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11 de janeiro de 2012

347-A agricultura na Guiné

Bem conseguida resenha de Fernando Rogado Quintino sobre as práticas agrícolas das várias etnias guineenses e dos utensílios por elas utilizados. Diz-nos da estrutura social das suas gentes e da economia rural, do trabalho das crianças e das mulheres, das campanhas agrícolas e o seu calendário. Também da natureza dos solos e das várias culturas (arroz, sogro, milho, mancarra...), da utensilagem usada e da sua confecção. Muito esclarecedor para quem se importar em ter conhecimento de como é feita a agricultura entre os povos da Guiné. Rudimentar mas muito adaptada às condições sociais e materiais das suas gentes. Ainda hoje é assim...
Foi publicado em 1971, mas os vários dados estatísticos que apresenta foram colhidos do Recenseamento Agrícola realizado em 1953 por Amílcar Cabral e que está publicado em 214 páginas do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa nº 43, de 1956. Esse trabalho deu-lhe profundos conhecimentos da situação do povo da Guiné. Diz ele, entre outras coisas, no relatório que fez:
«O conteúdo do relatório de qualquer recenseamento limita-se, em geral, à apresentação dos quadros resultantes dos apuramentos gerais e especiais e à exposição sucinta do método que serviu de base ao trabalho e das condições em que o mesmo foi realizado. O relatório dum recenseamento deve ser um elemento-base de que se passa a dispor, enquanto tiver actualidade, para, pela análise e interpretação dos números nele contidos, estudar não só o estado momentâneo, mas também as perspectivas de evolução ou o dinamismo interno da realidade a que se refere. Este relatório contém, além do indispensável, algumas das considerações que decorrem imediatamente da análise dos números obtidos pelo recenseamento agrícola. Muitas outras poderiam ser feitas - e sê-la-ão, por certo ­para completa consciencialização dos conhecimentos resultantes do Censo Agrícola.
Parece ao signatário que a conclusão do recenseamento agrícola deve transcender a mera satisfação de um compromisso contraído no campo internacional. Representa a aquisição de uma série de conhecimentos que podem e devem servir de base à estruturação do fomento e do progresso agrícola da Guiné.
Os números aqui apresentados resultaram de um longo trabalho de campo durante o qual se percorreu a Guiné de lés a lés, estudando, medindo e inquirindo. Traduzem, no seu conjunto e na medida em que um trabalho como este o pode traduzir, uma realidade: a realidade agrícola da Guiné. Para que tenham utilidade, para que o Recenseamento Agrícola seja uma obra útil, o conhecimento desses números deve servir a melhoria dessa realidade.
Na esperança e na certeza de que estavam realizando obra útil, os que tiveram de estudar, planear e efectuar o Recenseamento não se pouparam a esforços e alicerçaram o seu trabalho na honestidade e no consciente desejo de cumprir.
Bissau, Dezembro de 1954. - O Encarregado do Recenseamento Agrícola, Amílcar Lopes Cabral, Engenheiro Agrónomo.»
Logo abaixo podem ser vistos alguns desenhos, fotografias e estatísticas  contidas neste livro e que reflectem bem o conteúdo do trabalho, além de servirem como recordação para quem conheceu a Guiné e o seu povo, nomeadamente os ex-combatentes da guerra colonial lá travada.


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9 de janeiro de 2012

346-O gomil de prata

É um conto deste livro de Fausto Duarte (o de "Auá"...):
Tem este conto que eu trancrevo e mais quatro: Os degredados [dois degredados para a Guiné], Evamaria [uma polaca que quer matar um general alemão], Renúncia [dois ingleses no mar, barco torpedeado, uma história de amor...], Regresso [o regresso à Guiné +para visitar a tumba do alferes Francisco de Freitas Moniz, morto em combate], e Ressureição [uma tragédia banal].  Este parece-me o de mais interesse.
Este conto tem a forma de um conto a um amigo. Que é ele próprio, referido-se no início às críticas a "uma crónica curiosís­sima sobre a Guiné Portuguesa firmada por teu nome".
A obra foi impressa, para a Editorial Inquérito, em 22 de Maio de 1945 no Centro Tipográfico Colonial, Lg. Rafael Bordalo Pinheiro, 27 e 28, em Lisboa. Recordo que a 7 de Maio desse ano se deu a rendição do governo alemão, depois do suicídio de Hitler a 30 de Abril. A obra já estaria escrita, portanto.
O exemplar tem aquele carimbo da Biblioteca Popular de Lisboa. Esta biblioteca foi criada em 1 de Abril de 1918 e extinta, porquê não sei, em 28 de Julho de 2001. O seu espólio relativo a 1911-1950 está na Biblioteca Nacional e o relativo a 1951-2001 na Torre do Tombo.
Sobre Fausto Duarte e a sua obra podem ler o que diz Leopoldo Amado em http://coisasdaguine.blogspot.com/2011/12/311-literatura-colonial-guineense.html.



O GOMIL [jarro para água] DE PRATA
Meu caro amigo:
Não sei quando e onde li uma crónica curiosís­sima sobre a Guiné Portuguesa firmada por teu nome, que de golpe foi descoberto pelos telescópios da crítica no apertado céu literário da nossa terra como estrela de grandeza primeira. Tão grande in­fluência exerceram em mim as cores de que te ser­viste para pintar estranhezas, que à beleza rebusca­da e artificial das paisagens europeias preferi o ver­de primitivo e desordenado de palmeiras e tamarin­dos, a vida singela do indígena enquadrado na mu­ralha alta de hábitos milenários, e o esforço - que dizes ser ignorado -- dos colonos, mancha exótica no grande formigueiro humano que é hoje a África.
Da Guiné, ou melhor das Conquistas, nunca pas­sei do que me ensinaram os compêndios escolares e o acaso de uma ou outra leitura respigada dos jornais. Tal entusiasmo puseste, porém, na pintura dos quadros africanos, tal viveza no colorido das ima­gens, que me abraçou a convicção de que só nas latitudes próximas do equador valeria a pena viver a vida. E no jeito de quem se despede do mundo, do seu «mundo», disse adeus ao Chiado e parti em guisa dos que não morrem sem ter descoberto qual­quer coisa na vida, ainda que seja um princípio fi­losófico ou uma doutrina política.
No barco ronceiro a que nada têm a invejar as primitivas máquinas de Fulton e que navegava cri­vado de luzes em ambos os bordos sinalizados com as cores nacionais - não fossem os submarinos na­zis confundi-lo com a boa preza britânica - depa­rou-se-me uma fauna humana díspar, heterogénea, confusa, dividida por classes que se ignoravam, três castas mais diferenciadas do que as que en­xameiam a Índia. Em todas elas minava, porém, esse desconsolo tão visceralmente português. Vi ali vaidades e despeitos, muita malícia ou antes malignidades mal dissimuladas, e foram-me reve­lados segredos tisnando reputações.
Quando o tédio me levou à proa e vi grupos de gente miseranda entregue ao devaneio, à fantasia de criar a umas centenas de milhas uma terra onde tudo seria extraordinariamente fácil, lembrei-me que ela afinal pouco se diferenciava dos emigrantes de há séculos, dos aventureiros das naus «que iam como carneiros, a monte, nas toldas, expostos ao sereno mortífero das noutes, sem cama para os en­fermos, respirando o ar podre das cobertas»...
Tive, contudo, a boa fortuna de partilhar a mes­ma cabina com o único indivíduo com quem se po­deria conversar a bordo: um comerciante culto, de educação primorosa, apaixonado por cousas de África, que nunca tivera assento em Conselhos de Governo, e soubera com elegância e agilidade espiritual furtar-se às solenidades palacianas. Sua mala guarda-roupa dissera-me, através de alguns rótulos coloridos, por que países viajara pela Euro­pa atacada de loucura. A linha dos ombros mostra­va que sabia vestir uma casaca. Tinha boas manei­ras, o que o distinguia do resto dos passageiros. Desbobinara durante esses longos dias de viagem perante os meus olhos extasiados toda a babelesca confusão que é a Guiné.
Faltavam poucas horas para chegarmos ao termo da nossa viagem, quando descemos pela última vez à cabina. Recolhi à pressa alguns artigos de toilete, afivelei as duas malas e o saco de viagem e, atra­vés da vigia, observei as terras baixas, marginadas de palmeiras. O meu companheiro debruçado sobre uma mala de couro da Rússia estava inteiramente absorvido na contemplação de qualquer cousa que eu não conseguia descortinar. Entre mim e o objecto de sua admiração interpunham-se seus ombros lar­gos, a sua figura esbelta que envergava então um fato branco de corte impecável. Um suspiro breve, quase imperceptível, a sua imobilidade e a atenção concentrada na parte interior da mala, despertaram-­me a curiosidade. Sabia-o céptico, desiludido por alguns anos de África. Êle adivinhou o meu interesse, sentiu o meu olhar sobre a nuca. Fechou a ma­la. Seus dedos procuraram as chaves. Hesitou um instante, e como que decidido por qualquer súbita resolução abriu-a novamente.
- Quer ver?
- ?!
Afastou-se para o lado e suas mãos apresenta­ram-me um gomi! de prata, com incrustações em ouro, cujo brilho e elegância de desenho do mais puro tipo oriental me deslumbraram. Era um objec­to raro, precioso, que o mais exigente coleccionador de antiguidades ambicionaria possuir para regalo dos olhos e da paixão por tudo quanto a beleza e o tempo marcaram de modo indelével.
Desejoso de ver de perto o objecto de sua singu­lar admiração avancei um passo e adiantei a mão direita para o segurar. Logo o seu braço se interpôs. E como eu o olhasse estupefacto, explicou aflito:
- Não lhe toque, por amor de Deus! Você pode­ria ser vítima de uma fatalidade.
- Por que razão? perguntei estranhando a cre­dulidade surpersticiosa em um homem como ele. - Tabu! confessou penalizado José de Castro - assim se chamava o meu companheiro de viagem.
E depois indo ao encontro do meu assombro, das ideas que me assaltavam, propôs:
- Vamos para o deck. Lá em cima lhe contarei a história. Temos tempo. Mas antes disso leia o que aqui está escrito. Cuidado. Não lhe mexa! Faça-me esse favor. Depois compreenderá o motivo. Viu? Repare nestas letras. O quê? Ah! sim ... Não com­preende a caligrafia em uso no século XVII? Eu ex­plico. Aqui em cima, na primeira linha, veja: «Ma­ria de Vilaldo». Da melhor nobreza do tempo. Era mulher de um capitão-mor de Goa. Depois, entre os dois pontos em que esta asa tão admirável pelo fino traço de suas curvas parece querer desprender-se do gornil, uma data: «1603». E em baixo um no­me: «Santa Teresa». Confesso, meu caro amigo, que não é descabida a sua admiração. Sucedeu-me o mesmo. Quando conhecer o drama que se liga a estas letras e números riscados penosamen e com um instrumento de ponta, o seu interesse aumentará.
Batido pelos raios do sol o metal lampejou. José de Castro apressou-se a embrulhá-lo com cautela e delicadezas de namorado em um pano de seda, e, cuidadosamente, fechou a mala. Subimos ao con­vés. O ar que ali se respirava já não tinha a mesma leveza. A terra estava próxima. Estranhei pela pri­meira vez o meu companheiro de viagem. Seus olhos estavam tristes. Confesso que me senti atraído por aquele mistério que suas palavras permitiam entre­ver. Passeámos na coberta durante uns minutos sem trocar palavra. Meus olhos vaguearam ao acaso pela baía. Ao fundo, pintadas de amarelo ou cin­zento, casas insignificantes, sem o mais leve traço de arquitectura tropical como eu sonhara ao ler uma revista estrangeira com fotografias da cidade java­nesa de Batávia. Alguns dongos deslocando-se sob a pressão da remada parecia aflorarem apenas à su­perficie suja do rio que lembrava, pela cor, água estagnada. Um grito lançado de um barco que ia partir trouxe-me o primeiro contacto com o nativo. Seguiu-se-lhe um coro de vozes tocadas de melan­colia. Era assim talvez que os pretos abafavam suas amarguras quando os negreiros ali aportavam e os metiam a bordo para os deixar do outro lado do grande oceano.
José de Castro todo entregue ao seu cuidar nada dizia. Depois, como se a mesma decisão nos co­lhesse de chofre, entrámos para o bar. O criado cor­reu solicito.
- Traga whisky! - ordenou ele.
Acendemos os cigarros. José de Castro ajeitou o vinco das calças, ergueu o rosto, olhou-me de fren­te, e, sorrindo, como que refeito duma penosa im­pressão, falou:
- Há cinco anos um negócio de oleaginosas obri­gou-me a ir até Uracan, uma das ilhas do Arquipé­lago dos Bijagós. Você verá que são estes os indí­genas de hábitos mais curiosos de toda a Guiné. Depois de ultimado o assunto que ali me levara per­corri a ilha a pé. A uma dúzia de quilómetros do porto fui surpreendido pelo ruído do tantã, e logo a seguir se me deparou uma aldeia acogulada de povo. O nativo que me acompanhava e conhecia o dialecto local indagou o que era e trouxe-me a novidade: o chef estava a morrer. Esperava-se a todo o instante o desenlace. Aproximei-me. Quis ver o quadro. Admira-se? Saiba que nunca me re­pugnaram os hábitos deles .
O criado voltara com os copos e a garrafa em cujo rótulo se destacava o nome do fabricante es­cocês: John Walker. Serviu-nos e retirou-se discre­tamente. Fizemos mecanicamente a saüdação habi­tual:
- Chim, chim!
- Chim, chim!
José de Castro pousou o copo. A luz punha reflexos de ouro na preciosa bebida. O aroma do tabaco loiro impregnava o ambiente de um odor agradável. Ouviam-se os passos apressados da marujada que eu distinguia através duma janela com cortinas amarelas presas por cordões de seda.
- Entrei na palhota. Os indígenas não se opuse­ram, continuou José de Castro, pousando novamen­te o copo na mesa e retirando o cigarro do cinzeiro. E vi sobre um miserável catre a figura torturada de um homem de meia idade. Tomei-lhe o pulso entre os dedos e soergui-lhe as pálpebras. Logo adivinhei a extensão do mal. Não se espante, meu caro amigo. A África é a grande rnestra da vida. Aqui, o isolamento e a necessidade dão invejável soma de experiência. Tirei do estojo uma seringa e dei-lhe uma injecção de soro antiofílico. Aquelas           ilhas são verdadeiros ninhos de cobras, Quem andar por lá tem de estar prevenido. Decidi aguardar a evolução do mal. Dois dias depois o nativo sorria, agrade­cido. Falou-me e não entendi. Chamei o criado. Entretanto o chefe Ievantara-se com grande difi­culdade, e de um pote de barro retirou o gomil de prata que você há pouco viu, enrolado em panos su­jos. É curioso ver como aquela gente bem dotada pela natureza, inteligente e sofredora, com um sen­timento claro de independência, viril e sã, não tem a menor noção de higiene. Pois bem, o chefe, como eu dizia, tomara o gomil e pôs-mo na mão. Como me visse atónito disse ao criado que mo oferecia. Era uma coisa que pertencera ao pai, ao avô e por este herdado de outros ascendentes. Sabia que um deles o encontrara enterrado; que pertencera aos brancos ali chegados num grande barco; que toda a sua gente morrera de morte violenta. E porque fora pertença de um homem da raça daquele que o salvara, devolvia-lho, na certeza de que o mal teria com isso o seu fim.
José de Castro sacudiu a cinza do cigarro. Uma ruga ensombrara-lhe a testa.
- Abandonei a palhota e prossegui no meu cami­nho. Andei pela ilha durante uns dias, encontrei restos de uma bombarda, de dois berços – peças curtas que se usavam ao tempo - e com informações imprecisas, detidas pelos anos, procurei descobrir, como um sábio que na posse de um simples osso reconstitui o esqueleto de um animal antediluviano, o fio inicial do enredo. Sim, meu caro. Eu pressen­tia, ou melhor tinha a certeza de que essas letras e números me conduziriam à verdade, rematou ele indicando ao criado os copos vazios.
- E soube alguma coisa? - preguntei interessado enquanto o criado nos servia.
- Estou hoje de posse da verdade. Para isso tive de ir a Lisboa.
Ante o meu cenho franzido, a minha expressão interrogativa senão duvidosa, de espanto perante a inesperada informação que dava novo rumo ao caso, êle persistiu:
- Regresso de Lisboa, como vê. Freqüentei bibliotecas, analisei, comparei textos, narrativas de nossos feitos no Oriente, e depois de muito meditar achei a solução do problema. Lembra-se da data e dos nomes? Ainda bem. Estes foram os .principais elementos, o começo do enredo. A leitura casual de ignorados documentos forneceu-me o resto. Quer ouvir?
Fora aumentara a azáfama da chegada. Os pas­sageiros ocupados com a bagagem, com as preo­cupações do desembarque, tinham esquecido o bar. Era o único recanto sossegado a bordo. Tínhamos sorte. Se o «barman» não estivesse ali a agitar o «shaker» o silêncio seria quase absoluto.
- Em 1603, a nau «Santa Teresa», de regresso da Índia, naufragou perto da ilha de Uracan, atraí­da de noite por uma fogueira feita com falsidade por indígenas, à maneira de que praticavam os povos do litoral mediterrânico, mestres na arte do embuste. Julgavam os marinheiros ter na frente gente amiga. Como necessitassem talvez de fazer aguada, aproa­ram na direcção da luz. Não é difícil imaginar o caso. Gente com meses de viagem longa e tormen­tosa, em um barco pequeno, sem o menor conforto. Uma luz no meio da desesperança da rota sem fim. Céu e água. Vários tons de azul. Sol, noites estre­ladas e depois sol novamente. E o mar imenso sem­pre em frente das pupilas ardentes, dos olhos ensaü­dados, a encher a alma de angústia. Aquela luz devia ter representado um alto no sofrimento das pessoas que viajavam na nau.
José de Castro levou o copo aos lábios, mas não bebeu. Estava sob a impressão da evocação do drama cujas cenas lhe afloravam aos lábios com facilidade como se ele o tivesse vivido.
- A bordo devia estar pela certa algum sacer­dote. Era hábito. Ele devia ter abençoado o luzeiro. O capitão da nau e os fidalgos deviam ter interro­gado os mapas para determinarem a posição, saber que porto era aquele. Mas você sabe como eram ao tempo insuficientes as cartas. Um engano nos rumos. Nada mais fácil. Obedecia-se aos ventos e às correntes. Caídos na cilada foram vítimas da abor­dagem e do massacre. Os fidalgos, os soldados da Índia, defenderam as suas vidas, os seus haveres de espada na mão, prontos a matar e a morrer. Apenas se salvou uma mulher. Chamava-se ela: «Maria de Vilaldo». A nau era a «Santa Teresa», e o naufrágio deu-se em uma noite sombria do ano de «1603». Trouxeram-na os indígenas para a terra e ela foi logo cobiçada pelos olhos sensuais do rei. Não é difícil reconstituir a cena. Deslumbrado pela formosura da branca, adorando-a como se se tra­tasse de um ídolo, um dos filhos do régulo matou o pai e fugiu com Maria de Vilaldo numa canoa. Andaram perdidos. O nativo respeitou-a. Sofreram privações, e antes dele aportar à feitoria mais pró­xima onde viviam alguns brancos, Maria de Vilaldo morria. Levou-lhes o cadáver. Os colonos, sem o ouvir, justiçaram-no. Na fuga precipitada a branca deixara cair na praia o gomil de prata que trouxera consigo do Oriente. Inscrevera nele durante as horas de angústia numa palhota indígena, como recordação, os nomes e os números que você leu, concluíu José de Castro bebendo o resto do whisky.
O vapor apitou. Três gemidos longos saudando a terra mordida de sol.
Despedi-me de José de Castro. Quatro meses de­pois soube que um torado, espécie de tufão que varre a Guiné na época pluviosa, o surpreendera próximo da Ilha de Uracan. O barco desaparecera e com ele o exportador de oleaginosas, figura insi­nuante de verdadeiro colono, vítima do mal impor­tado da Ásia através desse objecto de arte oriental que fizera naufragar a «Santa Teresa» e perseguira uma tribo inteira naquela ignorada ilha.
Crê, meu amigo, que desde então os fetiches nunca mais deixaram de me impressionar.

4 de janeiro de 2012

344-Operação Safira Solitária


Com a devida vénia e agradecimento ao Carlos Fortunato dos Leões Negros.

20 de Dezembro 1971 - Operação Safira Solitária realizada por duas companhias de comandos africanos na zona de Morés, Oeste da Guiné, com vários contactos com forças do PAIGC. Disse o Comunicado Especial do Comando-Chefe: 
“...Montada a operação, denominada "Safira Solitária", foi esta levada a efeito por unidades da força africana e teve início ao alvorecer do dia 20 prolongando-se até à tarde do dia 26 tendo as nossas forças sido guiadas na floresta por elementos das populações da área pertencentes à nossa rede de informações que conhecia a localização precisa das posições inimigas.  Apesar de colhido de surpresa o inimigo estimado em 6 bigrupos, 2 grupos armados de armas pesadas instalados em posições fortificadas e cerca de 333 elementos armados da milícia popular, opôs durante os três primeiros dias tenaz resistência acabando todavia por ser desarticulado e aniquilado, tendo sofrido 215 mortos confirmados, entre os quais três cubanos, e alguns mercenários estrangeiros africanos, 28 capturados, além de apreciável número de feridos.  Segundo declarações dos capturados, encontravam-se na área pelo menos mais 4 elementos cubanos.  Verificou-se que o inimigo estava implantando no Morés um sistema de fortificação de campanha do qual se destacavam espaldões para armas pesadas e abrigos subterrâneos para pessoal.  Os grupos de guerrilha, pela resistência que ofereceram revelaram uma sensível melhoria de enquadramento e uma técnica mais avançada de guerra de posição.  No decurso da operação foi capturado o seguinte material: 1 canhão sem recúo B-10, 2 morteiros de 82 mm, 2 morteiros de 60mm, 3 metralhadoras pesadas Goryonov, 7 lança-granadas RPG-7, 14 espingardas automáticas Kalashnikov, 38 espingardas semi-automáticas Simonov, 8 espingardas Mosin Nagant, 14 pistolas metralhadoras PPSH, além de avultado número de armas de repetição, de cunhetes de munições, fitas e carregadores, destruídos no local por desnecessários. As nossas forças sofreram 8 mortos, 12 feridos graves e 41 feridos ligeiros." 
Amadu Bailó Djaló alferes da 1ªCompanhia de Comandos Africanos, conta que o seu grupo não participou no inicio da operação, e quando se juntou aos restantes comandos, estes estavam concentrados na zona dos cajueiros do Morés, que era perto da barraca central. Quando lá chegou começava a anoitecer, e apercebeu-se que já estavam ali desde o meio-dia, pelo que alertou para o perigo que isso representava, mas responderam-lhe, que se atacassem era bom, era maneira como lhe apanhava-mos todas as armas, pois estavam ali 200 comandos. 
Quando a noite caiu, o PAIGC  atacou, um violento e certeiro bombardeamento de morteiros, provocou de imediato muitos feridos, e uma fuga precipitada para outra posição, lançando a confusão. 
"Tivemos que fugir rapidamente para outra posição, pois as granadas caíram mesmo em cima de nós. mas depois regressei novamente ao local onde tinha estado, dado ter deixado lá a minha arma."  
Quando procurava a arma, uma voz chamou-o, era um soldado ferido, disse-lhe que estava ferido nos pés, como estava muito escuro, apalpou-lhe os pés para ver como estavam, eram uma massa de sangue, foi chamar o enfermeiro.  O enfermeiro chamou-o à parte e disse-lhe que não havia nada a fazer, ele iria morrer durante a noite, pois iria esvaziar-se em sangue até de manhã, altura em que poderia ser evacuado.
“Amadu voltou para me juntar ao meu grupo, mas no caminho chamaram-no novamente, era outro soldado ferido”.  
Estava ferido numa perna, parecia que tinha um tendão cortado, mas não teve tempo para o ajudar, a resposta dos comandos africanos ao poder de fogo do PAIGC revelava-se insuficiente para deter, e este avançava rapidamente no terreno, ao assalto às posições dos comandos, pelo que lhe disse voltaria para o vir buscar (quando lá voltou tinha sido morto pelo PAIGC com um tiro na cabeça). 
Amadu juntou-se ao seu grupo, e recuaram novamente, inicialmente queriam recuar para a zona das bananeiras, que era um local escuro e que dava alguma protecção, mas a Amadu pareceu-lhe demasiado óbvio, e disse para recuarem para o meio do capim, local com pouca protecção. 
"O PAIGC bombardeou com morteiros a zona das bananeiras, suspeitando que nós estávamos lá, e passou perto de nós da zona do capim, gritavam: "Cú, Cú", "Comando",  "Aparece se és homem", mas ficamos calados." - comenta Amadu.
Os confrontos pararam, pois conseguiram não ser detectados, e ao amanhecer deslocaram-se para uma zona, onde pudessem evacuar os feridos, mas ai receberam ordem para regressar, e o assalto à barraca central nunca se efectuou.
Quebá Sedi combateu desde 1963 até 1974, foi chefe de um bigrupo no Morés, e lembra-se bem da operação ocorrida em Dezembro de 1971, em que a tropa veio passar o natal com os combatentes pela liberdade da pátria. Segundo as suas palavras, o que se passou foi o seguinte: 
“Primeiro veio uma avioneta que andou a sobrevoar a mata, depois durante 13 dias, bombardeiros, helicópteros, e os canhões do Olossato, Bissorã, Cutia e Mansabá, bombardearam de dia e de noite o Morés. No fim dos bombardeamentos, devem ter pensado que estava tudo morto, e helicópteros trouxeram as tropas, que largaram em várias zonas, à volta do Morés.  Os combatentes fizeram-lhes duas emboscadas, mas depois perderam-lhes o rasto, muita gente pensou que se tivessem ido embora, pois não de ouvia nada. As tropas tinham-se reunido no Morés, na zona dos cajueiros, muito perto da barraca grande do Morés, era véspera de Natal, e era sua intenção atacar a barraca grande do Morés, no dia seguinte, pelo que passaram aqui a noite.  Um homem grande detectou o brilho de um cigarro, de um soldado que estava de pé a fumar, com a arma ao lado, e foi avisar os combatentes da barraca grande. O comandante da barraca grande era Abu Ladja, mas existiam ali outros comandantes como Lamam Sisse, Dique Daringue, e outros. Gerou-se alguma discussão se era mesmo tropa que estava ali, pois não queriam ir bombardear a população, uns diziam "É tuga", outros "É cá tuga". Dique Daringue foi encarregado de investigar, e os combatentes levaram 2 morteiros 60 e 2 morteiros 82. Dique Daringue para ter a certeza de que era tropa mandou disparar uma rajada, em resposta ouviu-se falar português, eram "tugas", e abriu-se fogo. As tropas tiveram muitos mortos e feridos, foram apanhadas muitas armas e um rádio. As tropas também conseguiram apanhar algumas armas, pois dias antes tinham encontrado em Bongontom uma arrecadação com armas velhas, e outra com armas novas no Morés".

(Publicado em 21/05/2006, e revisto em 1/08/2007 por Carlos Fortunato, http://leoesnegros.com.sapo.pt/ )

3 de janeiro de 2012

343-Panfletos da guerra colonial na Guiné



342-AUÁ, Novela Negra

Livro maravilhoso! Mais ainda para quem conheceu a Guiné e as suas gentes. Procurei-o, procurei-o, depois de ler a tese de Mestrado que Tatiana Sousa de Jesus fez sobre esta obra (podem ler a tese dela em http://repositorio.ul.pt/handle/10451/1897). E encontrei-o finalmente (num alfarrabista também...). A censura da época não gostou de "Auá" - podem ver no final a colecção de documentos da censura, colhidos pela mestranda Tatiana. Mas Aquilino Ribeiro gostou e fez-lhe um belo prefácio, que transcrevo com a grafia da época.



    Está dito, o primeiro que viu a Guiné foi Nuno Tristão, o segundo o autor de Àuá. Certo é o europeu estar todos os dias a desco­brir a Africa e a Africa a furtar-se, nem de propósito, cada vez mais ao seu conhecimento e amabilidades. Vem de o açúcar, que enca­rece do pôr do sol para a manhãzinha, certos bichos simpáticos do Jardim Zoológico, e sujei­tos com a bôlsa repleta e fígados derrancados; é ainda a terra do degrêdo. Que mais? Sabemos: os nossos navegadores foram tacteando a costa e baptizando em nome de Deus e do rei promontórios, golfos, enseadas que, séculos depois, um inglês, geógrafo e flibusteiro ao mesmo tempo, repimpado sob a tolda do na­vio, foi crismando ao sabor da pacotilha e do respeito para com Sua Magestsde Graciosa; Albion esbulhou-nos do melhor lati­fándio africano; o rei Leopoldo doutro; entai­param-nos nos trópicos, o inferno. Sabe isso o espírito de descontentamento que anima o português e ainda é a sua Iôrça mais apreciável; os compêndios não ensinam, rezam; rezam os nomes dos rios, das cidades, dos dis­tritos. Tôda a ciência oficial é nomenclatura.
    De ouvido, de rápidas e recreativas narra­tivas, sabemos também que espécie de realeza há em África. Não reina o branco, nem o soba, nem o desacreditado leão; reina o insecto; insectos de nome infantil, eufónico, de sílabas dobradas, um amor de nome: a baga-baga, formiga branca, invulnarável, génio da destruição, e a tsé-tsé, môsca da doença do sono, que vai cobrindo com noite sepulcral o imenso continente negro.
Que nos dizem de África os livros? Os antigos, das Crónicas até a História Trágico­-Marítima, veem cheios de azagaias, de mar­fim, de avelórios, da caça ao escravo, da ru­morosa e indevassada selva, mais nada. Dos modernos, apenas conheço a obra do Dr. Brito Camacho, em que, de verdade, nem sempre o artista é abafado pelo homem de estado que, por onde vá e espraie o olhar, escruta, sopesa, compara, avalia. Imagino que os outros se não apartem muito do conceito clássico; negraria, batuque, tanga, rugir da fera e coconote. Ulti­mamente, sim, veio parar-me às mãos um livro genial e ascoroso ao mesmo tempo por­que deixa as pessoas malquistadas com a vida: Voyage au bout de la nuit, de Louis-Ferdi­nand Céline. O protagonista apeia em plaga africana, que parece ser vizinha da Guiné, e conta o que vê e ouve. Foi alucinação aquilo, comprouve-se em traçar uma caricatura goiesca, ou chegou ao país dos pesadelos? Ali os bran­cos tiritam, tiritam em despeito das doses maciças de quinino, e convertem a febre em matéria de match: qual termómetro subiu mais? Caramba, 40° aquele é campião!
O governador só pensa em enriquecer para largar embora leve a garra da morte no flanco; seguem-no disciplinadamente na ra­pina os mais funcionários. Porque se arranha com unhas furiosas, até o desespêro, até o paroxismo, a ponto de tornar-se em Lázaro, aquele comerciante? É o corocoro, cette vache, que tomou conta dêle. Tudo ladro, obsceno, reles, famélico, esbodegado e esbodegante, o branco e o prêto, o rio e a floresta, o silêncio e o alvorôço da tabanca, a vida e a morte. Mas Céline, cuido ver no seu retrato, escreve com os olhos de Greco: tortos.
Fausto Duarte, que se embrenhou pelo mato, dormiu nas cubatas do interior, viu acordar as moranças, vem reconciliar-nos com a Africa e a primeira e mais grata impressão é a de alívio. Desafoga-se. O ar tem a compe­tente impregnação de oxigénio, pássaros das mais belas côres e mais canoros que primas-donas alegram a. Paisagem, o sol não é «me­tal em fusão» e pela estrada plaina, como na Europa, o motor do eutomôvel vai cantando gloriosamente. Balantas e fulas, das onze raças da Guiné os mais activos, ocupados nos agros, erguem a cabeça curiosa. Também aquela rapa­riga é perita em lançar esquiva e langorosa mirada! Reina a santa paz, idílica paz, as mulheres pilam o arroz e o ruído dos maços repercute ao longe como os mangoais nas eiras de Portugal. Logo, ao sol-pôr, quando as cubatas fumegarem ao céu, falta apenas que desça dos campanários um magoado e suavís­simo angelus.
Com simplicidade encantadora, sem difu­sões, nem peripécias de cinema, o autor vai-nos pintando o que  é a vida naquele trato de terra e de humanidade. E não é difícil chegar à conclusão de que os diferenciais que trouxe o progresso e a pigmentação pouco represen­tam ao lado da analogia profunda e simetria notória que a vida reveste duns homens para. os outros. É facto estar a Guiné à beira do berço da civilização semita e de hever rece­bido influxo certo. Circuncidam-se os varões; as aldeias teern nome; a apanha da mancarra lembra a ceifa ou vindima, mercê das quais se pagam os impostos; os marabus valem os padres católicos e os curandeiros curam tão realmente como os médicos que saem das es­colas sapientes; as raparigas amam e aborre­cem pelos mesmos motivos de ética como no restante mundo, e a lei irremissível de ganhar o pão com o suor do rosto torna o gentio da Guiné equivalente aos labrostes bárbaros e retrógrados, sob determinados aspectos, da província portuguesa ou da Rússia, antes do Dilúvio.
As finas qualidades de observação de Fausto Duarte revelam-nos uma Guiné que não so­nhávamos. Lá também o homem é joguete de estranhas e incoercíveis fôrças; lá também o homem faz guerra ao seu semelhante e é tri­vial que o oprimido odeie o tirano, chame-se nesta parte do mundo o cobrador de impostos ou o duanhe, na Europa o proprietário ou representante da autoridade, no guinhol - e tudo no mundo se reduz a guinhol - o gendarme, como em gendarme se cifra tudo o que ­no universo sensível ou incognoscível implica mando e prepotência..
Fausto Duarte é pela civilização, mas a sua. sensibilidade não cala a ternura que lhe me­rece o homem escravizado, coacto a uma feli­cidade sem a qual passaria perfeitamente. Os que sonham com um Portugal de além-mar engrandecido hão de ficar gratos à. pena colo­rida, equilibrada, emotiva sem excesso que escreveu Àuá, estreia literária do maior realce e obra de elevação lusíada.

C. Quebrada, Abril de 1934.

AQUILINO RIBEIRO. 
Auá
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2 de janeiro de 2012

341-Ataque a Djagali, no encalço de Amílcar Cabral

Um enorme roncar de aviões despertou-nos, Vestimo-nos rapidamente e saímos. Começaram a largar bombas e a metralhar. Minuciosamente. São 6 horas da manhã. Uma dúzia de B26 giram no céu plúmbeo [devem referir-se aos T6, pois parece-me que na Guiné nunca houve B26; além disso, é um exagero falar em uma dúzia numa só acção, além de que nunca estariam tantos disponíveis…], quatro caças volteiam, traçando círculos concêntricos à nossa volta. Desta vez vieram em força e bombardeiam-nos com estrondo. Ouvimos explosões muito perto. Saímos rapidamente da base. O bombardeio continua durante uma hora pelo menos. Afastamo-nos para longe da área de Djagali [na margem esquerda do rio Farim]. Foi certamente um informador que avisou durante a noite um dos postos portugueses na região. Os portugueses devem saber que Cabral está na área. Depois de andarmos durante algum tempo, escondemo-nos num matagal, éramos um pequeno grupo de quinze – esperámos que tudo ficasse calmo. O bombardeio tornou-se menos intenso, deitámo-nos ou sentámo-nos debaixo dos ramos, encostados aos troncos das árvores.
- “Inocêncio”, disse Amílcar.
- “Hum!”
- “Inocêncio, é a guerra”.
Enquanto isso, Titina prepara Nescafé numa pequena caixa de metal. Pelas 7h30 um avião de reconhecimento voou sobre nós. Quinze minutos depois, uns  camponeses passam levando toros de madeira à cabeça.. "Balantas”, disse Inocêncio, “há uma piada entre os Balantas: querem reconstruir a palhota antes que ela acabe por arder".
Os aviões continuam a bombardear, agora esporadicamente.
- “Antes”, disse Amílcar, “o portugueses no Norte concentraram as suas tropas no Oio. O Congresso de 1964 decidiu levar a luta a todo o lado. E isso foi feito num ano. O que é que eles podem fazer? Bombardear. Temos milhares de homens em armas. Eles destroem o que podem... Já não controlam o país "
Um pouco mais tarde, os combatentes conduzem ao nosso objectivo. Os aviões continuam a girar, já longe de nós, que esperamos; o tempo de inatividade está a ser longo.
Inocêncio canta uma canção popular em crioulo:

GALO BEDJU [Galo velho]

I

"Senhor António, o que é que você tem?
Porque está tão triste?
Ó meus amigos, não é nada,
Tenho é saudades da minha juventude.

II

Quando era galo novo
Comia o milho nas tuas mãos,
Agora que sou galo velho
Obrigas-me a estalar o bico contra a terra.

   Cerca das 8h30 chegam dois combatentes. Bombardearam a tabanca de Djagali, não se sabe ainda o no número de mortos e feridos. Titina parte imediatamente para tratar dos feridos.
-“Para cá chegarem, precisam concentrar forças em Olossato”, disse Amílcar, “mas nós cortámos a estrada e a ponte está destruída "
De qualquer modo foi tomada a decisão de não partir dali para Yadur, como estava planeado para saírem da Guiné. Iria multiplicar desnecessariamente os riscos. Especialmente porque as medidas para garantir a segurança do Secretário-Geral iriam afectar a mobilidade dos combatentes e seria necessário mobilizar demasiados homens.
Um camponês passa, carregando madeira. Cumprimenta-nos.
-“Então”, diz Amílcar, “não te abrigas? "
"-Eles não nos podem matar todos num só dia", responde o homem. 
Ficámos a saber que havia 7 mortos e 5 feridos em Djagali. Era quase meio-dia quando regressámos à base de Maké. Trazido por Nino, responsável do Sul, estava lá um jornalista da Jeune Afrique, Justin Vieyra.. Cabral concede-lhe uma breve entrevista onde lhe disse que a ajuda dos Estados africanos era muito insuficiente.
Partimos nessa noite para atravessar a fronteira.
 Ao longo do caminho fomos saudados amigavelmente pelos camponeses,
Já mais longe, dois rapazes com idades entre 16-17 anos dirigem-se a Amílcar e pedem-lhe armas para lutar:
"Havemos de tê-las muito em breve, para vocês também", disse Cabral.
A marcha é rápida e silenciosa por entre a atmosfera húmida.. As camisas estão coladas à pele.
Fazemos uma breve paragem perto de uma fonte. A água está morna, mas sabe bem. Aproximam-se dois camponeses, reconhecem Cabral e abraçam-no. São dois Fula, velhos militantes do Partido.
Durante a caminhada, encontrámos mais dois rapazes que nos cumprimentam. cumprimentar.
"- Coragem”, disse Amílcar, “vamos vencê-los”
"- Claro," responderam eles .
17h. Na margem esquerda do Farim. Já nos esperava uma vintena de combatentes. Entrámos numa piroga. Ouvimos um ruído de motor do outro lado do cotovelo do rio. 
"- A canhoneira! ", diz alguém.
Aceleramos as remadas. O ruído aproxima-se. Enfiamo-nos num canal do outro lado, protegidos pelo mangais.  A canhoneira passa, o barulho vai diminuindo.
Do outro lado do rio, há uma grande planície túmida e nua. Há três quilómetros antes de alcançar a cobertura de palmeiras. Mesmo indo rápido, com as armas, a carga e o terreno lamacento, devemos demorar pelo menos 20 minutos para atravessar. É dia, há muito sol. O risco de sermos descobertos por um avião de reconhecimento é muito grande. Decidimos esperar pelo anoitecer. Meia-hora mais tarde chegauma segunda piroga com combatentes. Pouco tempo depois chega mais uma com outro grupo de combatentes. Ficamos todos sentados. Fumamos cigarros portugueses fabricados em Angola “Fábrica de Tabaco Ultramarina”, marca AC.
"- Chamamos-lhes Amílcar Cabral", diz Inocêncio.
O dia começa a declinar. Partimos. Levanta-se vento. Um grupo precede-nos e outro vai atrás de nós. Andamos de noite, sem dizer uma palavra, a passo rápido.
Para 21 horas encontramos um grupo de combatentes. "É Bobo, o responsável da área de Sambuiá", disse Cabral.  Ele chega-se e conta-nos.
Esta manhã, os portugueses tentaram um cordão de envolvimento. Seis helicópteros desembarcaram cerca de cinquenta portugueses e auxiliares africanos a 20 km da fronteira. Bobo reuniu 36 homens, procurou depois o contacto com os portugueses e conseguiu empurrá-los para uma área arborizada. A emboscada ocorreu por volta das 17 horas. Os portugueses tiveram cinco mortos e feridos. Depois retiraram-se. Há quatro feridos no grupo Bobo, incluindo três com gravidade
Comemos algumas mangas. Combatentes do grupo de Bobo deram-nos algumas rações de combate tiradas dos cadáveres portugueses. Pegámos  numa.
" - Esta era de um mercenário africano", disse um dos combatentes. 
É uma ração individual "Tipo E", pacote verde escuro. Contém alimentos em um tubo, um filtro para água, etc.
Retomamos a marcha. Estamos agora numa savana arborizada. Continuamos sempre precedidos e seguidos por um grupo de combatentes. Mas, como precaução adicional, Bobo colocou dois grupos nas asas, a uma centena de metros de nós. Andarmos rapidamente: os últimos quilómetros, os menos arborizados, onde os riscos podem ser grandes, são cobertos em um ritmo recorde.
Depressa chegámos à primeira aldeia senegalesa. A ambulância do P.A.I.G.C. estava lá com os três gravemente feridos na emboscada da tarde.. É uma hora da manhã.



Tradução minha de extracto de "Lutte Armée en Afrique", de Gérard Challiand, Cahiers Libres 101, François Maspéro