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6 de abril de 2012

442-2º Pelotão da 3ª Companhia do COM

No próximo dia 29 de Abril os que foram "soldados cadetes" em Janeiro de 1966 no 2º Pelotão da 3ª Companhia do COM (Curso de Oficiais Milicianos), na EPI de Mafra, vão encontrar-se na Quinta do Gaio de Baixo (http://www.quintagaio.com/), perto do Cartaxo. Essa quinta pertence há muitos anos à família de um deles, o  Manel Santos Silva, que decidiu transformá-la em restaurante e local de recreio. Infelizmente, o nosso bom e muito respeitado instrutor, o agora coronel-comando reformado Chung Su Sing, não poderá estar por se encontrar no estrangeiro. Também não estará o nosso camarada Herculano de Carvalho, que foi comando na Guiné, já falecido.
Mas nós vamos estar lá:

-Adolfo de Jesus Rodrigues Bexiga
-Alfredo Manuel Ribeiro Parreira
-Aníbal António Dias Tapadinhas
-Augusto Jorge de Melo Felix
-António Alves Pereira
-António Manuel M. Cardoso
-António Manuel Marques Lopes
-Armando Simões Ferreira
-Carlos Alberto da Costa Fonseca de Sousa
-Eduardo Cristóvão Gil de Oliveira
-Fernando Mário Pereira Rodrigues Pais
-João Filipe Pilar Baptista
-Joaquim Benevenuto Carreiras
-Jorge Emídio G. Raposo Magalhães
-José Augusto de Azevedo e Silva
-José Francisco Rosa
-José Henrique de Carvalho Gonçalves
-José Joaquim Relvas Realinho
-José Manuel da Conceição Lopes Azevedo
-José Nuno Firmo Botelho de Andrade
-Manuel Arnaldo dos Santos Silva
-Mariano João Alves Pimenta
-Mário Ferreira Lopes Pereira
-Miguel Leitão Xavier Chagas
-Nelson Jorge Santos Godinho Parreira
-Orlando de Melo Cardoso Rodrigues
-Pedro José de Gusmão Calheiros
-Pedro Melo Santos Lima
-Rui António dos Santos Silva e Cunha
-Rui Manuel Duarte Baptista


6 de julho de 2011

217-A caserna 3 da EPI... e o "fantasma cagão"

Era um salão com alguns sessenta metros de comprido e quinze de largo, com um arco oval a meio separando-o em duas partes. A meio, numa das pontas do arco, ficava a porta de entrada, que servia de ponto de referência. À direita desta, ao fundo, na parede que limitava esse lado da caserna, ficava outra porta que dava acesso aos chuveiros e lavatórios. No lado oposto à porta de entrada havia várias janelas, literalmente cravadas nos flancos da abóbada oval da caserna, rentes ao chão, parecendo as patas de um bicho comprido de dorso arqueado. Permitia que, nos vãos assim formados, houvesse, em cada um, uma cama e um armário. Estes lugares, iluminados pela janela e com vista para o exterior - só para os telhados do convento, claro - tinham sido logo ocupados pelos primeiros a chegar. Os outros, à medida que iam chegando,  foram-se distribuindo pelas várias camas junto à parede e pelas que estavam em duas filas no meio. As camas eram metálicas e com colchões de arame, com um armário também metálico perto de cada uma.
Não foi fácil chegar até ela. A caserna 3 ficava no terceiro piso do convento. Foi necessário subir uma longa escadaria. Uma longa, larga e sólida escadaria com grandes lajes de pedra a servirem de degraus. Chegados ao cimo, andaram bem uns cem metros de corredor, também largo, parecendo forrado a pedra por baixo, por cima e pelos lados, até chegarem à tal porta que dava acesso à caserna. Em frente desta porta estendia-se outro corredor, mais pequeno que o anterior, mas grande, mesmo assim, para quem vive em casas de duas assoalhadas, ou menos. Num e noutro corredor havia outras portas além da da caserna, mas ninguém sabia nem ninguém lhes disse o que estava por detrás delas.
Os soldados-cadetes tinham sido distribuídos pelas casernas conforme a companhia a que ficavam a pertencer. Assim, a caserna 3 fora atribuída à 3ª Companhia do COM. Aí estavam o Aiveca, o Norberto, o Pais, o Simões, o Realinho, o Orlando, o Carreira e o Félix, que ficaram a pertencer àquela companhia. Isso porque estavam todos seguidos na bicha quando foram à atribuição dos números.
- "O meu pai, quando esteve na tropa, foi como soldado raso, é claro. Não passava de um trabalhador rural. Deram-lhe o fardamento todo, que não era nada igual a este, e deram-lhe também roupa interior, cuecas, camisolas e meias. Diz ele que a roupa interior era de pano cru, que até doía no corpo". O Aiveca falava a meia voz para o Pais, que estava na cama ao lado da dele. "Quando o meu pai queria vestir as cuecas de pano cru e cheias de goma tinha de as pôr em pé no chão, saltar para dentro delas e só depois as puxar para cima e apertar. Se tentava vesti-las sentado não conseguia, porque elas não dobravam".
O Pais riu-se.
- "Mas aqui não te vão dar roupa interior. Mesmo estas fardas vais ter de as pagar".
- "Pagar as fardas?! Mas como? Eu não tenho dinheiro para isso."
- "Vão-te descontar dinheiro ao fim do mês enquanto cá estiveres. Não recebes pré. Isto é, recebes um pré que te dá para beberes um café. O resto ficam com ele".
- "Mas que é isso de pré?"
- "Não sei se é esse o nome, ou se é soldo... sei lá. É o que os soldados recebem ao fim do mês".
- "E quanto é?"
- "É pá, sei lá... Para os soldados é uma merda, mas para os oficiais não é mau".
- "Então nós..."
- "Nós agora somos como soldados. O que vais receber se calhar nem chega para beberes uma cerveja. Olha, eu vou ficar bem lixado com isto tudo: sou casado, tenho responsabilidades. Guardei algum dinheiro antes de vir, até nem ganhava mal. Mas, mesmo assim vou-me ver enrascado".
"E eu? Como vai ser", começou o Aiveca a pensar. "Agora, nem os miseráveis mil e duzentos escudos da AGPL tenho...". Mas não teve tempo de ir mais longe.
- "Estou à rasca! Pessoal, vou cagar!"
Era o Realinho, em voz alta, numa cama perto. E largou rápido em direcção ao sítio dos lavatórios. Mas mais depressa voltou, muito atrapalhado.
- "Aquela merda não tem cagadeiras, só tem lavatórios e chuveiros. Quem é que sabe onde são as cagadeiras?"
- "O gajo que estava aqui disse que eram fora da caserna, ao fundo corredor ali em frente", disse o Norberto. O gajo que tinha estado ali era o faxina que acabara de fazer a limpeza da caserna na altura em que chegáramos. 
O Realinho desatou a correr porta fora em direcção ao corredor.
Isto faz-me lembrar, agora, de umas cenas que se passaram quando lá estávamos já há uns meses, não me recordo exactamente quantos.
Houve um dia em que o faxina foi logo de manhã, como era hábito, fazer a limpeza dos chuveiros. Os "nossos cadetes" já tinham marchado para a instrução, estava na hora. Quando levantou uma das grades de madeira de um dos chuveiros olhou horrorizado para as mãos. Estavam cheias de trampa!
"Filhos da puta, cagaram no chuveiro!", terá dito, como qualquer um perante aquilo. Foi fazer queixa ao comandante da companhia, o capitão Caramelo.
Este mandou reunir a companhia à hora de almoço.
- "Um dos nossos cadetes fez uma coisa muito grave, e há que encontrar o culpado. Se não, ninguém vai a casa no fim de semana!", ameaçou. 
Um sussurro perpassou pela formatura. Que terá sido?... Alguém se meteu com alguma das mulheres?... Nessa altura já todos sabiam que vários oficiais e sargentos viviam com as mulheres nos quartos da zona da caserna. Mas o capitão continuou.
- "É que alguém fez as necessidades nos chuveiros da caserna 3. É uma vergonha! Não pode ser! Fico à espera que o culpado se acuse!". Disse ao segundo-comandante para mandar destroçar.
A malta riu à fartazana. Comentou. O que é que querem!? As casas de banho estão ao fundo do corredor e, quando um gajo está muito à rasca, não tem alternativa...
Na manhã seguinte, apareceu nos chuveiros da caserna 3 uma inscrição:
E, dessa vez, o faxina teve cuidado. Mas fez novamente queixa ao comandante da 3ª do COM.
Face a isto, e como o cagão não se tivesse apresentado, a companhia foi novamente formada. Mas foi o tenente Chung, que era o segundo-comandante, quem se dirigiu à formatura.
- "O nosso capitão está tão envergonhado que não quis dirigir-se a vocês. Quer que o culpado se manifeste. Diz que não o vai castigar. Quer, apenas, que ele ponha um bilhete na caixa da companhia a dizer que foi ele".
Muito enfiado, o bom do tenente Chung (era mesmo bom, como homem e como militar) mandou destroçar. A caixa da companhia lá ficou sem nada e foram todos de fim de semana. E nunca se soube quem era o "fantasma cagão"...
Foi o Braz, que esteve em 1967/1969, como alferes da CCav1693, na Guiné, primeiro em Nova Lamego e depois em Bula. Vive agora nos EUA.

5 de julho de 2011

213-Entrada no COM

Às duas da tarde havia uma grande bicha de mancebos a uma das portas que dá acesso ao quartel. Tudo à civil, de malas e sacos, era evidente que se preparavam para assentar praça e frequentar o chamado 1º Ciclo do Curso de Oficiais Milicianos, isto é, fazer a recruta, tirar a instrução básica.
As portas abriram-se e eles foram entrando para um salão de traça majestosa, com mesas e cadeiras de mogno, num estilo qualquer de luíses.
- "Os nossos cadetes mantenham-se em fila e vão entrando para aquela porta lá ao fundo. Entretanto vão tirando a roupa."
Os "nossos cadetes" tinham entrado para o salão quase em silêncio, influenciados pelo ambiente de penumbra e majestade, pelo sentimento de expectativa do imediato, dado que, quanto ao futuro, estava tudo já traçado. Era ali que iriam ficar, durante alguns meses pelo menos. Alguns militares fardados, das mais variadas patentes e vários distintivos, ajudavam a dar àquele salão um estatuto de respeitabilidade para os recém-chegados.
Levantou-se um certo burburinho, em surdina, quando foi anunciado para se despirem. E houve um deles mais afoito que perguntou:
- "Temos que nos despir todos? Temos de tirar a roupa toda?!..."
- "Claro que é! Se fosse só para ver as perninhas era só arregaçar as calças... Queremos saber se têm os colhões lá no sítio e se está para aí alguma menina disfarçada!", e o militar que assim falava olhou para os cadetes com ar de poucos amigos.
- "Quando chegar ao pé daquele cabrão meto-lhe os tomates na mão para ele ver se pesam ou não", rosnou o Simões.
- "Foda-se que já estou farto de fazer strip-tease por causa desta porra da tropa!", e o Realinho começou a despir as calças.
Encontravam-se todos juntos na bicha: Simões, Realinho, Carreira, Norberto, Orlando e Aiveca. Este parecia um bocado atrapalhado, mas, tal como os outros, lá se foi despindo. O barulho, resultante de roupas e sapatos a cair, de comentários jocosos e pouco simpáticos para o tipo que tinha dado a ordem, aumentou, deixando de ser surdina.
- "Caluda!", berrou o indivíduo. "Isto aqui não é nenhuma casa de putas! Ninguém lhes disse para falarem. Os nossos cadetes agarrem na roupa e nos sapatos e pôem-se em bicha de pirilau. Ninguém sai da bicha, ouviram? Nem que esteja a ser enrabado pelo vizinho de trás."
Era um tipo de meia altura, bigodinho à passa-piolho, tão moreno que mais parecia preto. Tinha um blusão de cabedal verde, com dois galões, um largo e um estreito. Dizia isto tudo sem se rir.
Uns sorriram-se pela piada, outros remoeram palavras ofensivas e olharam-no de soslaio, mas calaram-se todos. E puseram-se em bicha... de pirilau, todos completamente nus.
- "Olha lá essa merda, pá...", e o Realinho deu com os calcanhares nas canelas do Norberto. "Chega-te para lá."
- "É pá, está descansado que eu não gosto."
Uns encavacados, outros completamente à vontade, como se estivessem a passear no jardim, foram, uma um, entrando na tal sala que ficava no outro extremo do salão, Lá encontrava-se um tipo sentado a uma secretária que olhava os recém-chegados, um de cada vez.
- "Encha o peito de ar... Faça força. Vire-se de costas."
Eram medidos e pesados. Tomava notas, dava ordem para vestirem só as calças e passava-os para outro indivíduo.
Este mandava-os sentarem-se num banco comprido, lado a lado. Vinha outro com uma data de agulhas.
- "Isto não doí nada", e, pim-pim-pim, espetava uma nas costas de cada um. Vinha outro com uma seringa enorme e dava uma esguichadela em cada um dos sentados.
- "O que é isto?", arriscou o Norberto.
- "É vacina contra todos os males. Os nosso cadetes não vão ter doença nenhuma", explicou o esguichador.
Mandaram que vestissem a camisa e passassem para outra mesa. Aí perguntavam o nome e davam um número.
- "Passem aquela porta e esperem lá fora".
Era um corredor enorme: tinha alguns cem metros de comprimento e aí uns cinco de altura. Aiveca nunca tinha visto nada assim. Em altura assemelhava-se à nave central de uma catedral. Mas, é claro, seria uma nave excessivamente comprida, como se o altar estivesse lá ao fundo, mal se vendo, e os devotos aqui, sem ouvirem o que o padre diz. De um lado e de outro havia portas de ombreiras majestosas, altas e espaçosas; havia também escadarias, de um lado e de outro, mais ou menos a meio do corredor. Tudo em pedra, em grandes blocos de pedra. No chão, grandes lajes. O mesmo nos degraus e corrimãos das escadarias. Até meia altura das paredes placas de mármore polido. No extremo onde se encontravam os cadetes, na expectativa do novo passo a dar para a sua integração, havia, a meio da parede, do lado direito, uma placa de mármore encravada no cimento e argamassa caiados que cobriam a metade superior da parede. A placa tinha gravada uma palavra francesa - "Lacouture".
- "Os "nossos cadetes", agora, agora vão tirar um curso de costura". O Realinho apontou para a placa, com uma cara muito séria, imitando o tipo autoritário e moreno que tinham encontrado logo à entrada.
Toda a malta se riu. Os cerca de trinta ou quarenta cadetes estavam todos inspeccionados. Tinham-se agrupado no princípio do corredor e estavam à espera do próximo acto. Grande parte estava já vestido novamente, alguns abotoavam os últimos botões ou apertavam o cinto ou os sapatos.
- "Este Realinho é mesmo palerma", disse o Carreira. "Isto não quer dizer costura".
- "Ouve lá, pá: pensas que eu sou algum analfabeto, ou quê?! "Couture" em franciú quer dizer costura. O meu sétimo ano ainda me deu para isso."
- "Quer dizer, mas isso aí, tudo pegado, "Lacouture", tem outro significado". O Carreira falava a sério.
- "Pois não sei, pá. Se "couture" é costura, "Lacouture" é a costura, não é? É ou não verdade?". O Realinho deu meia volta interrogando os presentes. "Tu, que és de românicas, diz lá se é ou não verdade".
Aiveca percebia que o Realinho estava a brincar com aquilo, mas também estava um bocado intrigado com aquele nome ali na parede. A verdade é que aquilo, aquele corredor, não era nada uma sala de costura. Para ele, tinha sido um alívio poder vestir-se novamente, e deixar de ser mirado e remirado, à frente e atrás. Já quando fora a primeira vez à inspecção, em Setúbal, fora a mesma vergonha. Agora, novamente. Mas, passado isso, estava satisfeito e descansado. Pensou que era melhor alinhar na brincadeira.
- "É verdade, sim senhor. Vem no Larousse, página 90, linha 69."
Foi a gargalhada geral. Aiveca riu também, de satisfação. O Carreira é que já não estava a gostar nada, pois reparou que estavam a gozar com ele.
- "Ah, grande Aiveca!", o Norberto deu-lhe uma palmada nas costas. "Dizes poucas, mas quando saem têm piada".
- "Essa da linha 69 está bem metida", o Simões ria-se apoiado ao Realinho.
- "É a melhor linha para costurar", disse este.
- "...e a melhor posição", acrescentou o Simões.
(...)
Saiu, finalmente, o último cadete da sala de inspecção. Atrás dele vinha um tipo com galões em forma de cunha nos ombros. "Deve ser sargento", pensou Aiveca, "já tenho visto aqueles galões em filmes de guerra".
- "Os nossos cadetes formem duas filas e depois venham atrás de mim. Vá, os dois primeiros aqui à minha frente. Depressa que temos pouco tempo".
As filas foram feitas, de uma forma casual e desordenadamente. O único critério era ficar junto dos agora conhecidos, das amizades acabadas de fazer.
- "Ó nossos cadetes, isto parece uma montanha russa, aos altos e baixos. Vá lá, os baixos para a frente e os altos para trás. O nosso cadete aí no meio da fila da direita... está aí escondido no meio de dois matulões... venha cá para a frente!... Vá depressa, mexam-se!
Nova mexida, confusões e barafunda. (...)
- "Assim está melhor. Escapa. Agora vamos lá ao depósito de fardamento, onde lhes será entregue a farda número um e a farda número dois, que é o uniforme de trabalho. Depois de receberem os fardamentos, os nossos cadetes esperam no corredor, que é para lhes serem indicadas as casernas respectivas. Todos perceberam?... Bem, parece que sim. Venham atrás de mim, todos em fila.
(...)
- "Isto é uma tropa fandanga. Olha-me para esta cambada de nabos, a começar por ti. Vocês,  metidos nessa merda dessas vestimentas e a desfilarem ali no meio dos saloios de Mafra deviam pô-los a mijar de rir."
Aiveca mirou-se e remirou-se e acabou por dar razão ao Pais. Era raro aquele cuja farda número um lhe estava mais ou menos a quadrar com o físico. Quase todas largonas, desproporcionadas. Ou nadavam dentro das calças ou pareciam miúdos a provar o casaco do pai.
O Pais falara assim porque se recusava a vestir a farda.
- "Eu sei que vou ter de andar com esta merda vestida, mas, ao menos, só a visto depois de a mandar arranjar quando for a casa. Não quero fazer triste figura, e ainda por cima com uma coisa que tenho de aceitar contrariado."
- "Também me parece, pá. Vamos agora andar aí feitos palhaços, é?". E o Norberto, dentro das calças, esticava uma cintura onde cabia outro igual a ele. "Eu também não vou vestir isto assim".
À roda, toda a gente concordou, de uma maneira ou doutra. Cada um deu mostras da sua figura ridícula com as fardas distribuídas pelo cabo quarteleiro aos soldados-cadetes, após fazer uma apreciação rápida das medidas do físico de cada um.
- "Isto é a olhómetro, senhor cabo?". O Realinho levantara logo esta questão ao receber as fardas.
- "O nosso cadete desculpe, mas eu não posso estar aqui a fazer provas a cada um. O melhor que têm a fazer é arranjarem alguém lá em casa que faça uns ajustamentos no fardamento".
É claro que o "senhor cabo" tinha razão, toda a gente achava que sim. Mas também todos aqueles que se sentiam ridículos achavam que não deviam passear-se com tais adornos.
Não havia grandes problemas quanto à farda de trabalho, a número dois. Era de caqui verde, calça e camisa, com um barrete esquisito, mas tá bem. O pior era a farda número um, a tal de passeio: calças e blusão cinzento, camisa e gravata, e um boné com pala dura. Esta, sim, é que os fazia ridículos, parecendo polícias mal jeitosos, balofos.
- "Os nossos cadetes têm azar. O próximo  curso, daqui a três meses, vai ter já dos novos fardamentos, verdes, calça e blusão, e boina castanha".
- "Obrigadinho, ó senhor cabo, mas isso não me serve de consolo. Os gajos não me deixam ir para casa se eu lhes disser que não gosto desta farda, e que só quero vir para a próxima."
Ninguém achou piada a esta saída de alguém do meio do grupo.
(...)

21 de abril de 2011

114-25 de Abril - Acção na EPI (Escola Prática de Infantaria), Mafra

RELATÓRIO DA OPERAÇÃO DESENVOLVIDA A PARTIR DE 24/25 DE ABRIL DE  1974

1. SITUAÇÃO
As F.A., descontentes com o governo, pretendem fazê-lo substituir.

2. MISSÃO

a) Ocupar, e defender das Forças Governamentais, o Aeroporto da Portela;
b) Ocupar e garantir o controlo da Vila de Mafra;
c) Ocupar e garantir o controlo do Aquartelamento.

3. FORÇA EXECUTANTE

a. Comandante
     Major de Infantaria AURÉLIO MANUEL TRINDADE.

b. Comandantes das Sub-Unidades
    - Companhia de Intervenção:
      Comandante – Capitão de Infantaria RUI RODRIGUES
      Adjuntos – Capitão de Infantaria ALBUQUERQUE
      Capitão de Infantaria AGUDA
    - Forças destinadas ao controlo da Vila de Mafra:
      Comandante – Capitão de Infantaria VICENTE FERNANDES
      Adjunto – Capitão de Infantaria BABO DE CASTRO
    - Forças destinadas ao controlo de acessos:
      Comandante – Tenente de Infantaria S: FERNANDES
    - Forças destinadas à ocupação do Aquartelamento:
      Comandante – Capitão de Infantaria SILVÉRIO

c. Meios
    - Uma Companhia de Atiradores em 3 bigrupos de 50 homens cada.
    - Dois grupos de combate a 40 homens cada.
    - Um grupo de combate a 50 homens.
    - Uma Companhia de Atiradores para a defesa do Aqurtelamento.
    - Reserva.
      Uma Companhia de Atiradores.
      Duas Companhias do C.O.M./2º Ciclo

d. Articulação das Forças
     - A indicada em c.

4. PLANOS ESTABELECIDOS PARA A ACÇÃO

a.    Ao Toque de Ordem, saída do Aquartelamento dos Oficiais do Movimento para as suas casas de acordo com horários anteriores.
b.    Em 242100ABR74 recolheram à E.P.I. os Oficiais do Movimento, que ficaram nos quartos até ser dado aos Emissores Associados o sinal do desencadear da Acção.
c.    Em 242300ABR74 recolha à E.P.I. dos Oficiais, Praças e viaturas que estavam no campo em exercícios finais C.C.C./C.O.M.
d.    Em 242400ABR74 os Oficiais do Movimento saíram dos seus quartos para formarem as Sub-Unidades de intervenção e contactarem com os Oficiais presentes na Unidade, que não estavam dentro do Movimento.
e.    Em 250200ABR74 saída da Companhia para ocupação do Aeroporto.
f.      Em 250215ABR74 saída das Forças para ocupação dos pontos chaves de Mafra, controlo  da Vila de Mafra e controlo dos acessos a esta Vila.
g.    Em 250400ABR74 ocupação do Aeroporto pelas Forças de intervenção
  
5. DESENROLAR DA ACÇÃO

Em 242400ABR74 processaram-se as seguintes acções:
- Telefonema do Oficial de Dia pra o Coronel FREITAS, informando-o de          que havia uma chamada do QG/RML, pretexto este com vista à sua saída da residência.
- Os Comandantes das Forças de intervenção começam a formar e a preparar as suas Sub-Unidades.
- O Comandante da defesa do Aquartelamento começa a assegurar a sua defesa como se tivéssemos entrado de Prevenção Rigorosa.
- Em 250015ABR74 sai da sua residência o Coronel FREITAS, que foi abordado pelo Capitão SILVÉRIO e levado a um compartimento, onde se encontravam os Majores TRINDADE e CERQUEIRA DA ROCHA.
- Às 250016ABR74 o Coronel FREITAS é posto ao corrente da situação e começa a ser preparado para aderir ao Movimento.
- Em 250100ABR74, e a pedido do Coronel FREITAS, sai uma Equipe do Aquartelamento que se desloca a casa do Tenente Coronel ROCHA GOMES, para o trazer ao Aquartelamento.
- Em 250130ABR74 chega ao Aquartelamento o Tenente Coronel ROCHA GOMES e é-lhe exposta a situação.
- Em 250200ABR74  sai do Aquartelamento a Companhia auto-transportada destinada à ocupação do Aeroporto. Forças
- Em 250230ABR74 saem do Aquartelamento as Forças destinadas à ocupação dos “pontos chaves” da Vila de Mafra, ao controlo do acesso à Vila e ao controlo de toda a Vila.
- Em 250245ABR74 tinham sido ocupados os seguintes pontos chaves da Vila:
  - Serviços Municipalizados
  - Instalações da Companhia das Àguas
  - Correios Telégrafos e Telefones
  - GNR
  - PSP
  - Delegação da Manutenção Militar
Em 250400ABR74 a Companhia, depois de se ter deslocado de Mafra até à Portela, seguindo o itinerário MAFRA-MALVEIRA-LOURES-FRIELAS-CAMARATE-AEROPORTO, ocupou as seguintes dependências:
  - Edifício principal, instalações da DGS, da Guarda Fiscal e Gabinete de Som.
  - Depósito de Combustíveis e Esquadra da PSP.
  - Torre de controlo de tráfego aéreo.
- A partir de 25400ABR74 em Mafra terminaram as operações militares, sendo os deslocamentos existentes apenas os necessários para a rendição do pessoal de vigilância e patrulhamento dos pontos ocupados.
- Em 251600ABR74 a Companhia instalada no Aeroporto recebeu ordem para com parte dos seus efectivos se deslocar para o Largo do Carmo a fim de combater as forças do RC7 fiéis ao Governo.
- Em 251700ABR74 a Companhia do Aeroporto recebeu ordem para ir ao RAL1 libertar os presos das Caldas, sendo anulada a ordem de ir para o Carmo. Deslocaram-se ao RAL1 o Capitão RODRIGUES e o Capitão ALBUQUERQUE que conversando com o Comandante da Unidade souberam que este tinha aderido ao Movimento há cerca de 30 minutos. Os presos foram libertos e os dois Oficiais regressaram ao Aeroporto.
- Finda esta missão, a Companhia recebeu nova missão de ir buscar a Monsanto o Ministro do Exército que ali se tinha refugiado. Deslocou-se aí o Capitão RODRIGUES com um efectivo de 33 homens; entabuladas conversações entre este Oficial e o General TAVARES MONTEIRO chegou-se à conclusão de que estavam em Monsanto as seguintes entidades:
  - Ministro da Defesa
  - Ministro do Exército
  - Ministro da Marinha
  - 4 Oficiais Generais
  Todas estas entidades foram detidas e levadas sob escolta para o RE1.
- Na madrugada do dia 26 a Companhia recebeu a missão de ir ao Largo do Carmo a fim de evitar distúrbios.
- Em 260800ABR74 a Companhia foi substituída por Paraquedistas e foi-se apresentar ao RE1 ao Comando do Movimento.
- Em 260900ABR74 a Companhia da EPI começou a ser comandada pelo Major de Cavalaria BIVAR, o que bastante estranhou aos Oficiais da Companhia, já que todas as missões de importância tinham sido cumpridas cabalmente sem ser necessário um Major para comandar a Companhia, estavam dois destes Oficiais na EPI que para além de serem da máxima confiança dos Oficiais do Movimento conheciam todos os Oficiais s Praças da Unidade. Tudo isso deu como consequência haver na Companhia dosi Comandos distintos: um aceite e outro imposto, que vei trazer sérios problemas disciplinares pois as ordens eram cumpridas e não aceites, pelas Praças e Oficiais Subaltenos.
- Em 261000ABR74 a companhia da EPI juntamente com uma Unidade da Marinha tomou posse das instalações da DGS na rua António Maria Cardoso. Depois da ocupação do edifício, o resto da Companhia regressou ao RE1 deixando ficar nas instalações um grupo comandado pelo Capitão AGUDA.


- Assim que a Companhia chegou ao RE1 foi-lhe dada nova missão: controlar uma manifestação popular no Rossio. A missão foi cumprida tendo um indivíduo sido entregue no Comando Geral da PSP por se suspeitar ser da DGS. A missão acabou cerca das 2200.
- Em 262330ABR74 nova missão levou parte da Companhia até às instalações do Jornal Época. Esta missão teve como consequência serem detidos 3 elementos de pertencerem à DGS tendo a Companhia regressado à A.M. cerca das 0330.


- Em 270800ABR74 parte da Companhia, juntamente com elementos da Marinha, apossou-se das instalações da Escola Prática da DGS em Sete Rios, tendo regressado à A.M. às 1200.
- Em 271000ABR74 a outra parte da Companhia sob o comando do Capitão ALBUQUERQUE foi utilizada na escolta sob prisão, para a Trafaria, de um Comandante da LP.
- Em 271100ABR74 o resto da Companhia que se encontrava na rua António Maria Cardoso, sob o comando do Capitão AGUDA, foi utilizada na escolta, para Caxias, de elementos da DGS.
- Em 271300ABR74 parte do efectivo da Companhia foi utilizado na ocupação das instalações da LP, no Castelo de S. Jorge. Tendo sido ouvidos tiros na zona do Rossio, a força deslocou-se até a esta zona, onde foi detiso um indivíduo que se tinha refugiado na Esquadra da PSP, como elemento suspeito da DGS que foi entregue em Lanceiros 2.
- Em 271600ABR74 marcharam da EPI para Lisboa 3 Companhias de Atiradores, comandadas pelo Major CERQUEIRA DA ROCHA, que se apresentaram no QG/RML
- Em 281000ABR74 a Companhia iniciou o movimento para a EPI onde chegou perto das 1200.
- Em tempo oportuno foram recolhidas pelas Forças de Mafra, as armas e munições da LP de Torres Vedras, Lourinhã, Cadaval e Mafra.
Também em tempo oportuno foram ocupadas as instalações da LP em Torres Vedras, Lourinhã e Cadaval.

6. SERVIÇOS

a.    Tansportes
Estes serviços funcionaram normalmente, e, dado que havia viaturas cedidas por empréstimo, para os exercícios finais do CCC/COM, foi possível motorizar 4 Companhias que chegaram a estar  juntas em Lisboa e ficar com as viaturas mínimas para os serviços da Unidade.

b.    Logistica
c.    Os serviços de alimentação funcionaram bem. Pelos estudos feitos antes do início da acção, havia em Mafra alimentação para 5 dias.

d.    Munições
Foi assegurada a existência na Unidade das munições necessárias para o desenrolar dos acontecimentos.
7. APOIOS
    A GNR, a PSP e a população deram às Forças da EPI todo o apoio necessário para que a missão atribuída fosse muito facilitada. Cabe aqui uma citação especial a todo o pessoal que Trabalhava no Aeroporto, com relevo para o Sr. CHAVES DE ALMEIDA e o Director do Aeroporto que muito contribuíram para o bom sucesso da missão. Também ao Capitão Piloto Aviador MARTINS cabe uma citação muito especial pois foi graças a este Oficial que se garantiu a segurança do tráfego aéreo no território Nacional.
8. CONCLUSÕES E ENSINAMENTOS
    Com determinação tudo se consegue.
9. DIVERSOS
    Todo o pessoal que sob o comando do Capitão RODRIGUES cumpriu todas as missões que lhe foram atribuídas merece, pelo seu espírito de sacrifício e pelo seu querer de bem servir as causas do Movimento das Forças Armadas,é aqui louvado, pois todo o esforço que lhe foi exigido transcende o que até aqui era humanamente possível conseguir.

O COMANDO DO MFA/EPI
·        Aurélio Manuel Trindade
Major de Inf.ª
·        Jorge Manuel Silvério
Capitão de Inf.ª
·        Rui Martins Rodrigues
Capitão de Inf.ª
·        Carlos Alberto Frias Barata
Tenente de Inf.ª
·        António da Silva Fernandes
Tenente de Inf.ª

    in "O Refrencial, N.º 21" (boletim da Associação 25 de Abril)

18 de março de 2011

85-Alguns manuais da EPI - Mafra



A não ser o da G3, fiel e permanente companheira na Guiné, os outros não tiveram utilidade nenhuma.

14 de março de 2011

82-Guia do Instruendo - EPI - Mafra

Lembranças para quem por lá passou...


HINO DA EPI
DESCRIÇÃO HERÁLDICA DO GUIÃO DA E.P.I.