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6 de abril de 2012

442-2º Pelotão da 3ª Companhia do COM

No próximo dia 29 de Abril os que foram "soldados cadetes" em Janeiro de 1966 no 2º Pelotão da 3ª Companhia do COM (Curso de Oficiais Milicianos), na EPI de Mafra, vão encontrar-se na Quinta do Gaio de Baixo (http://www.quintagaio.com/), perto do Cartaxo. Essa quinta pertence há muitos anos à família de um deles, o  Manel Santos Silva, que decidiu transformá-la em restaurante e local de recreio. Infelizmente, o nosso bom e muito respeitado instrutor, o agora coronel-comando reformado Chung Su Sing, não poderá estar por se encontrar no estrangeiro. Também não estará o nosso camarada Herculano de Carvalho, que foi comando na Guiné, já falecido.
Mas nós vamos estar lá:

-Adolfo de Jesus Rodrigues Bexiga
-Alfredo Manuel Ribeiro Parreira
-Aníbal António Dias Tapadinhas
-Augusto Jorge de Melo Felix
-António Alves Pereira
-António Manuel M. Cardoso
-António Manuel Marques Lopes
-Armando Simões Ferreira
-Carlos Alberto da Costa Fonseca de Sousa
-Eduardo Cristóvão Gil de Oliveira
-Fernando Mário Pereira Rodrigues Pais
-João Filipe Pilar Baptista
-Joaquim Benevenuto Carreiras
-Jorge Emídio G. Raposo Magalhães
-José Augusto de Azevedo e Silva
-José Francisco Rosa
-José Henrique de Carvalho Gonçalves
-José Joaquim Relvas Realinho
-José Manuel da Conceição Lopes Azevedo
-José Nuno Firmo Botelho de Andrade
-Manuel Arnaldo dos Santos Silva
-Mariano João Alves Pimenta
-Mário Ferreira Lopes Pereira
-Miguel Leitão Xavier Chagas
-Nelson Jorge Santos Godinho Parreira
-Orlando de Melo Cardoso Rodrigues
-Pedro José de Gusmão Calheiros
-Pedro Melo Santos Lima
-Rui António dos Santos Silva e Cunha
-Rui Manuel Duarte Baptista


28 de agosto de 2011

243-Chegada a Mafra

Pensei na vida que me esperava para os próximos anos não com apreensão ou receio, mas apenas com curiosidade e mera expectativa. Nem sequer a guerra, de que ouvira falar através de terceiros, que também a não tinham conhecido directamente, nem sequer ela me era motivo de medo ou angústia. Nos momentos de desilusão amorosa tinha-me vindo o desejo de mudança, mas, com mais calma, tive pena de mal ter iniciado os estudos na universidade, preferia tê-los acabado primeiro. No entanto, não deixava de ser simpática a expectativa de vir a envergar a farda de oficial e poder aparecer assim fardado à família, aos amigos, e a uma namorada qualquer que eu havia de ter. Disciplina de quartel, vida de caserna, também não era coisas que me preocupassem, não seria muito mais do que aquilo a que estivera já habituado desde pequeno.
Já lá ia uma hora do Rossio em direcção a Torres Vedras. Na carruagem, não completamente cheia, iam vários rapazes, uns sozinhos, como eu, outros em grupos de dois ou três. Era Janeiro e o frio era intenso, sendo talvez por isso que o ambiente não condizia com a juventude que ocupava a carruagem. Nem os que iam em grupo passavam de uma ou outra risada, sem continuidade, perdida. Num desses grupos sobressaía um tipo louro e magro, bigode louro e olhos verdes vivos sobressaindo do rosto como olhos de camaleão. E era por estar sempre a falar em voz baixa com os outros dois que o acompanhavam, passando ao mesmo tempo os olhos pela carruagem, por todos os cantos e por todos os rostos, em jeito camaleónico. Só que ele mais parecia receoso à espera de ataque do que emboscado à procura de presa.
Quando o comboio estacou, com uma enorme chinfrineira de travões, na estação que serve Mafra toda a gente da carruagem saiu e  juntaram-se outros vindos das outras mais à frente e mais atrás. Ainda eram mais de trinta. Com malas e sacos à laia de pratos de balança estacaram a procura do convento e o comboio lá seguiu para Torres Vedras.
"Os nossos cadetes vão ter de ir a pé para o quartel", e o soldado mirava o pessoal com ar de sonso.
Naturalmente, todos se juntaram naquele lado.
"Mas para onde é que fica o quartel? Não nos pode ensinar o caminho para lá?", perguntaram quase todos.
"Os nossos cadetes não têm nada que enganar. Por detrás daquele morro que se vê daqui a quinhentos metros, no sítio onde a estrada da estação faz a curva, logo a seguir fica o convento e o quartel. Eu não posso ir com os nossos cadetes porque estou à espera do comboio para Lisboa. Mas não tem nada que enganar", e afastou-se à pressa.
Passou para o outro lado da gare. O comboio para Lisboa foi chegando e ele lá seguiu nele.
"Quem é que é de Lisboa?", perguntou alguém.
Três disseram que sim, mas que nunca tinham vindo a Mafra e que não conheciam, portanto, nem a terra nem o malfadado convento.
"Mas sempre pensei que tinha umas torres bestialmente altas. Afinal, parece que não, pois, se está tão perto daqui e nem se vêem", arriscou um dos alfacinhas.
"Começamos cedo a ficar fodidos. Toda a gente tem guia de marcha, não é? O que é que ela diz? Não é até Mafra?" Era um dos que falavam com o dos olhos camaleónicos.
Toda a gente mirou o papel e concordou.
"Mafra é uma vila, tem casas, tem ruas e tem o sacana do convento, que é mesmo grande como toda a gente aprendeu na escola. É ou não é verdade?"  
Ninguém respondeu porque era mesmo verdade.
"Então foderam-nos, pois claro. Se não se vê daqui é porque é mesmo longe. O magala deve mas é ser alentejano.”
E continuou, quando os protestos começaram a surgir de todos os lados.
"Isto é psicológico. Os gajos usam estes métodos para a malta começar a amochar".
Os protestos generalizaram-se, a maior parte disse daqui não saio a pé, que me venham buscar de carro. Mas houve quem, embora sob protesto, decidisse que era melhor agarrar na bagagem e arrancar em direcção ao quartel, não vá o diabo tecê-las. E lá arrancaram sete ou oito.
 "Esperem lá, seus nabos! Então ninguém se lembrou de ir perguntar ao chefe da estação? Aguentem aí que eu vou lá ver como é".
 Era o camaleónico a falar. Todos largaram as malas e dirigiram-se também ao chefe da estação.
Ele riu-se a brava.
"Esse gajo esteve a gozar com vocês. Há meia hora, chegou aí outro grupo e ele fez-lhes o mesmo. Eram dez e foram andando pela estrada fora". 
De filho da puta para cima tudo chamaram ao magala.
"Há uma camioneta do quartel que faz a ligação. Daqui até lá ainda são uns dez quilómetros. Ela não deve tardar aí".
O alívio era geral e os impropérios ao magala gozâo ficaram esquecidos.
As conversas generalizaram-se e estabeleceram-se ali os contactos mútuos entre indivíduos que iriam viver em conjunto e de forma intensa os próximos meses e, alguns, os próximos anos. A camioneta lá chegou e levou-os até Mafra. Toda a gente galhofava com os dez maçaricos que tinham caído na esparrela do magala.
E lá chegámos. Mas era meio-dia e disseram-nos para ire dar uma volta pela vila e aparecer às duas da tarde. O convento era uma aranha medonha que tecia a vila, e esta só existia porque havia o convento e, sobretudo,  porque havia o quartel. Sim, porque seria impensável ver os frades, se os houvesse, a coçarem os... hábitos pelos cafés e restaurantes da vila. A teia de pequenos negócios estendia-se ao longo das ruas e ruelas que saíam do convento em direcção às hortas, aos pomares, aos minifúndios dos saloios. Quem caía nessa teia? Os turistas, que acorriam em camionetas aos tesouros artísticos, e a tropa, de passagem para a voragem da guerra. Recém-chegados fomo-nos espalhando pelos vários restaurantes e cafés fronteiros ao convento. Os grupos formaram-se naturalmente de acordo com as várias levas de camioneta. Num desses restaurantes entraram o camaleónico e os outros dois que com ele cochichavam no comboio, eu e mais três que tinham vindo na mesma leva. Juntámo-nos todos numa mesa grande.
“Vocês foram dos que agarraram nas malas para vir a pé até aqui”, e o camaleónico fitou ironicamente quatro dos comensais, “a gente topou logo que aquilo era peta do magala. Se vocês não se põem a pau, vão ser comidos por tudo e por nada daqui para a frente. Aqui o Rolando também ia caindo, se não fosse eu avisá-lo.”
“Eu não fui”, disse eu.
“Até podia ser verdade o que o magala dizia. Não me admirava nada. Ou pensas que os gajos estão preocupados com as tuas comodidades? Não me pareceu nada anormal que nos fizessem palmilhar uns quilómetros com as malas às costas. Mais do que isso ainda hás-de amargar”, profetizou o  Orlando, deixando ao mesmo tempo transparecer a preocupação de justificar a  sua credulidade perante a ironia do outro.
“Mas eu cá não fui desses, pá”, era moreno e usava o cabelo bastante curto, tinha uma cara de garoto reguila e falava à alentejana, “a mim, ao António Realinho, nunca eles hão-de caçar. Só se for para jogar à bola, que é o que eu fazia lá no Lusitano. Acreditem, rapazes, que vim para a tropa porque tive de vir e, como não foi por gosto, não tenho intenções de me cansar.”
“Não era verdade, por acaso. Mas, se fosse e tu não tivesses andado, bem te podias lixar. Vocês é a primeira vez que estão em contacto com as coisas militares, mas eu não, eu sei como neste meio são exigentes. Pensando bem, não poderia ser de outra maneira, se é que querem ter um exército minimamente capaz de fazer a guerra. Eu estive na Milícia e sei o que é a disciplina. Por isso é que arranquei sem me admirar que fosse como o magala dizia.”
Quem assim falou com ar sério era o mais alto e entroncado do grupo.
“Caga na disciplina e vamos mas é à manja, que eu estou com uma galga do caraças. Já que vamos estar juntos durante alguns meses, pelo menos, é melhor apresentarmo-nos desde já. Eu cá sou o Norberto”, disse o camaleónico, “e este nabo que ia caindo na peta do magala é o Rolando e este gajo que está à minha frente com cara de bêbedo é o Simões. E tu, pá?”, perguntou curiosamente ao que falara anteriormente e que estivera na Milícia.
“Eu chamo-me Fernando Carreira”, respondeu ele.
Olharam para mim.
“António Aiveca”.
Todos, menos o Realinho, olharam para mim com cara de que raio de nome. Mas não liguei.
“E eu já vos disse que sou o Realinho, alentejano de gema e jogo à bola no Lusitano de Évora”.
O outro, de que ninguém ainda sabia o nome e que estava macambúzio, abatido, acabou por desabafar:
“Esse gajo aí, como é que te chamas?, Carreira, fala de disciplina e de fazer a guerra. Não sei o que é que tu fazes na vida, pá, para falares disso tão à-vontade. Eu sou o Pais, o Carlos Pais, sou agente técnico de engenharia electrónica nas Oficinas Gerais de Material Aeronáutico em Alverca, mas, é verdade, pá, estou-me cagando para a tropa, para esta porra toda, para tudo o que é militar. Estou farto deles. Só me vou esforçar por uma coisa aqui dentro, e não é jogar à bola.”
“Mas tens alguma queixa da bola?”, respingou o Realinho.
“Não, pá, era só para dizer que vou fazer tudo por tudo para ver esta merda toda pelas costas. Casei-me há um ano e tenho uma miúda com dez meses, custa-me muito estar longe dela e da minha mulher. Além disso, um gajo nunca sabe o que lhe pode acontecer.”
Era um tipo baixo, de cabelo negro, sobressaindo sobre um ar amarelado que lhe envolvia toda a pessoa. Mas era desenvolto e falara com veemência. Todos olharam para ele com certa simpatia. Só o da Milícia manteve um ar ausente, pouco receptivo àquela tragédia. Fraqueza, parecia pensar. Mas, como apareceu nessa altura o criado, todos se distraíram a encomendar que comer. Todos pediram refeição completa, menos eu. Pedi apenas sopa, um prego e uma cerveja.
“Assim não te safas, pá. Come cá fora enquanto podes, pois lá dentro só tens uma alternativa, ou comes merda ou morres à fome. Faz como eu, para já um bife com batatas fritas, sopa, uma cervejinha. Ó senhor empregado, traga pão, manteiguinha e azeitonas para a gente se ir entretendo. E pode trazer também as bebidas”, e o Realinho sorriu-se para todos, satisfeito.
“O problema é que não posso comer mais do que isso”, e  acrescentei, receando que tivessem compreendido que estava doente, “não  estou preparado para fazer uma despesa maior. Pensei que iríamos almoçar no quartel e não trouxe dinheiro que chegasse, isto é, trouxe, mas não o posso gastar já agora, senão não me chega para o resto da semana.”
Fiquei com a impressão que olharam para mim como para um pelintra. O Simões, o tal coradinho que estava assentado à frente do Norberto, abriu o bico pela primeira vez e disse, com manifesta intenção de salvar a minha atrapalhação.
“É pá, come lá à-vontade que eu empresto-te dinheiro e logo me pagas.”
“Está bem, obrigado”, mas fiquei pouco à-vontade.
Uma breve pausa e foi o Carreira que reatou a conversa.
“O Pais tem razão, mas parece-me que situações como a dele são  fatais, é mesmo difícil pensar que não possam existir numa situação de guerra.”
“Também não digo que não. No entanto”, e o Norberto mirou o Carreira de cima para baixo, “também é natural que nem todos gostem de se ver metidos nessa situação. Eu, por exemplo, não posso dizer que me agrade estar aqui, pensando no que está para vir. Sou professor primário e sou casado. Não é pela minha profissão, que até gosto dela, mas que teria mesmo que abandonar mais tarde ou mais cedo, já que não me dá para viver, mas é, sobretudo, porque tenho de estar longe da família. Se tivesse filhos, como o Pais, estaria ainda muito mais tramado. Haverá ainda outras razões que não vêm agora para o caso, mas a fundamental é uma, e é que não me interessa morrer, mas, a partir de agora, passo a ter muitas mais hipóteses de que isso venha a suceder. Por tudo o que isso acarreta para a família, e para mim próprio, claro. Eu percebo o Pais e acho que ele tem razão em sentir-se tramado. Reage à maneira dele, o que deve ser aceite.”
O Simões olhava para ele com ar sorridente, na expectativa de uma deixa para poder intervir. E apanhou esta.
“Cá por mim já tenho uma maneira. Andei a estudá-la durante muito tempo e aconselhei-me, até, com alguns tipos amigos que já passaram por estas coisas. E encontrei a maneira ideal.”
”A sorna, querem apostar?”, e o Rolando riu-se com a própria piada, e todos sorriram, olhando para o Realinho.
“Não é isso, pá. Vocês estão a gozar, mas eu encontrei a maneira científica de me ver livre disto. É a doença, pá”.
“Vai dar ao mesmo”, tornou o Orlando. 
Todos se riram novamente
“Não é nada a mesma coisa. E já te digo porquê. Se tu optas pela sorna, como o Realinho, topam-te e vão estar sempre a pau contigo, vão sarnar-te o juízo todos os dias. E isso não leva a atingir o objectivo final que é, pelo menos para mim, ver-me livre disto, da tropa, não me meter nessa coisa dos tiros. A sorna vai-te ajudar a passar o tempo da melhor maneira possível, com um mínimo de aborrecimentos, poupando ao máximo o corpinho, mas, se te topam, e não sei como não poderá deixar de ser, além dos gajos te foderem ainda mais, chegas ao fim disto e vais na mesma seguir o curriculum dos morituri.
“Essa é boa, mas troca lá isso por miúdos”.
“Isso é latim”, adiantei-me eu, "morituri quer dizer os que vão morrer. Os soldados romanos, quando iam para o combate, saudavam o imperador  com ave, Caesar, morituri te salutant, isto é, salve, César, os que vão morrer saudam-te".
O Realinho, que manifestara a sua ignorância, e os outros olharam para mim com um misto de curiosidade e de ironia, de tal modo que continuei tentando justificar a minha sabedoria e para não pensarem que tinha andado no seminário.
“É que eu fiz o Latim do 7°ano há alguns meses e tinha uma cadeira de Latim na Faculdade de Letras, andava em Românicas.”
O Simões quis continuar.
“Não me cortem o fio à meada. Com sorna ou sem sorna, se não tomarem como objectivo ver tudo isto pelas costas e procurar as vias para isso, vão seguir direitinhos para a guerra. E é o que eu não quero. Por isso é que eu vou ficar doente do coração desde a altura em que puser os pés na porta do quartel. Desde essa altura vou ser um doente cardíaco, meus amigos. Mas um doente cardíaco colaborante, empenhado nos exercícios, em todos, desejoso de aprender a ser um bom oficial. Não acreditam? Pois hão-de ver.”
De facto, todos olhavam para ele muito cepticamente.
“Estou a ver que vocês não percebem nada.”
O comer já viera, estavam todos entretidos a matar a maldita, e o Simões continuou a falar, entremeando tudo com bife, com batatas fritas e vinho tinto.
“Eu explico,” e fez uma pausa nos ruídos de faca e garfo, mantendo apenas o rilhar ritmado do bife, “é que sofro mesmo do coração. Pois bem: apesar de ser doente, o Simões vai ser o gajo mais entusiasta em todos os exercícios e treinos. Mas, porque sou doente cardíaco, não vou conseguir terminá-los, vou sentir muitas dificuldades e vou, até, ter algumas crisesitas. Naturalmente, todos vão ter pena de mim, coitado, que se esforça imenso mas não consegue nada, e os manda-chuvas dirão que sou muito esforçado mas que não tenho condições físicas, que será perigoso insistir neste tipo de coisas comigo, etc.”
“Não está mal visto, não senhor”, apreciou o Norberto, “mas não percebo uma coisa, ó Simões. Como é que tu vais ter essas crises? Isso pode durar um certo tempo, mas eles vão-te fazer exames, electrocardiogramas e outras coisas e, se não encontrarem nada, não vão ter razões para te afastar.”
“Isso é a parte de risco que existe. Como em tudo, há sempre um certo risco, uma probabilidade, maior ou menor, de não resultar. Vou jogar na probabilidade de, face às dúvidas e aos elementos contraditórios que lhes surgirem, os médicos jogarem pelo seguro, não se arriscarem, preferirem pôr no relatório que eu não devo fazer exercícios ou ser submetido a esses esforços”, e avançou com mais uma garfada de batatas fritas, enquanto os outros deglutiam pensativamente.
O único manifestamente ainda não convencido dos resultados desta actuação era o Carreira, que pôs uma dúvida.
“É pá, desculpa lá, mas continuo a não ver como é que um médico, recebendo embora informações verbais ou escritas, vai aceitar essas informações como traduzindo uma verdade que é contraditória com aquilo que ele verifica através de exames técnico-científicos. Parece-me que vocês todos estão a subestimar os médicos militares. São tipos batidos em todas as golpadas desse género e não vão cair assim com essa facilidade que tu pensas.”
“Eu sou mesmo doente, é verdade. Esta é a ideia geral. Quanto aos pormenores, só vos garanto é que tenho os meus trunfos e que irei lançar a confusão na cabeça dos doutores.”
“Quer dizer que vamos ficar no suspense? Conta lá, conta como é para a gente fazer o mesmo”, pediu o Pais.
“Isso ia complicar o sistema do Simões e torná-lo, até, ineficaz. Já pensaste o que era aparecerem uma data de cardíacos? Aí é que os gajos começavam a desconfiar.”
“O Norberto tem razão. Vocês gozaram um bocado com a minha modalidade de não fazer nada, de não me cansar, sorna como lhe chamou o Rolando, mas garanto-vos que há-de dar resultado. É o Realinho, o filho da minha mãe que o garante.”
“Também me parece. Se todos fizessem sorna, tinham de fechar esta merda.”
Todos se riram com a piada do Rolando. Mas ele continuou mais a sério.
“Parece-me que esta modalidade do Realinho não é de desprezar. Só tem um inconveniente. Tem de ser adoptada por muitos para dar resultado. Se for só o Realinho, ou mais dois ou três, não dá nada. Eles são topados e isolados, sem outro efeito que não seja levarem na corneta.”
“Subverter isto tudo? Isso é perigoso. É uma forma colectiva de contestação. Ponham-se a pau com essa ideia.”
O Norberto, o Simões e o Rolando miraram o Carreira com curiosidade, parando de comer. Os outros também lhe lançaram um olhar interrogativo. Só eu continuei a comer, sem levantar a cabeça,  alheio ao alcance desta intervenção do ex-milícia.
“Estou, apenas, a fazer de advogado do diabo”, justificou-se o Carreira, manifestamente atrapalhado com os olhares que lhe lançaram.
O facto é que a conversa parou ali, agarrando-se todos à tarefa de comer. Como quem de repente se vê sozinho no meio de um silêncio incómodo, decidi falar.
“Eu estou um bocado desgostoso porque deixei ainda a meio  um curso a que me agarrara com unhas e dentes. Andava no 3°ano de Filologia Românica. Não sei, ainda, o que seria no futuro, se professor, se escritor, se outra coisa qualquer. Mas o que é facto é que eu estava a gostar daquilo e tenho pena de o ter deixado. Esforcei-me muito por fazer o 7°ano, marrei que me fartei. A minha preocupação era vir para a tropa como oficial. Eu sabia que tinha de vir, embora estivesse esperançado que não era já agora, que me deixavam acabar o curso. Não sucedeu, paciência. Não percebo é a vossa fobia em relação à tropa.”
“Não percebes?! Por onde é que tens andado, pá? Com certeza, andaste noutro mundo”, atirou-me o Pais no meio de uns gafanhotos.
“Também compartilho a estranheza do Aiveca pela vossa fobia. E podes estar certo, Pais, que não tenho andado por outro mundo”, o Carreira preparava-se para continuar, mas o Norberto interpôs-se.
“Vocês são é parvos. Então vimos para aqui perder três ou quatro anos dos melhores da nossa vida, passamos a ter milhentas possibilidades de levar um tiro nos cornos, salvo seja, podemos voltar à vida civil sem braços, sem pernas, sem olhos, sem colhões, não se riam, é pá, por tudo isto vocês acham que devemos gostar desta porra?”, e o Norberto abria os olhos, mais salientes ainda na cara branca, tingida de vermelho pela emoção e pelo vinho.
“Acho que interpretaste mal aquilo que eu e o Aiveca dissemos”, avançou o Carreira cautelosamente.
“Eu penso o mesmo que o Norberto”, disse o Simões.
“E eu também”, acrescentou o Realinho.
Ficou a pairar no ar uma certa falta de à-vontade. Eu estava encarnado que nem um pimento, as orelhas em brasa, e mantinha o copo da cerveja entre os lábios, como quem procura primeiro o que há-de dizer. O Rolando, no entanto, que já terminara de comer, cachimbo entre os dentes, olhava apreciativamente para todo o grupo, em especial para mim, e acabou por me interpelar de uma forma serena e conciliadora.
“Tu disseste que és de Lisboa, não é?”
“Sou. Isto é, nasci em Lisboa, mas passei a maior parte da minha vida na província”, mas não lhe quis dizer por que locais dessa província andara.
“Se calhar o problema é esse. Deves andar arredado daquilo que preocupa toda a malta da nossa idade, que é ir à guerra e poder morrer. É muito difícil para nós, de qualquer modo, vir para este casarão e obedecer a tudo o que nos quiserem mandar, nem que seja levar no cu.”
“ Aí pára! Isso não faço eu nem que me fuzilem!”
“Bocas, só bocas, ó Realinho. Até aposto que fazias isso e muito mais só para não te encherem a barriga de chumbo.”
“Espera aí, ó Simões. Deixa-me continuar a vender o meu peixe a este gajo”, e o Rolando virou-se novamente para mim, “o que eu queria dizer é que não podemos aceitar de braços abertos esta vida que vamos ter nos próximos anos. Porque não vai ser um mar de rosas, porque nada nos promete de bom. Pelo contrário. Não me digas que não concordas comigo. Como é que não consegues compreender que a malta não goste disto e procure safar-se desta ou daquela maneira?”
  Falou sempre calmamente, fitando-me sem hostilidade. Parecia mais empenhado em convencer o interlocutor do que em atacar as suas opiniões. Pegou novamente no cachimbo e na bolsa de tabaco e procedeu calmamente aos preliminares de todo o fumador de cachimbo. Já tinham vindo os cafés. Todos, menos eu, pediram bagaços para acompanhar. O ambiente geral no restaurante era de à-vontade e descontracção, ruidoso, os ocupantes das mesas já tinham almoçado, bebido bem. Estava-se na altura das piadas e das anedotas, das gargalhadas sonoras e prolongadas, do bater estrepitoso nas chochas e nas bordas das mesas. De momento a momento, fazia-se um silêncio, com um zumbido estilo mosca como fundo, mas que eram as conversas, o contar da anedota na fase da atenção, coincidente em todas as mesas. Mas logo surgia a gargalhada em coro, numa mesa primeiro, depois na outra, e na outra, ou em duas ou três ao mesmo tempo, parecendo obedecer a uma cronometragem. E era a cronometragem da anedota picante, do palavrão metido oportunamente, da obscenidade relatada com todos os matadores, a preceito. Tudo curto, necessariamente jogando no imprevisto e no peso das próprias palavras e situações. Todos se sentiam bem e estavam contentes, pelo menos aparentemente. Apenas um casal de meia-idade, em mesa ao canto da sala, parecia incomodado com o ambiente efusivo à sua volta. Comiam em silêncio, olhando reprovadoramente sempre que rebentavam as gargalhadas, e trocavam entre si olhares de concordância cúmplice, como quem já não necessita falar sobre o que os rodeia, para não se repetirem desnecessariamente um ao outro. Essa identidade de pensamentos sobre o que se passava, por um lado, a habituação a situações dessas, que, certamente, testemunhavam ciclicamente, fazia-os continuar a comer silenciosamente, embora com profundas críticas estampadas no rosto.
Eu, que estava de frente para o casal, já notara as recriminações silenciosas. Disse ao Rolando, que estava do outro lado da mesa:
“Há um casal de velhos atrás de ti que está farto de nos rogar pragas. Não te vires agora que eles estão a olhar para cá. Os olhos deles parecem setas. Não nos querem matar, com certeza, mas davam-nos umas boas palmadas, se pudessem. Devem sentir-se como num templo profanado. Se tivessem a coragem de Jesus Cristo, expulsavam-nos daqui a pontapé. Mesmo assim, não sei se não chamarão o criado para nos pôr na rua.”
Rolando ouvia-me de cachimbo entre os dentes, no meio de outras conversas que se tinham repartido por toda a mesa. Com a excitação da comida e da bebida, cada um queria contar a sua, sem dar grande importância ao que os outros diziam. Daí que, os temas da conversa que fora comum até aí passassem a ser base de diálogo entre os parceiros mais próximos ou mais a geito para ouvirem o que cada um queria, à viva força, dizer.
“É curiosa a tua comparação”, Rolando falou por entre dentes.
Não disse nada, mas interroguei-o com o olhar.
“Não é pelo seu sentido metafórico, que é capaz de condizer com o que se está a passar. Penso é que ninguém se lembraria de fazer essa comparação, no meio das mais desbragadas conversas que nos rodeiam.”
Corei mais uma vez, ficando visivelmente atrapalhado. No entanto, como quem se antecipa a uma pergunta iminente, com receio de ficar mais atrapalhado ainda, avancei:
“Veio-me à ideia. Se calhar, são influências da minha formação religiosa. É que eu andei num colégio de padres. Na verdade, não me ocorreu outra imagem que me fizesse lembrar esta vozearia tremenda, os risos, o tinir dos talheres e o olhar justiceiro daqueles dois defensores do cerimonial sagrado que, com certeza, representa para eles o almoço a dois, joelho contra joelho.”
“Está bem apanhado, sim senhor.”
O Rolando quedou-se pensativo, de olhar no vazio, mas eu interessei-me em continuar a conversa.
“Compreendo que as pessoas habituadas a virem almoçar aqui todos os dias, que serão na maior parte dias de sossego, compreendo que se sintam aborrecidas com tanto barulho, tanto mais que o vocabulário não é do mais vernáculo. As pessoas que trabalham encontram aqui uma forma de repouso, uma compensação à agitação das suas actividades no trabalho, uma forma de abstracção das chatices e aborrecimentos que lhes são impostos nas suas relações obrigatórias com os outros.”
   “Estás-me a sair um bom filósofo. Mas essa capacidade de compreensão não a tiveste há pouco, quando se falou aqui da tropa, dos incómodos e chatices que ela traz a todos, até a ti. Também disseste que te alterou os planos de estudo, não é verdade? Porque é que aceitas, então, passivamente esse incómodo e pareces não compreender que haja quem não os possa aceitar assim como quem chupa um rebuçado?”.
Rolando apontava-me o cachimbo com ar inquisitorial, mas retraiu-se quando viu que eu corava.
“Não leves a mal, que isto é apenas um gesto de estilo.”
“Se calhar exprimi-me mal há pouco. Não pretendia recriminar ninguém. Não queria criticar-vos, era apenas dizer o que eu próprio sinto. E é verdade que tenho alguns inconvenientes com isto tudo, mas não sinto fobia nem revolta. Aceito as vossas reservas e compreendo-as, não tenho absolutamente nada contra elas.”
“Mas olha que há quem tenha.”
As conversas acabaram e todos se levantaram quando alguém avisou que estava na hora. Cerca das duas da tarde, formou-se uma grande fila à frente de uma das portas que dava acesso ao quartel. 

6 de julho de 2011

217-A caserna 3 da EPI... e o "fantasma cagão"

Era um salão com alguns sessenta metros de comprido e quinze de largo, com um arco oval a meio separando-o em duas partes. A meio, numa das pontas do arco, ficava a porta de entrada, que servia de ponto de referência. À direita desta, ao fundo, na parede que limitava esse lado da caserna, ficava outra porta que dava acesso aos chuveiros e lavatórios. No lado oposto à porta de entrada havia várias janelas, literalmente cravadas nos flancos da abóbada oval da caserna, rentes ao chão, parecendo as patas de um bicho comprido de dorso arqueado. Permitia que, nos vãos assim formados, houvesse, em cada um, uma cama e um armário. Estes lugares, iluminados pela janela e com vista para o exterior - só para os telhados do convento, claro - tinham sido logo ocupados pelos primeiros a chegar. Os outros, à medida que iam chegando,  foram-se distribuindo pelas várias camas junto à parede e pelas que estavam em duas filas no meio. As camas eram metálicas e com colchões de arame, com um armário também metálico perto de cada uma.
Não foi fácil chegar até ela. A caserna 3 ficava no terceiro piso do convento. Foi necessário subir uma longa escadaria. Uma longa, larga e sólida escadaria com grandes lajes de pedra a servirem de degraus. Chegados ao cimo, andaram bem uns cem metros de corredor, também largo, parecendo forrado a pedra por baixo, por cima e pelos lados, até chegarem à tal porta que dava acesso à caserna. Em frente desta porta estendia-se outro corredor, mais pequeno que o anterior, mas grande, mesmo assim, para quem vive em casas de duas assoalhadas, ou menos. Num e noutro corredor havia outras portas além da da caserna, mas ninguém sabia nem ninguém lhes disse o que estava por detrás delas.
Os soldados-cadetes tinham sido distribuídos pelas casernas conforme a companhia a que ficavam a pertencer. Assim, a caserna 3 fora atribuída à 3ª Companhia do COM. Aí estavam o Aiveca, o Norberto, o Pais, o Simões, o Realinho, o Orlando, o Carreira e o Félix, que ficaram a pertencer àquela companhia. Isso porque estavam todos seguidos na bicha quando foram à atribuição dos números.
- "O meu pai, quando esteve na tropa, foi como soldado raso, é claro. Não passava de um trabalhador rural. Deram-lhe o fardamento todo, que não era nada igual a este, e deram-lhe também roupa interior, cuecas, camisolas e meias. Diz ele que a roupa interior era de pano cru, que até doía no corpo". O Aiveca falava a meia voz para o Pais, que estava na cama ao lado da dele. "Quando o meu pai queria vestir as cuecas de pano cru e cheias de goma tinha de as pôr em pé no chão, saltar para dentro delas e só depois as puxar para cima e apertar. Se tentava vesti-las sentado não conseguia, porque elas não dobravam".
O Pais riu-se.
- "Mas aqui não te vão dar roupa interior. Mesmo estas fardas vais ter de as pagar".
- "Pagar as fardas?! Mas como? Eu não tenho dinheiro para isso."
- "Vão-te descontar dinheiro ao fim do mês enquanto cá estiveres. Não recebes pré. Isto é, recebes um pré que te dá para beberes um café. O resto ficam com ele".
- "Mas que é isso de pré?"
- "Não sei se é esse o nome, ou se é soldo... sei lá. É o que os soldados recebem ao fim do mês".
- "E quanto é?"
- "É pá, sei lá... Para os soldados é uma merda, mas para os oficiais não é mau".
- "Então nós..."
- "Nós agora somos como soldados. O que vais receber se calhar nem chega para beberes uma cerveja. Olha, eu vou ficar bem lixado com isto tudo: sou casado, tenho responsabilidades. Guardei algum dinheiro antes de vir, até nem ganhava mal. Mas, mesmo assim vou-me ver enrascado".
"E eu? Como vai ser", começou o Aiveca a pensar. "Agora, nem os miseráveis mil e duzentos escudos da AGPL tenho...". Mas não teve tempo de ir mais longe.
- "Estou à rasca! Pessoal, vou cagar!"
Era o Realinho, em voz alta, numa cama perto. E largou rápido em direcção ao sítio dos lavatórios. Mas mais depressa voltou, muito atrapalhado.
- "Aquela merda não tem cagadeiras, só tem lavatórios e chuveiros. Quem é que sabe onde são as cagadeiras?"
- "O gajo que estava aqui disse que eram fora da caserna, ao fundo corredor ali em frente", disse o Norberto. O gajo que tinha estado ali era o faxina que acabara de fazer a limpeza da caserna na altura em que chegáramos. 
O Realinho desatou a correr porta fora em direcção ao corredor.
Isto faz-me lembrar, agora, de umas cenas que se passaram quando lá estávamos já há uns meses, não me recordo exactamente quantos.
Houve um dia em que o faxina foi logo de manhã, como era hábito, fazer a limpeza dos chuveiros. Os "nossos cadetes" já tinham marchado para a instrução, estava na hora. Quando levantou uma das grades de madeira de um dos chuveiros olhou horrorizado para as mãos. Estavam cheias de trampa!
"Filhos da puta, cagaram no chuveiro!", terá dito, como qualquer um perante aquilo. Foi fazer queixa ao comandante da companhia, o capitão Caramelo.
Este mandou reunir a companhia à hora de almoço.
- "Um dos nossos cadetes fez uma coisa muito grave, e há que encontrar o culpado. Se não, ninguém vai a casa no fim de semana!", ameaçou. 
Um sussurro perpassou pela formatura. Que terá sido?... Alguém se meteu com alguma das mulheres?... Nessa altura já todos sabiam que vários oficiais e sargentos viviam com as mulheres nos quartos da zona da caserna. Mas o capitão continuou.
- "É que alguém fez as necessidades nos chuveiros da caserna 3. É uma vergonha! Não pode ser! Fico à espera que o culpado se acuse!". Disse ao segundo-comandante para mandar destroçar.
A malta riu à fartazana. Comentou. O que é que querem!? As casas de banho estão ao fundo do corredor e, quando um gajo está muito à rasca, não tem alternativa...
Na manhã seguinte, apareceu nos chuveiros da caserna 3 uma inscrição:
E, dessa vez, o faxina teve cuidado. Mas fez novamente queixa ao comandante da 3ª do COM.
Face a isto, e como o cagão não se tivesse apresentado, a companhia foi novamente formada. Mas foi o tenente Chung, que era o segundo-comandante, quem se dirigiu à formatura.
- "O nosso capitão está tão envergonhado que não quis dirigir-se a vocês. Quer que o culpado se manifeste. Diz que não o vai castigar. Quer, apenas, que ele ponha um bilhete na caixa da companhia a dizer que foi ele".
Muito enfiado, o bom do tenente Chung (era mesmo bom, como homem e como militar) mandou destroçar. A caixa da companhia lá ficou sem nada e foram todos de fim de semana. E nunca se soube quem era o "fantasma cagão"...
Foi o Braz, que esteve em 1967/1969, como alferes da CCav1693, na Guiné, primeiro em Nova Lamego e depois em Bula. Vive agora nos EUA.

5 de julho de 2011

213-Entrada no COM

Às duas da tarde havia uma grande bicha de mancebos a uma das portas que dá acesso ao quartel. Tudo à civil, de malas e sacos, era evidente que se preparavam para assentar praça e frequentar o chamado 1º Ciclo do Curso de Oficiais Milicianos, isto é, fazer a recruta, tirar a instrução básica.
As portas abriram-se e eles foram entrando para um salão de traça majestosa, com mesas e cadeiras de mogno, num estilo qualquer de luíses.
- "Os nossos cadetes mantenham-se em fila e vão entrando para aquela porta lá ao fundo. Entretanto vão tirando a roupa."
Os "nossos cadetes" tinham entrado para o salão quase em silêncio, influenciados pelo ambiente de penumbra e majestade, pelo sentimento de expectativa do imediato, dado que, quanto ao futuro, estava tudo já traçado. Era ali que iriam ficar, durante alguns meses pelo menos. Alguns militares fardados, das mais variadas patentes e vários distintivos, ajudavam a dar àquele salão um estatuto de respeitabilidade para os recém-chegados.
Levantou-se um certo burburinho, em surdina, quando foi anunciado para se despirem. E houve um deles mais afoito que perguntou:
- "Temos que nos despir todos? Temos de tirar a roupa toda?!..."
- "Claro que é! Se fosse só para ver as perninhas era só arregaçar as calças... Queremos saber se têm os colhões lá no sítio e se está para aí alguma menina disfarçada!", e o militar que assim falava olhou para os cadetes com ar de poucos amigos.
- "Quando chegar ao pé daquele cabrão meto-lhe os tomates na mão para ele ver se pesam ou não", rosnou o Simões.
- "Foda-se que já estou farto de fazer strip-tease por causa desta porra da tropa!", e o Realinho começou a despir as calças.
Encontravam-se todos juntos na bicha: Simões, Realinho, Carreira, Norberto, Orlando e Aiveca. Este parecia um bocado atrapalhado, mas, tal como os outros, lá se foi despindo. O barulho, resultante de roupas e sapatos a cair, de comentários jocosos e pouco simpáticos para o tipo que tinha dado a ordem, aumentou, deixando de ser surdina.
- "Caluda!", berrou o indivíduo. "Isto aqui não é nenhuma casa de putas! Ninguém lhes disse para falarem. Os nossos cadetes agarrem na roupa e nos sapatos e pôem-se em bicha de pirilau. Ninguém sai da bicha, ouviram? Nem que esteja a ser enrabado pelo vizinho de trás."
Era um tipo de meia altura, bigodinho à passa-piolho, tão moreno que mais parecia preto. Tinha um blusão de cabedal verde, com dois galões, um largo e um estreito. Dizia isto tudo sem se rir.
Uns sorriram-se pela piada, outros remoeram palavras ofensivas e olharam-no de soslaio, mas calaram-se todos. E puseram-se em bicha... de pirilau, todos completamente nus.
- "Olha lá essa merda, pá...", e o Realinho deu com os calcanhares nas canelas do Norberto. "Chega-te para lá."
- "É pá, está descansado que eu não gosto."
Uns encavacados, outros completamente à vontade, como se estivessem a passear no jardim, foram, uma um, entrando na tal sala que ficava no outro extremo do salão, Lá encontrava-se um tipo sentado a uma secretária que olhava os recém-chegados, um de cada vez.
- "Encha o peito de ar... Faça força. Vire-se de costas."
Eram medidos e pesados. Tomava notas, dava ordem para vestirem só as calças e passava-os para outro indivíduo.
Este mandava-os sentarem-se num banco comprido, lado a lado. Vinha outro com uma data de agulhas.
- "Isto não doí nada", e, pim-pim-pim, espetava uma nas costas de cada um. Vinha outro com uma seringa enorme e dava uma esguichadela em cada um dos sentados.
- "O que é isto?", arriscou o Norberto.
- "É vacina contra todos os males. Os nosso cadetes não vão ter doença nenhuma", explicou o esguichador.
Mandaram que vestissem a camisa e passassem para outra mesa. Aí perguntavam o nome e davam um número.
- "Passem aquela porta e esperem lá fora".
Era um corredor enorme: tinha alguns cem metros de comprimento e aí uns cinco de altura. Aiveca nunca tinha visto nada assim. Em altura assemelhava-se à nave central de uma catedral. Mas, é claro, seria uma nave excessivamente comprida, como se o altar estivesse lá ao fundo, mal se vendo, e os devotos aqui, sem ouvirem o que o padre diz. De um lado e de outro havia portas de ombreiras majestosas, altas e espaçosas; havia também escadarias, de um lado e de outro, mais ou menos a meio do corredor. Tudo em pedra, em grandes blocos de pedra. No chão, grandes lajes. O mesmo nos degraus e corrimãos das escadarias. Até meia altura das paredes placas de mármore polido. No extremo onde se encontravam os cadetes, na expectativa do novo passo a dar para a sua integração, havia, a meio da parede, do lado direito, uma placa de mármore encravada no cimento e argamassa caiados que cobriam a metade superior da parede. A placa tinha gravada uma palavra francesa - "Lacouture".
- "Os "nossos cadetes", agora, agora vão tirar um curso de costura". O Realinho apontou para a placa, com uma cara muito séria, imitando o tipo autoritário e moreno que tinham encontrado logo à entrada.
Toda a malta se riu. Os cerca de trinta ou quarenta cadetes estavam todos inspeccionados. Tinham-se agrupado no princípio do corredor e estavam à espera do próximo acto. Grande parte estava já vestido novamente, alguns abotoavam os últimos botões ou apertavam o cinto ou os sapatos.
- "Este Realinho é mesmo palerma", disse o Carreira. "Isto não quer dizer costura".
- "Ouve lá, pá: pensas que eu sou algum analfabeto, ou quê?! "Couture" em franciú quer dizer costura. O meu sétimo ano ainda me deu para isso."
- "Quer dizer, mas isso aí, tudo pegado, "Lacouture", tem outro significado". O Carreira falava a sério.
- "Pois não sei, pá. Se "couture" é costura, "Lacouture" é a costura, não é? É ou não verdade?". O Realinho deu meia volta interrogando os presentes. "Tu, que és de românicas, diz lá se é ou não verdade".
Aiveca percebia que o Realinho estava a brincar com aquilo, mas também estava um bocado intrigado com aquele nome ali na parede. A verdade é que aquilo, aquele corredor, não era nada uma sala de costura. Para ele, tinha sido um alívio poder vestir-se novamente, e deixar de ser mirado e remirado, à frente e atrás. Já quando fora a primeira vez à inspecção, em Setúbal, fora a mesma vergonha. Agora, novamente. Mas, passado isso, estava satisfeito e descansado. Pensou que era melhor alinhar na brincadeira.
- "É verdade, sim senhor. Vem no Larousse, página 90, linha 69."
Foi a gargalhada geral. Aiveca riu também, de satisfação. O Carreira é que já não estava a gostar nada, pois reparou que estavam a gozar com ele.
- "Ah, grande Aiveca!", o Norberto deu-lhe uma palmada nas costas. "Dizes poucas, mas quando saem têm piada".
- "Essa da linha 69 está bem metida", o Simões ria-se apoiado ao Realinho.
- "É a melhor linha para costurar", disse este.
- "...e a melhor posição", acrescentou o Simões.
(...)
Saiu, finalmente, o último cadete da sala de inspecção. Atrás dele vinha um tipo com galões em forma de cunha nos ombros. "Deve ser sargento", pensou Aiveca, "já tenho visto aqueles galões em filmes de guerra".
- "Os nossos cadetes formem duas filas e depois venham atrás de mim. Vá, os dois primeiros aqui à minha frente. Depressa que temos pouco tempo".
As filas foram feitas, de uma forma casual e desordenadamente. O único critério era ficar junto dos agora conhecidos, das amizades acabadas de fazer.
- "Ó nossos cadetes, isto parece uma montanha russa, aos altos e baixos. Vá lá, os baixos para a frente e os altos para trás. O nosso cadete aí no meio da fila da direita... está aí escondido no meio de dois matulões... venha cá para a frente!... Vá depressa, mexam-se!
Nova mexida, confusões e barafunda. (...)
- "Assim está melhor. Escapa. Agora vamos lá ao depósito de fardamento, onde lhes será entregue a farda número um e a farda número dois, que é o uniforme de trabalho. Depois de receberem os fardamentos, os nossos cadetes esperam no corredor, que é para lhes serem indicadas as casernas respectivas. Todos perceberam?... Bem, parece que sim. Venham atrás de mim, todos em fila.
(...)
- "Isto é uma tropa fandanga. Olha-me para esta cambada de nabos, a começar por ti. Vocês,  metidos nessa merda dessas vestimentas e a desfilarem ali no meio dos saloios de Mafra deviam pô-los a mijar de rir."
Aiveca mirou-se e remirou-se e acabou por dar razão ao Pais. Era raro aquele cuja farda número um lhe estava mais ou menos a quadrar com o físico. Quase todas largonas, desproporcionadas. Ou nadavam dentro das calças ou pareciam miúdos a provar o casaco do pai.
O Pais falara assim porque se recusava a vestir a farda.
- "Eu sei que vou ter de andar com esta merda vestida, mas, ao menos, só a visto depois de a mandar arranjar quando for a casa. Não quero fazer triste figura, e ainda por cima com uma coisa que tenho de aceitar contrariado."
- "Também me parece, pá. Vamos agora andar aí feitos palhaços, é?". E o Norberto, dentro das calças, esticava uma cintura onde cabia outro igual a ele. "Eu também não vou vestir isto assim".
À roda, toda a gente concordou, de uma maneira ou doutra. Cada um deu mostras da sua figura ridícula com as fardas distribuídas pelo cabo quarteleiro aos soldados-cadetes, após fazer uma apreciação rápida das medidas do físico de cada um.
- "Isto é a olhómetro, senhor cabo?". O Realinho levantara logo esta questão ao receber as fardas.
- "O nosso cadete desculpe, mas eu não posso estar aqui a fazer provas a cada um. O melhor que têm a fazer é arranjarem alguém lá em casa que faça uns ajustamentos no fardamento".
É claro que o "senhor cabo" tinha razão, toda a gente achava que sim. Mas também todos aqueles que se sentiam ridículos achavam que não deviam passear-se com tais adornos.
Não havia grandes problemas quanto à farda de trabalho, a número dois. Era de caqui verde, calça e camisa, com um barrete esquisito, mas tá bem. O pior era a farda número um, a tal de passeio: calças e blusão cinzento, camisa e gravata, e um boné com pala dura. Esta, sim, é que os fazia ridículos, parecendo polícias mal jeitosos, balofos.
- "Os nossos cadetes têm azar. O próximo  curso, daqui a três meses, vai ter já dos novos fardamentos, verdes, calça e blusão, e boina castanha".
- "Obrigadinho, ó senhor cabo, mas isso não me serve de consolo. Os gajos não me deixam ir para casa se eu lhes disser que não gosto desta farda, e que só quero vir para a próxima."
Ninguém achou piada a esta saída de alguém do meio do grupo.
(...)

4 de maio de 2011

137-Preparação para a guerra- I

Naquela tarde fria de Janeiro entraram no grande casarão cerca de 800 "soldados cadetes" para frequentarem o COM (Curso de Oficiais Milicianos). A ala sul do Convento de Mafra recebeu essa gente toda tal como outrora recebia os candidatos à vida contemplativa e de oração, embora não em tão grande número. Só que estes "noviços" iam ser iniciados não para a contemplação mas para a acção, não para rezar pela sua salvação e pela dos outros homens mas para estarem preparados para matar outros homens e também para serem mortos. A religião ali praticada agora era a guerra, as orações foram substituídas por palavras de ordem militares, os livros sagrados chamavam-se agora RDM, Manual de Instrução, Manual do Oficial Miliciano, Manual de Educação Cívica e Militar para uso nos COM e CSM. Enfim, numa mão a cruz noutra a espada, para a defesa da civilização cristã e ocidental. Trata-se apenas de acenar e actuar umas vezes mais com uma mão, outras vezes mais com a outra. Não há, como se vê, nada de estranho ou anormal, nada que deva espantar ou chocar.

Toda aquela gente passou pela inspecção, todos nus, foi visto se eram quebrados ou se tinham o pé chato. Conforme a ordem de entrada foi-lhes dado um número e, conforme este, foram agrupados por cinco companhias que, no seu conjunto, formaram o Batalhão de Instrução. De acordo com as companhias em que ficaram integrados foram distribuídos por várias casernas, situadas nos vários pisos do convento.

- "Isto é uma tropa fandanga. Olha-me para esta cambada de nabos, a começar por ti. Vocês metidos nessa merda dessas vestimentas e a desfilarem ali no meio dos saloios de Mafra deviam pô-los a mijar de rir".
O Aiveca mirou-se e remirou-se e acabou por dar razão ao Pais. Era raro aquele cuja farda número um lhe estava mais ou menos a quadrar com o físico. Quase todas largonas , desproporcionadas. Ou nadavam dentro das acalças ou pareciam miúdos a provar o casaco do pai.
O Pais falava assim porque se recusara a vestir a farda.
- "Eu sei que vou ter de andar com esta merda vestida, mas, ao menos, só a visto depois de a mandar arranjar, quando for a casa. Não quero fazer triste figura e, ainda por cima, com uma coisa que tenho de aceitar contrariado."
- "Também me parece, pá. Vamos, agora, andar aqui feitos palhaços?", e o Norberto, dentro das calças, esticava uma cintura onde cabia outro igual a ele. "Eu também não vou aceitar vestir isto assim".
À roda, toda a gente concordou, de uma maneira ou doutra. Cada um deu mostras da sua figura ridícula com fardas distribuídas pelo cabo quarteleiro aos soldados cadetes, após fazer uma apreciação rápida das medidas do físico de cada um. 
- "Isto é a olhómetro, senhor cabo?".
O Realinho levantara logo esta observação, aquando da altura da distribuição do fardamento.
-"O nosso cadete desculpe, mas eu não posso estar aqui a fazer provas a cada um dos nossos cadetes. O melhor que têm a fazer é arranjar alguém lá em casa que faça uns ajustamentos no fardamento". 
É claro que o "senhor cabo" tinha razão, toda a gente achava que sim. Mas também todos aqueles que se sentiam ridículos dentro daqueles fardamentos achavam que não deviam passear-se com tais adornos.
Não havia granes problemas quanto à farda de trabalho, a número dois: era d caqui vaerde, calça e camisa, com um barrete com um formato bastante esquisito. O pior, de facto, era a farda número um, a farda de passeio: calças e blusão cinzentos, camisa e gravata e boné com pala dura. esta, sim, é que os fazia ridículos, parecer polícias mal geitosos, balofos. 
- "Os nossos cadetes têm azar. O próximo curso, daqui a três meses,vai ter já dos novos fardamentos, verdes, calça e blusão e boina castanha".
- "Obrigadinho, ó senhor cabo, mas isso não me serve de consolo. Os gajos não me deixam ir para casa se eu lhes disser que não gosto desta farda e que me deixem vir para o próximo":
Ninguém achou piada a esta saída de alguém do meio do grupo.