi a conduzir, passámos por um grupo de palhotas e metêmo-nos à estrada. Não se podia chamar tal, era uma picada muito má, a paisagem já não era novidade, árvores e erva muito alta à volta. A viatura ia aos solavancos.
“Ó capitão, ainda não percebi porque é que fui eu que fiquei na sede da companhia e não o Aprígio ou o Castro, acho que eles são mais capazes do que eu para aquilo.”
“É pá, para o que eu quero e é preciso não são, não é nenhum deles. O Castro é um bocado emproado e senhor do seu nariz, tenho receio que disparate coisas que eu não quero, o Aprígio é demasiado calmo, um bocado mosca morta, também não dá.”
“Mas eu não sou muito diferente deles, em certos aspectos.”
“É pá, mas eu já te conheço bem, deu para isso nas nossas andanças pelos bares de Lisboa… és um bocado nabo com as mulheres, mas isso para aqui não interessa nada. Eu tenho de ter alguém em que possa confiar plenamente para me dar segurança.”
“Mas eu acho que quer o Aprígio quer o Castro são seguros e não vão borrar nada.”
“Talvez, mas é em ti que eu tenho mais confiança.”
Foi uma viagem de poeira e buracos mas chegámos, sem problemas, de facto. Em ponto pequeno, mas parecia uma cidade. Fomos dar uma volta, tinha um mercado de paredes castanho avermelhado, algumas casas tipo colonial, outras normais, branco escuro do pó e da soalheira, um complexo com piscina e vista sobre o rio. Não era Lisboa, nada que se parecesse, muitíssimo longe, mas não desgostei. Bom para quem só tinha visto água e mato nos últimos dias.
“Só daqui a meia hora é que tenho que ir falar com o comandante do batalhão, agora vamos ver um amigo que tenho aqui.”
Entrámos num restaurante pequeno.
“Olha o Braga”, exclamou um sujeito pro-gordo e careca que estava atrás do balcão.
“Cá estou de novo, grande Coelho”, e o capitão abraçou-se a ele.
“Outra vez?”
“É, mas agora é diferente, venho comandar uma companhia, este aqui é um dos alferes.”
“Ah, tá bem. Vão uns camarõezitos?”
“Venham eles. O Alberto anda por aí? Queria falar com ele”
“Tá aí, tá. Ó Mamadu”, virou-se para um preto que estava lá,” vai dizer ao senhor Alberto que está aqui o capitão Braga e quer falar com ele”.
“Sim, patrão”.
Apareceu depois um tipo baixo, de bigode e cabelo preto, cara de poucos amigos. Ar um bocado soturno, pareceu-me. Sorriu para o capitão e cumprimentaram-se.
“De novo?”
“Mas não é a mesma coisa”, repetiu o Braga.
“Eu sei”, disse o Alberto e juntou-se nos camarões e na cerveja.
Depois de um copo, lançou, com ar sacaninha:
“O Coelho só tem um tomate, tiveram que lhe cortar um”.
“Tive uma merda qualquer, teve de ser. Mas o meu nome diz tudo, pá, continuo em acção. Nenhuma se queixa, nem a minha mulher”.
Virou a cabeça para trás, um bocado atrapalhado, para ver se estava a mulher ao balcão. E estava, tinha vindo para ver os visitantes. Era baixa, um pouco cheia, de cabelos alourados, cara bonita. Viu-se que pensou alguma coisa, mas não disse nada.
“Olá D. Ester”, cumprimentou o Braga.
“Olá, por cá?”
“É verdade, tem de ser”.
Passou algum tempo e estava quase na meia hora.
“Tenho de ir, depois volto cá para almoçar. O alferes Aiveca fica aqui à minha espera, a não ser que queira ir dar uma volta”.
“Não, já vi o que era de ver”.
“Eu não me vou demorar, com certeza”.
“Eu vou também. O tenente-coronel disse-me que vinhas e pediu-me para ir contigo”.
“Bora, então, Alberto”.
E eu fiquei, agarrado ainda aos camarões e a uma imperial. Estava intrigado sobre quem seria aquele gajo. Não estava fardado… não compreendia por que é que ia também à reunião com o Braga. O Coelho tinha ido para o pé da D. Ester, conversavam baixo. Parecia explicar qualquer coisa, mas ela dava ar de não compreender, cara cerrada, acabou por se ir embora. Ele voltou para a mesa.
“Os camarões estão bons?”
“Muito bons”.
Agarrou-se também a um bicho e deu-lhe para falar.
“Aquele Alberto é um brincalhão, mas tem sido um elemento muito importante contra os turras”.
“De que companhia é ele?”
“Ele não é militar, é o homem da Pide aqui na zona”.
De camarão em riste, olhei para o Coelho.
“O gajo espreme-lhes os tomates, salvo seja, até eles bufarem tudo cá para fora. Limpou o sebo a muitos que não disseram nada”.
Consegui tragar o bicho mas tive de beber meio copo para não me engasgar.
“Tem de ser, senão estes gajos fodiam-nos a todos. Você até tem sorte porque esta zona está mais ou menos bem, noutros sítios é que está mau, além de que aqui é zona dos fulas. Estão connosco, e o seu capitão já conhece isto, já esteve cá antes”.
“Já?”, manifestei-me surpreso, embora já tivesse percebido isso pelas conversas anteriores
“Esteve aqui na polícia há uns anos”.
Uns pretos assomaram à porta.
“Senhor Coelho, patrão, dá licença?”
“Tenho que ir ver o que é que estes nharros[1] querem. O que é, ó pá?”
Mergulhei na cerveja. Este sacana só me disse que tinha estado na polícia em Lisboa, quando era tenente. Que foi mobilizado depois de ser promovido a capitão. Que lhe tinham dito primeiro que ia para Timor, mas que o tinham fodido quando lhe disseram que, afinal, ia para a Guiné. Nunca me disse que já tinha cá estado. Devia estar mesmo fodido, acredito. A situação não é a mesma quando era polícia… e está explicado este à vontade com os pides.
O Braga e o Alberto acabaram por regressar. Era hora de almoço, e a D. Ester já tinha preparado um belo frango de chabéu, uma delícia que, regado com vinho branco fresquinho, eu nunca tinha provado.
“Muito bom!”, exclamei.
“Aqui há pratos bestiais”, disse o capitão, “e a mulher do Coelho é boa cozinheira, havemos de vir cá mais vezes”.
A conversa foi trivial, entre risos e piadas, mulheres, caju, mancarra, bebidas. A D. Ester, ocupada no balcão, não ouvia nada, ou fazia que. Só o Coelho é que derivou, a certa altura.
“Então como estão as coisas?”
O pide e o capitão trocaram olhares e este disse que estava tudo sob controlo.
Novamente no jipe de regresso à companhia, o capitão abriu-se.
“Temos que nos pôr a pau. Os gajos andam lá na nossa zona.”
Até me admirava se não andassem. Estava nas minhas previsões.


[1] Nome depreciativo dado aos pretos

10 de maio de 2011

151-Campanhas para dominar o "gentio" da Guiné - II

Retirado da "História do Exército Português", do General Ferreira Martins, publicada pela Editorial Inquérito, em 1945.

A despeito de todos os esforços e sacrifícios feitos, nos últimos anos do século XIX e primeiros do século XX, para a ocupação definitiva da Guiné, muito longe se estava ainda cm 1910 de conseguir a submissão de todos os guinéus, por sua natureza rebeldes, e de se cumprir, portanto, o encargo imposto pelo Congresso de Berlim[1]. Foi precisamente depois de implantada a República que maior incremento tomou a actividade militar dos portugueses na Guiné.
O primeiro governador da colónia, no novo regime, foi o oficial de Marinha Carlos Pereira[2], que começou por mandar demolir as muralhas de Bissau, como se as considerasse inúteis para continuarem a defender a praça, acto este que surpreendeu o gentio ma não modificou as suas normais atitude de rebelião.
Logo em Fevereiro de 1912 teve esse governador de organizar uma coluna de operações para castigar o gentio revoltado. E a coluna, em que tomaram parte, além de forças regulares da colónia, numerosos voluntários civis, sob o comando do capitão de infantaria Botelho Moniz[3], bateu primeiramente o gentio na região de Binar, passando em seguida para Cacheu, destruindo as povoações de baiotes, que no caminho para Jobel lhe ofereceram resistência, e em 4 de Abril chegava a Elia onde os rebeldes foram severamente castigados. Dirigiu-se depois à povoação do régulo, impondo-lhe a restituição de artigos roubados pelo gentio, o que conseguiu sem o emprego da força, recolhendo a coluna a Bissau com a sua missão cumprida. Passados seis anos, nova rebelião dos baiotes levava a Cacheu, em Outubro de 1918 ,uma pequena coluna, sob o comando do capitão António Douwens, que, travando combate com os rebeldes de Varela e Catão, lhes infligiu numerosas baixas, dirigindo-se em seguida ao posto de Cassolol, onde recebeu durante alguns dias a apresentação dos grandes das povoações castigadas.

A VALOROSA ACTIVIDADE DE TEIXEIRA PINTO[4]

Foi no Oio que mais rudes foram as operações militares con­duzidas pelo capitão Teixeira Pinto desde 1913, e que trouxeram a este bravo oficial o enorme prestígio de que gozou entre o gentio da Guiné. A índole guerreira e o espírito agressivo do gentio de Mansoa e do Oio, manifestando-se persistentemente em ostensiva insub­missão à autoridade portuguesa, levaram o governo da colónia a organizar em Março de 1913 uma coluna de operações para os castigar, confiando o seu comando ao capitão Teixeira Pinto que, chegado da Metrópole em Setembro do ano anterior, tinha, nos cinco meses de­corridos, percorrido o Oio em disfarce de comerciante, e reconhecido assim essa região até então quase total­mente desconhecida dos portugueses.
Composta somente por 400 irregulares indígenas, do régulo, então amigo, Abdul-Injai[5], com uma peça de artilharia, e com a colaboração das lancha Flecha e Zagaia e do administrador de Geba com 80 homens armado, a coluna bateu-se galhardamente com o gen­tio de Mansoa, de 29 de Março a 22 de Abril, e depois com os do Oio, de 14 de Maio a 16 de Junho, instalando os postos militares de Porto Mansoa e de Mansabá, este na região do Oio. Foram sobretudo renhidos os combates de Mansoa e na tabanca de Mansoadi, mas o inimigo (oincas e balantas) acabou por desmoralizar-se, e submeteu-se com­pletamente vencido.
No ano seguinte, é o mesmo valente oficial que, quase só com irregulares de Abdul­-Injai[6] e de Mamadú-Sissé[7], também amigo, vai a Ca­cheu bater o gentio do Xuro, que revoltado tinha chacinado o administrador, alferes Nunes, e parte da tripulação do Cacine.
Depois de marchar oito horas debaixo de fogo a caminho do Xuro, acampou à noite, e no dia seguinte atingiu o local da chacina, donde o gentio tinha já fugido para Bagulho. Aí foi encontrá-lo a coluna, batendo-o completamente e destruindo-lhe a povoação, rigoroso castigo imposto aos rebeldes manjacos e brames.
Passava-se isto em Janeiro de 1914, e logo em Fevereiro os balantas de Braia trucidavam traiçoei­ramente o alferes Manuel Pedro e o seu pelotão de cavalaria (nem os cavalos escaparam aos machetes in­dígenas!), quando, à boa paz, esse oficial se dirigia ao rio Banubi a escolher local para o lançamento de uma ponte. Do comando militar de Mansoa, onde se ouviu o tiroteio, saiu o 2.° sargento Romualdo Lopes com uma força que, no trajecto para o local donde vinha o rumor, encontrou duas praças do pelotão, escapadas à chacina, que o informaram do que se passava. O sargento continuou a marcha no intuito de recolher os cadáveres dos camaradas, mas ainda ali encontrou os rebeldes que o atacaram, conseguindo pô-los em fuga depois de vivo tiroteio.
Foi ainda o capitão Teixeira Pinto o encarregado de vingar os desditosos camaradas trucidados. E mais uma vez, ele cumpriu briosamente a sua missão, numa demorada campanha de seis meses , em que lutou implacavelmente com o inimigo infligindo-lhe uma série de derrotas  sucessivas com enormes perdas, arrasando povoações, destruindo-lhe as tabancas em que punha as maiores esperanças de resistência, enfim, terminando essas operações com a pacificação definitiva de toda a re­gião balanta entre Mansoa e Geba.
Crescia o prestígio de Teixeira Pinto, que o governo da colónia aproveitou para em 1915 submeter definitivamente os papeis e gru­metes da ilha de Bissau que, sempre rebeldes em acatar a autoridade portuguesa, nem consentiam o arro­lamento das suas palhotas, nem se sujeitavam ao pagamento do im­posto.
Umn numerosa coluna, em que ainda os irregulares tinham a maioria (1.500, dos quais 200 cavaleiros), sob o comando daquele valo­roso oficial, travou com o gentio rebelde os renhidos combates de Intim e Bandim, cujas posi­ções foram tomadas, depois de um bombardeamento de artilharia lançado da praça. E logo, na sua vertiginosa marcha, Teixeira Pinto ataca Antula, Jaal e Safin, lutando sempre com a inaudita resistência do gentio, que frequentemente contra-ataca.
No combate de Safin o bravo capitão é ferido e recolhe à praça de Bissau. Mas a coluna aproveita do seu vigoroso impulso, e, sob o comando do tenente Sousa Guerra, continua o avanço e toma de assalto outras posições do gentio.
Regressa Teixeira Pinto ainda convalescente, retoma o comando, e prossegue tomando novas povoações. Combate na tabanca do Biombo onde "se livra providencialmente de um ataque traiçoeiro que lhe fora armado." E finalmente, depois de dois meses de operações, em que as forças de Teixeira Pinto tinham sofrido 47 mortos e 202 feridos, podia o glorioso capitão juntar mais uma vitória à já notável lista dos seus feitos: a ilha de Bissau estava submetida de vez à soberania portuguesa.
As operações de Teixeira Pinto, na Guiné, são um exemplo flagrante do muito que se pode conseguir do serviço dos irregulares das colónias, quando bem comandados, e melhor ainda, naturalmente, das tropas regulares indígenas, sem recorrer às dispendiosas expedições militares da metrópole.
Em 1919 Abdul-Injai, elevado a régulo do Oio em recompensa do relevante serviços que tinha prestado aos portugueses com a sua gente de guerra, nas campanhas de Teixeira Pinto, abusa da sua autoridade, exigindo trabalho e multas aos chefes indígenas das povoações limítrofes do seu regulado, e acaba por se apoderar violentamente das armas que a administração tinha distribuído aos indígenas de Cuhor. Sucedem-se os abusos do autoritário e prestigioso régulo, até que o Governo da colónia, deixando de tomar em conta os seus serviços passados, o trata como inimigo, como agora merecia, e resolve atacá-lo.
Uma coluna de polícia sob o comando do capitão Augusto de Lima Junior, depois de vivo combate em 3 de Agosto, conseguia apoderar-se de Abdul-lnjai e dos seus grandes, que no desterro, em Cabo Verde, sofreram a punição da sua deslealdade.
Custara-nos, no entanto, a sua prisão a vida do alferes Afonso Figueira e de 9 praças caídas em combate. Eram mais dez vítimas - desta vez, brancos portugueses - a acrescentar às muitas que o famoso Abdul-Injai sacrificou à sua ferocidade, quando, ainda como amigo, punha a sua bravura e o seu prestígio ao serviço de Teixeira Pinto, de quem fora, na verdade, o mais prestimoso auxiliar.
Depois das gloriosas campanhas do intrépido Teixeira Pinto, apenas restava por dominar na Guiné a ilha de Canhabaque[8].
As operações de 1917, comandadas pelo major Ivo Ferreira, contra o gentio revoltado dessa ilha, duraram oito meses em permanente luta[9], sendo tomadas ao inimigo as tabancas principais[10], e consagrando-se a vitória com a instalação de dois postos em Bine e ln-Orei, e com a assinatura de um auto de submissão, assinatura platónica, submissão apenas aparente, porque os actos de rebeldia e de banditismo continuaram. A tal ponto que em 1925 o novo governador, Velez Caroço[11], se viu forçado a realizar novas operações na ilha, onde travou combates, des­truiu povoações, apreendeu armas e munições, parecendo que o castigo tinha sido desta vez mais duro e porventura mais duradouro nos seus efeitos. Pura ilusão! A derrota dos canha­baques fora ainda desta vez efémera, e em 1933 um relatório do director dos serviços e negó­cios indígenas da Guiné acentuava que o novo governador, Carvalho Viegas[12], se veria "nova­mente a braços com o célebre problema, que é uma mancha de desprestígio para o nosso domínio militar e coloniaL"
Foi este governador que, comandando pessoalmente as operações realizadas em 1935-36 (operações cuja descrição não tem aqui cabimento porque a sua época excede o limite imposto a esta obra) conseguiu dominar definitivamente os canhabaques, domínio garantido por factos até então não verificados na ilha, e que demonstram o “perfeito reconhecimento da soberania nacional e respeito por ela."
Justo é registar esta valorosa acção do governador Carvalho Viegas, porque, não só a sua campanha de Canhabaque acabou de pacificar toda a Guiné, como "escreveu honrosamente a palavra Fim em matéria de ocupação das colónias portuguesas," na frase justa e feliz do Dr. Fernando Emídio da Silva, numa sua notável conferência na Sociedade de Geografia de Lisboa.




[1] A Conferência de Berlim de 1885 exigiu que só havia soberania nas colónias desde que estas fossem ocupadas militarmente. Em Dezembro de 1911 os alemães manifestaram novamente interesse nas colónias portugesas chegando mesmo, em Agosto de 1913, a um acordo com os ingleses para a divisão das colónias portuguesas. Esse acordo só não foi assinado e implementado porque surgiu a  I guerra mundial (nota minha)
[2] 1º tenente da Marinha Carlos de Almeida Pereira, governador da Guiné de 23 de Outubro de 1910 a Agosto de 1913 (nota minha)
[3] José Carlos Botelho Moniz, pai do general Júlio Botelho Moniz, que tentou um golpe contra Salazar. (nota minha)
[4] José Teixeira Pinto, capitão de Infantaria, nasceu em Angola em 1876. Combateu com Alves Roçadas em 1905 e 1907. Esteve na Guiné de 1912 a 1915. Depois de regressar a Portugal foi para Moçambique em 1917, tendo morrido, como major, em Novembro desse ano em luta contra os alemães em Negomano. (nota minha)
[5] Abdul-Injai era balanta, os 400 irregulares eram balantas (nota minha)
[6] Eram 500 balantas (nota minha)
[7] Mamadú-Sissé era oficial de 2ª linha, comandava  200 balantas nesta acção (nota minha)
[8] Nos Bijagós (nota minha)
[9] Foram, além disso, atacados por uma epidemia de beribéri  (nota minha)
[10] Inorei e Meneque (nota minha)
[11] José Frederico Velez Caroço, governador da Guiné de 1921 a 1926 (nota minha)
[12] Luís António de Carvalho Viegas, governador da Guiné de  1032 a 1940 (nota minha)