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8 de fevereiro de 2012

6 de fevereiro de 2012

381-Báná Sirabanda - lenda dos banhuns


Há pouco mais de um século constituíam os banhuns uma das mais importantes tribos de entre as que habitavam toda a região de Sédhiou da vizinha colónia francesa, estendendo as suas povoações até ao rio Casamansa e ainda mais além, em terre­nos férteis que, nessa ocasião, pertenciam a Portugal.
Mais tarde vieram estabelecer-se também na actual área da Circunscrição Civil de São Domingos, fundando, entre outros, os aldeamentos que ainda hoje, existem, com os nomes de Géqui, Beguingue e Sonco, de população bastante numerosa naquele tempo, mas agora muito reduzida.
Pois na referida região de Sédhiou, num local denominado Coli, perto da povoação de Cudompo que ainda ali se encontra, vivia um banhum que usava o nome de Sirabanda e a quem os negociantes man­dingas que por ali passavam chamavam «báná», que o mesmo é dizer «o mais rico», em virtude das várias histórias que corriam sobre a sua grande fortuna, aliás comprovada pelo esplêndido tratamento que lhes era dispensado.
E porque achasse que o apodo lhe convinha passou a usá-lo, denominando-se daí por diante Báná Sirabanda, nome porque todos o conheciam, embora a sua pronúncia não fosse agradável aos invejosos que lhe cobiçavam as riquezas e consequente importância social.
Entre outras coisas, contava-se que, em local bem escondido no mato e só de seu dono conhecido, existiam fornos onde de dia e de noite se derretia o ouro colhido nos terrenos por ele descobertos. A atestá-lo estava o facto de serem daquele metal as cadeiras onde, em sua casa, se sentava.
A confirmá-lo havia a grande manada de gado, bovino, cujo número de rezes ninguém podia contar, pois era tão grande que diariamente e durante todo o ano nasciam vitelos nos seus currais. A sua «morança» era tão povoada, devido ao elevado número de mulheres que possuía, filhos havidos delas e serviçais, que só por si formava a povoação denominada Coli, onde habitava o potentado.
Várias vezes os ambiciosos tinham querido levá-lo a ocupar qualquer cargo de chefia, procurando captar-lhe as simpatias e o dinheiro, mas Báná Sirabanda sempre se recusara: «A administração da sua casa e os múltiplos cuidados que sobrevinham da sua numerosa família, dizia ele, já eram suficientes para trazer constantemente preocupado o seu pensamento».
Entretanto, numeroso grupo de escravos tratava dos célebres fornos onde se preparavam as barras de ouro, extraído dos areais onde residia o segredo de tão grande opulência. Para evitar, porém, que este fosse conhecido de estranhos, todos aqueles escravos - homens, mulheres e crianças - viviam como que enclausurados dentro das suas habitações, de onde saíam apenas para. trabalhar nos serviços que lhes estavam distribuídos.
Apesar de toda a vigilância, porém, a argúcia dos invejosos, que eram muitos, ultrapassou as precauções de um só, e um dia, em reunião magna, resolveram aqueles acabar com a vida do Sirabanda, para lhe roubarem as riquezas.
Fácil foi subornarem os servos, prometendo-lhes sua parte na rapina que se seguiria à morte do potentado e, durante a noite, prepararam a armadilha: na frente da palhota que, por principal, servia de moradia ao «báná», havia um terreno onde, em dias de festa, se realizavam os batuques. Aí se abriria uma cova com a altura de um homem, disfarçando-a de modo a que o capim a cobrisse.
Cumprindo o plano pré-estabelecido, na manhã do dia seguinte numerosa multidão se dirigia por vários caminhos para a povoação do ricaço, e como este ao sair de casa se admirasse do que seus olhos viam, logo os servos traidores lhe explicaram tratar-se de. uma surpresa que lhe· queriam fazer, dando uma festa em sua honra, para. lhe manifestarem o seu apreço e a muita consideração em que o tinham.
Admirado do facto, mas também satisfeito na sua vaidade, não pensou o Sirabanda noutra coisa que não fosse corresponder a tão grande prova de afecto, e assim deu logo ordens para que se matassem as cabeças de gado precisas para fornecer boa comida aos seus hóspedes e se tirasse o melhor vinho das palmeiras, em quantidade que bastasse para matar a sede de tanta gente que ele via dirigindo-se para a sua casa. Assim se fez.
Entretanto, iam os homens mais importantes entrando na residência do homenageado, onde depois de juntos e segundo mandava o uso da tribo, o mais velho comunicaria o fim da reunião, tudo isto com os costumados louvores e as cortesias devidas a tão grande personagem.
Aqueles que, por sua menor importância social, não participavam desta audiência, as mulheres e as crianças, foram agrupados no terreiro, em semicírculo, tendo os seus arrumadores - os próprios servos do dono da casa - o cuidado de os pôr em posição tal que a armadilha ficasse entre eles.
Acabados os cumprimentos e recebidos pelo «báná» as nozes de cola e o gado caprino trazidos como dádiva pelas diversas povoações representadas, mandou ele chamar os seus familiares, ordenando-lhes ainda uma vez que nada deixassem faltar aos hóspedes - a comida e o vinho - não só para que a festa tivesse o desejado brilhantismo, mas porque também, dentro da sua opulência, seria vergonhosa qualquer falta.
Já nos currais se ouviam os mugidos dos bois sacrificados e começavam chegando os portadores com o néctar das palmeiras: o vinho mais doce para as mulheres e o fermentado para os homens beberem, depois de aromatizado com aquelas ervas que os tornaria alegres, estimulando ao mesmo tempo a sua sensualidade.
Ia dar-se início ao festim. Báná Sirabanda manda que os seus servos tragam os célebres bancos de ouro, que vão servir para ele se sentar e também o grupo dos mais importantes, ordenando-lhes que os ponham em lugar de destaque.
Cumpre-se a ordem; somente em vez de colocarem os bancos a par, põem aquele onde se sentará o anfitrião defronte da porta da sua resi­dência e os restantes junto da armadilha, na parte onde, no chão, já se encontra sentada toda a assistência, ansiosa por. que principie o tambor e se iniciem as danças, e ignorando que em lugar de festa vão assistir a uma tragédia. O plano foi bem urdido e melhor executado.
Sirabanda sai de casa quando os seus inimigos já se encontravam sentados nos respectivos lugares e logo censura ·os servos que indelica­damente colocaram a sua cadeira em lugar à parte. Imediatamente se dirige para onde os outros se encontram, mandando que lhe levem o seu banco, mas ao passar sobre a ratoeira sente que o chão lhe falta e cai desam­parado. Logo se ouve grande borborinho e os conjurados lançam-se, de espada na mão, para consumarem o plano.
Báná Sirabanda está prestes a ser vítima da sua riqueza. Consegue, porém, erguer-se dentro da cova e dignamente, sem mostrar receio da morte, pede para que o deixem falar antes de lhe cortarem a cabeça, o que, apesar da má vontade de muitos, lhe é concedido. Dirigindo-se então àqueles que sabe serem os seus algozes, diz-lhes em ar de maldição:
- Eu vou morrer, mas a vossa traição é um acto de tanta malvadez que há-de ser castigada. Outros virão, de outras raças, que vos hão-de vencer, roubando-vos a terra e a família, e o castigo será de tal natureza que a tribo dos banhuns, por tão vil, há-de desaparecer.
Nada mais o deixaram dizer e a sua cabeça, decepada com um só golpe, ficou com o corpo naquela mesma cova.
Durante a noite, quem passava a muitos quilómetros podia ver os rolos de fumo que saíam da povoação que havia sido pertença de um só homem e que os seus congéneres tinham reduzido a cinzas, depois do saque. A praga, porém, surtiu efeito.
Não passou muito tempo sem que os djolá, cobiçando os terrenos dos banhuns, lhes não movessem dura guerra, que os obrigou a estabe­tecer-se para nascente do Casamansa a fim de viver em paz, pois só pondo o rio de permeio conseguiram não serem totalmente aniquilados.
Valeu-lhes o facto de os djolá temerem as correntes de água, de tal modo que, quando imperiosa necessidade os obrigava a embarcar em canoas, faziam-no deitados no fundo destas e com o rosto tapado, tal era o medo que sentiam da água.
Mas bastantes banhuns houve que ficaram prisioneiros, e destes, enquanto os homens eram vendidos como escravos, as mulheres e crianças eram entregues aos vencedores, obrigatoriamente adoptando os seus usos e costumes.
Mais tarde, quando o famoso chefe de guerra Fodé Càbá procurava territórios para conquistar os cativos para trabalharem as terras apresadas, parte desses banhuns, agora já convertidos em djolá, foram feitos prisioneiros e totalmente perderam a ligação com os ascendentes.
Alguns ficaram, porém, integrados na tribo dos djolá, escapando com vida àquelas guerras, pois o Fodé Càbá havia sido assassinado perto do Gâmbia.
Criaram família, casando com cativas banhuns em poder dos djolá, pois embora estes casassem com mulheres banhuns não consentiram que as da sua raça o fizessem com eles e destas uniões nasceram filhos que, secretamente, eram informados pelos pais sobre a respectiva ascendência. Mas, já morto o Fodé Càbá, novo chefe de guerra apareceu.
O célebre Abdu Injai, que anos depois se devia revoltar contra o governo português, andava então por aquelas paragens fazendo a guerra. Tendo, segundo parece, tanto de guerreiro, como de comerciante, preferia, depois de provocar o terror, entrar em combinações com as populações, que por qualquer preço pretendiam evitar as razias, prometendo-lhes paz em troca de escravos em boa idade para serem vendidos. Foi assim que exigiu aos djolá, para lhes não fazer guerra, que cada uma das povoações lhe entregasse vinte mancebos entre os 18 e 25 anos.
Não é difícil concluir que aqueles, tendo aceitado a imposição, mandaram entregar os banhuns que tinham em seu poder, e também desta maneira desapareceram mais alguns dos existentes.
Reduzidos em número e escorraçados dos territórios que primeiramente povoavam, habitavam, como já se disse, a região a Sul de Ziguinchor, estendendo as suas povoações pelo território até São Domingos e cerca de oito quilómetros para Oeste desta última povoação, mas não formavam núcleos, antes procuravam fundar os seus aglomerados em regiões já habitadas por outras tribos.
Daqui, segundo parece, a sua ligação amistosa com os ihádja, mais conhecidos por cassangas, de que houve casamentos, no entanto mais numerosos de mulheres banhuns com ihádja do que o contrário e do que resulta, mesmo por direito consuetudinário, nascerem os filhos como per­tencendo à última tribo - a dos ihádja.
Esta foi outra das causas do seu desaparecimento, agravada com o uso imoderado do vinho de palma a que se entregam, ainda pelo facto de só o beberem depois de um período longo de fermentação, adicionando-lhe determinadas ervas a que atribuem poderes estimulantes, mas que são apenas motivo para uma senilidade precoce.
Assim se vai cumprindo a profecia - se não praga - do banhum Sirabanda, assassinado pelos seus irmãos de raça por ser demasiadamente rico.
É o que reza a tradição. Se a história é verdadeira ou se apenas uma lenda que chegou aos nossos dias, já hoje se não pode saber, mas foi-me narrada por um velho, mas muito velho, que se chama Seco Djatá e que durante muitos anos viveu em território francês, ainda que oriundo de Geba, da nossa Circunscrição de Bafatá.


                                                                                                                 Amadeu Nogueira


5 de fevereiro de 2012

380-Criação de monopólios para o comércio de escravos


Foi nos princípios do século XVII que a presença europeia se começou a sentir mais nas costas da Guiné, com mercadores de escravos e comerciantes de várias nacionalidades. Durante décadas os  “lançados” (colonos aventureiros) e os “tangomaos” (diz-se que eram judeus oriundos de Cabo Verde), geralmente miscegenizados com os indígenas, com quem faziam todo o tipo de negócios, tiveram actividade sem lei nem controlo. Também numerosos aventureiros e piratas, ou mesmo enviados de reis europeus, espanhóis, franceses, ingleses, holandeses e suecos, deambulavam por todos os reinos da costa da Guiné à cata de ouro, marfim e escravos. Daí que os reis e os gestores dos bens da Coroa portuguesa, à qual desses territórios vinham muitas riquezas, tivessem procurado ordenar esses comércios.
A Companhia de Cacheu, Rios e Comércio da Guiné foi criada em 1675, sucedendo à Companhia da Costa da Guiné (criada em 1664) no comércio de escravos naquela região da costa ocidental africana, ficando também com o comércio de tecidos e marfim. Em 1676, o príncipe regente D. Pedro deu-lhe o monopólio do tráfico de escravos na costa da Guiné e no arquipélago de Cabo Verde e a exportação destes para a Metrópole e os seus domínios ultramarinos, bem como para a América espanhola e Brasil. Só lhe foi vedado o comércio com estrangeiros.
Em 10 de Maio de 1676 o governador de Cabo Verde, João Cardoso Pissarro foi nomeado responsável da companhia e, em 20 desse mês, João Barros Bezerra foi nomeado capitão-mor de Cacheu com o objectivo de ser seu administrador. Porque era em Cacheu que estava a grande fonte do tráfico de escravos
A companhia cessou as suas atividades em 1682, vindo a ser sucedida pela Companhia do Cacheu e Cabo Verde a partir de 1690, já sob o reinado de D. Pedro II. Além da sua actividade no comércio de tecidos, marfim e, sobretudo, escravos, tinha também a responsabilidade da manutenção do forte de Cacheu e também de Bissau, garantias da protecção dos seus comércios. Em 1697 foi fundada a vila de Bissau, com uma fortaleza e um entreposto de escravos
No entanto, em 1703, o rei não lhe renovou o contrato de exploração, pelo que a sua actividade entrou em declínio, os seus prejuízos acumularam-se e acabou por ser extinta. Com ela acabou a Capitania de Bissau, sendo o forte desta vila arrasado, por não ter razão de ser na óptica colonial da época.
Esta situação provocou a estagnação económica na Guiné e Cabo Verde durante décadas.
Só em 1757, por beneplácito do Marquês de Pombal, os seus direitos foram transferidos para Companhia Geral do Comércio do Grão-Pará e Maranhão, a qual reconstruiu o forte de Bissau (ver aqui) durante a sua actividade. Esta companhia, porém, em 1777, após a saída do Marquês de Pombal, foi transformada na Companhia para o Monopólio do Comércio nas ilhas de Cabo Verde, Bissau e Cacheu, que durou até 1786, altura em que lhe sucedeu a Companhia do Comércio da Costa d’África, até 1886.

4 de fevereiro de 2012

379-História da Guiné


HISTÓRIA DA GUINÉ.
PORTUGUESES E AFRICANOS NA SENEGÂMBIA (1841-1936)
de René Pélissier

Imprensa Universitária n.º 75, Edito­rial Estampa, 2 volumes, Lisboa, 1989.
Tradução: Franco Sousa.
Tttulo original: Naissance de la Guiné. Portugais et Africains en Senégambie (1841-1936).

Daniel A. PEREIRA

Com prefácio de Léopold Sédar Senghor, a leitura na horizontal desta obra em 2 volumes de René Pélissier não me cativou de forma muito particular. Apesar de uma grande expectativa criada em mim desde o anúncio da publicação da versão portuguesa em 1989 e que foi financia­da pelo Programa Nacional de Edições Comemorativas dos Descobri­mentos Portugueses.
Desde logo. uma primeira contrariedade de que o autor não é certa­mente culpado: o título português traiu, em meu entender, o original e não corresponde, ainda a meu ver, ao conteúdo. Aliás, diga-se de passagem que o título original francês também não corresponde cabalmente à temática desenvolvida e talvez fosse mais consequente se referenciasse expressamente o sucedâneo de conflitos que pontuou, ao longo dos séculos, o processo da colonização da Guiné, dita portuguesa. Ademais, até o título parece inspirar-se na obra de António Carreira «Os Portugue­ses nos Rios de Guiné (1500-1900)», Lisboa, 1984.
Em segundo lugar, o trabalho de Pélissier padece de uma excessiva compartimentação esquemática quando, na maioria dos casos, tal opção a não justificava pela absoluta insuficiência de desenvotvimento dos  subtítulos apresentados. Se a intenção era tomar a leitura mais agradável e atractiva, o grande prejudicado acabou por ser o conjunto de os resultados obtidos não satisfizeram um dos objectivos preconizados pelo autor, que consistia «em tentar preencher um vazio no conhecimento da África Ocidental pelos francófonos»  (Vol. I, p. 24). Se tal pode não ter sucedido em relação aos leitores francófonos, mormente terá conseguido «trazer aos Portugueses, aos cidadãos destas três nações lusófonas (pelo menos no que concerne à Guiné-Bissau) e, eventualmente, a alguns leitores periféricos,  elementos para que compreendam de onde vêm ...» (Vol.I, p. 26). Iria mais longe e diria até que terá sido a pressa em ocupar este espaço que contribuiu para desvirtuar esse fim de grande mérito, se fosse efectivamente atingido.
Seja como for, a obra enveredou por um caminho que hoje quase não se usa na historiografia contemporânea: a petite histoire, com manifes­to prejuízo para a intelegibilidade do todo, além de cair em algumas contradições e incompreensões, de que o autor não se dá conta, panicu­lannente no que toca a certos maus entendidos no que se refere ao relacionamento histórico caboverdiano-guineense, que abordaremos com algum pormenor mais adiante.
Com efeito, num espaço de tempo de praticamente um sécuto (1841-1936), penado relativamente longo, não discernimos os grandes mo­mentos da história desta zona geográfica, eleita por Pélissier como campo da sua actividade pesquisadora, pese embora a realidade de se tratar de um mosaico ou de um puzzle cujas peças são de difícil colocação. Sem embargo, as grandes oscilações económicas não aparecem e as movimen­tações sociais não surgem. Quedou-se pela história politica e, mesmo essa, restringiu-a às lutas intestinas inter-tribais ou às reacções, por parte da diversa população, às tentativas, esporádicas ou não, de ocupação levadas a cabo pelos portugueses ou seus agentes. E se Pélissier tivesse analisado mais detidamente todo o período anterior, a partir dos meados do século XV, ter-se-ia dado conta, facilmente, que a soberania portugue­sa nos «Rios de Guiné» sempre foi um mito, porque periclitante e instável, dependendo essencialmente do jogo de interesses económicos em presença, no qual os autóctones detinham a supremacia e ditavam as regras. Assim, o período compreendido entre 1841 e 1936 não constitui copiosos extractos dos arquivos publicados entre 1899 e 1913 nos Subsídios para a História de Cabo Verde e Guiné pelo pertinaz oficial de marinha caboverdiano Christiano José de Senna Barcelos, e utiliza igualmente uma compilação de documentos do AHU já publicada. No entanto, não há nada que substitua a pesquisa directa no AHU. Muita informação importante sobre as relações comerciais e as ligações familiares dos portugueses e particularmente dos luso-africanos com grupos africanos pode ser extraída das petições, testamentos, declarações e listas de habitantes das comunidades comerciais. Estes e outros documentos teriam contribuído significativamente para uma compreensão das causas dos conflitos e das suas soluções, muitas das quais Pélissier reconhece serem inexplicáveis a partir das fontes por ele consultadas.
Infelizmente Pélissier não fez pesquisa na Guiné. Nos últimos anos o pessoal do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa tem recolhido documentos coloniais de todas as regiões do país. Os arquivos paroquiais contêm informação sobre nascimentos, mortes e casamentos, do mesmo modo que as inscrições tumulares dos cemitérios.
De grande utilidade potencial para a investigação do período que Pélissier abrange no seu estudo é o crescente corpo de tradições orais re­colhidas pelos historiadores guineenses desde a independência. Esta pesquisa está agora a ser publicada, nomeadamente na revista Soronda, fundada pelo lNEP em 1986.
O livro de Pélissier estimulará novas contribuições e promoverá a pesquisa de terreno ao longo de linhas de investigação novas ou inade­quadamente exploradas. Seguramente muita mais informação sobre a perspectiva dos africanos pode ser recolhida junto dos filhos e netos daqueles que participaram nas últimas campanhas militares que Pélissier descreve.
Os materiais auxiliares do livro são assinaláveis. Existem seis mapas bem concebidos, e Pélissier vê-se aflito para explicar na sua nota introdutória que, apesar dos seus esforços, a localização de alguns lugares é problemática. Numerosos quadros organizam os dados disponíveis. Existe um útil glossário de 4 páginas, e a lista de fontes publicadas e documentos de arquivos (24 páginas) contém breves anotações. Também o indíce (18 pp.) se encontra elaborado com profissionalismo, incluindo símbolos-chave que fomecem informações sobre indivíduos. Para os estudiosos da Guiné-Bissau e das áreas vizinhas, Naissance de la Guinée constitui uma obra de referência indispensável para os investigadores especializados noutras áreas de África que possam eventualmente ficar desmobilizados pelo tamanho do livro de Pélissier.
Finalmente, debrucemo-nos sobre certas contradições, incompreen­sões e maus entendidos àcerca do relacionamento histórico caboverdia­no-guineense a que, no meu entendimento, o autor não soube ou não quis dar o devido tratamento.
Antes de mais, a utilização da terminologia «colónia» ou «coloniza­ção» (Vol. I, pp. 41 e seguintes), com tudo o que isso implica «no plano da gestão administrativa, das prioridades nos investimentos, do próprio povoamento ... », ocupação efectiva, etc., antes de se operar a partilha colonial ém 1886, é conceptualmente incorrecta. Quanto muito, poder­-se-ía falar de feitorias (Bissau, Cacheu, etc., etc.). Mas isso não é relevante para as minhas apreciações. Portante adiante.
Em primeito lugar, «a sufocante hegemonia de Cabo Verde sobre os seus confett! guineenses ... " (Vol. I, p. 104), que Pélissier pretende provar, ao longo de largas páginas da sua obra, ao ponto de falar da «colónia de uma colónia» (Vol. I, p. 41), não me parece corresponder inteiramente à verdade dos factos. Na realidade, se bem que houvesse desde sempre relações de dependência institucionais das autoridades de Cacheu face ao governador e capitão-geral de Cabo Verde, diz Carreira que tal situação não tinha efeitos práticos, tanto mais que «eram os próprios Regimentos que contrariavam a subordinação. Desde o ano de 1615 até 1664 (e outros), todos estabeleciam sucessivamente: "porém o dito governador vos não poderá, nem suspender de nenhum dos cargos de que vos encarrego". Proclamava-se a subordinação, e ao mesmo tempo concedia-se um princípio de independência ou não sujeição (Documentos para a História das Ilhas de Cabo Verde e "Rios de Guiné" (Séculos XVII e XVIll, p. 15).
Por outro lado, as condições de permanência dos portugueses (leia-se cabo-verdíanos) eram determinadas em função do pagamento de tributos aos «reis» locais e, no dizer de A. Carreira, «quem paga tributo não é soberano, é dependente» (idem, p. 28).
Além disso, Pélissier pretende assacar responsabilidades a Cabo Verde, às autoridades cabo-verdianas e aos maiorais do arquipélago pelo estado das coisas na Guiné, face à sua dependência administrativa, política e militar.
No entanto, é ele mesmo quem se contradiz quando afirma que «em treze anos. a metrópole e os seus militares demonstraram que, com efectivos duplos, quase mesmo triplos, em relação a 1878, (data a partir da qual se consuma a autonomia da Guiné relativamente a Cabo Verde) eram tão impotentes quanto Cabo Verde em se tornarem senhores da Guiné». Mais adiante: «neste ponto, não há, portanto, grande coisa de diferente em relação ao período "cabo-verdiano" tão criticado» (Vol. I, p.277).
lndependentemente disso, René Pélissier parece não considerar as razões históricas que estão no cerne do facto de as ilhas de Cabo Verde se terem tornado na cabeça da administração dos «rios de Guiné».
Efectivamente, a resistência demonstrada por parte dos africanos do continente desde os primórdios, levou a que o tipo de relações estabelecidas tivesse por base, ao longo do tempo, uma certa desconfiança e muita insegurança dos mercadores portugueses, sediados em algumas poucas localidades da costa ou fluviais, o que mostra o grau de instabilidade em que viviam e a precariedade da sua permanência.
Tal situação levou a que se privilegiasse a ocupação das ilhas donde, com certa dose de segurança para as populações brancas ou mestiças, se pudesse «administrar» económica, política e militarmente determinadas zonas do continente. Foi a estratégia montada para tentar controlar a actividade mercantil dessas mesmas zonas, procurando, simultaneamente, subtraí-Ias à concorrência de outras potências marítimas europeias, com o mfnimo de gastos económico-fínanceíros e pequeno dispêndio dio humano que uma colocação permanente no terreno contrariava, face às constantes investidas das populações autóctones.
Não esquecer, também, que uma das características fundamentais do relacionamento de Portugal com as suas possessões foi o abandono e o ostracismo a que as votou, o que se explica, em parte, pela fraqueza económica e militar portuguesa e a inexistência de uma marinha suficientemente forte para defender os seus interesses. Como dizia Oliveira Martins, «sem marinha, não há colónias».
Também não é negligenciável o factor humano, ou seja, o tipo de pessoas que eram enviadas, tanto para a Guiné como para Cabo Verde. Como dirá Pélissier, «nunca se insistiria demasiado quanto ao papel nefasto destes militares recrutados entre os "malfeitores de Portugal e soldados incorregíveis, vadios e ratoneíros da ilha de S. Thiago" porque, por um lado, dão às populações que os rodeiam uma imagem desvalorizada de Portugal e, por outro, dão confirmação, aos governantes de Cabo Verde e da metrópole, à sua convicção de que, decididamente, esta terra de deportação está reservada à escória do Exército e de que só a título excepcional deve acolher soldados europeus normais» (Vol. I, p. 56).
O mesmo ou pior acontecia igualmente em Cabo Verde. A análise lúcida e implacável do governador Joaquim Pereira Marinho, por volta de 1838, não nos pode levar a outra conclusão senão essa. Vejamos: «Cabo Verde tem hoje quarenta e cinco, ou cinquenta e cinco oficiais militares de todos os graus ou espécies. ( ... ) Em geral, esses oficiais, com mui poucas excepções, não são de facto oficiais militares, são dezenas de tratantes, ineptos, intriguistas, bêbados, debochados, rechincheiros, tira­dos de Lisboa de oficiais e aprendizes de sapateiro. alfaiates. que por desmoralizados e, ineptos, não puderam aprender os ofícios a que os seus pais os destinaram. Outros são tirados desta classe de rapazes de Lisboa, e mesmo províncias, que as famílias não podem sofrer pelo seu deboche, e desmoralização, e por não puderem servir para coisa alguma. Em cinco mos de experiência contínua que tive, vi que não eram mais que súcias de tratantes que todas as noites se constituíam réus de polícia, que davam sempre ao Governo muito incómodo, e muita desonra. Nenhum Governo do mundo é capaz de sofrer tal canalha, também não há no mundo Governo algum, que seja tão mau, que seja capaz de gastar somas imensas que o Governo Português gasta inutilmente, e só para escandaloso e para desonra com tal gente.» (Memória sobre Cabo Verde do governador Joaquim Pereira Marinho. A.H.U .Sala 12. Cx. SS (1831-1838) - Inédíto).
Por tudo o que explanámos se deduz, naturalmente, que Cabo Verde era uma peça da engrenagem do sistema, esse sim, responsável pelos males que sofreram tanto um como outro território, males extensivos a Angola, Moçambique, etc.
Seja como for, ninguém pode negar que, historicamente falando, mal ou bem. a actual Guiné-Bissau, tal qual ela existe, dificilmente seria o que é se não fosse a acção, a persistência e o sacrifício de muitos cabo­-verdíanos anónimos que, no decurso de muitos séculos, se ligaram indelevelmente a este território. Mutis mutandis, o mesmo se aplica a Cabo Verde. E talvez fosse mais próprio falar-se em interdependência e complementaridade, quando se se refere a estas duas entidades tão intimamente ligadas por fortes laços histórico-culturais, do que procurar ver a dependência de um em benefício de outro.
Por fim e muito rapidamente para terminar, podemos dizer que a obra que nos foi dado ensejo de recensear, apesar dos seus aspectos positivos e das suas incursões em terreno tão árido quão difícil, não dispensa, de modo algum, os clássicos como Teixeira da Mota, António Carreira, Fausto Duarte, João Barreto, Cristiano José de Sena Barcelos, entre outros. Tem, por outro lado. uma grande virtude, na medida em que sistematizou um conjunto de informações sobre este período conturbado da Guiné. informações essas que, por esparsas, teriam o seu acesso muito mais dificultado. Nesse aspecto, o esforço do autor valeu bem a pena. Além disso, abre novas pistas de investigação que devem ser aproveita­das pelos potenciais interessados na matéria, particularmente os historia­dores do jovem Estado da Guiné-Bissau. Exige. simultaneamente, um maior aprofundamento do lema em si, alargando a área de actuação, tentando perceber o todo no conjunto social, económico, cultural...


3 de fevereiro de 2012

378-Fernão Vaz, um explorador ignorado

       A descoberta do litoral africano entre a Serra Leoa e o Congo efectuou-se em circunstância que hoje são muito mal conhe­cidas, devido à escassez das fontes. Os elementos principais encontram-se em DUARTE PACHECO (c. 1505) e JOÃO DE BARROS ( 1552). 

O progresso desta exploração está intimamente ligado à activi­dade de Fernão Gomes, rico mercador de Lisboa a quem D. Afonso V. em 1469, concedeu o arrendamento, por cinco anos, do comércio das novas regiões, com a obrigação de descobrir anualmente 100 léguas de costa.
A última viagem de descobrimento de que há notícia anteriormente a esta data é a de Pedro de Sintra, em 1461 ou 1462, em que foi atingido o Bosque de Santa Maria, perto do Cabo Mesurado (Libéria), segundo relata CADAMOSTO (1507).
A primeira expedição da iniciativa de Fernão Gomes, de que há conhecimento, partiu de Portugal em fins de 1470, chefiada por João de Santarém e Pero de Escobar, atingindo, em Janeiro de 1471, Shama, na Costa do Ouro. Ignora-se, porém, se esses navegadores foram mais além.
De preciso, as fontes actualmente conhecidas apenas dizem que a Ilha de Fernão do Pó foi descoberta, em data ignorada, pelo navegador deste nome, que lhe chamou Ilha Formosa (como vem no atlas de SOLIGO, 1486), e que os Cabos de Lopo Gonçalves e Santa Catarina foram descobertos, respectivamente, por Lopo Gonçalves e Rui de Sequeira, cm datas também ignoradas. Fora disto, as fontes apenas indicam claramente que João Afonso de Aveiro, em 1486, explorou a região de Benim.
DUARTE PACHECO (c. 1505) diz ainda que o Rio de Soeiro, entre o Cabo das Palmas e o Cabo das Três Pontas, deve o nome ao nave­gador Soeiro da Costa, não dizendo porém em que ano foi descoberto.
O mesmo autor, no delta do Níger, a leste do Cabo Formoso, indica um rio com o nome de Pero de Sintra, o que levou FONTOURA DA COSTA (1938) a concluir que este navegador (descobridor da Serra Leoa) também colaborou na exploração do Golfo da Guiné.
Vários investigadores se têm ocupado do estudo do descobrimento do Golfo da Guiné, procurando, apoiados nos escassos elementos documen­tais referidos, reconstituir a sequência dos acontecimentos. De entre os trabalhos mais recentes, citamos os de FONTOURA DA COSTA (1937, 1938 e 1940), BLAKE (1937 e 1942), PERES (1942) e BOUCHAUD (1946).
O nosso objectivo, na presente comunicação, é apresentar mais alguns novos elementos para o estudo do problema, Referem-se eles a três nave­gadores: João de Santarém, Diogo Cão e Fernão Vaz. Os dois primeiros já eram largamente conhecidos; o último mostraremos ter também contribuído para a exploração do Golfo da Guiné. 
a)      João de Santarém
Já se sabia, até aqui, que João de Santarém, com Pero de Escobar, descobrira Shama, em 1471.
Uma carta náutica anónima, da Biblioteca Nacional de Paris, não datada mas que deve ser de circo 1500, e que se tem atribuído a Cristóvão Colombo, mas se afigura antes ser portuguesa, regista, no delta do Niger. a leste do Cabo Formoso, um rio com o nome de João de Santarém. Este facto permite concluir que João de Santarém também contribuiu para a descoberta ou exploração do delta do Níger.
b)  Diogo Cão
Em 1479-80 o flamengo Eustache de la Fosse, a bordo dum navio espanhol, fez uma viagem à Costa do Ouro, sendo aí aprisionado por uma frota portuguesa, de que fazia parte um navio comandado por Diogo Cão. Estes factos são descritos pelo referido flamengo numa relação de que recentemente R MALXY (1949) fez nova publicação.
Como o rei D. João II escolheu Diogo Cão para comandar as expe­dições que em 1482-84 e 1485-86 descobriram o litoral desde o Cabo de Santa Catarina à Serra Parda (no Sudoeste Africano), é lógico deduzir que o fez devido a qualidades reveladas anteriormente por Diogo Cão e que o recomendariam para tal encargo. É de admitir, portanto, em face deste conjunto de factos, que Diogo Cão colaborou activamente na des­coberta ou na subsequente exploração das costas do Golfo da Guiné.
c) - Fernão Vaz
Ainda o mesmo Eustache de la Fosse refere que da frota portu­guesa que estava em 1480 no Golfo da Guiné fazia parte um outro navio, comandado por um cavaleiro chamado Fernand de les Vaux. Esse navio foi a certa altura ao Rio dos Escravos (no delta do Níger).
BLAKE (1937 e 1942) julga que o nome Fernand de les Vaux constitui deturpação de Fernão do Pó, descobridor da ilha com esta designação.
MAUNY (1949) admite, porém, que se trate do nome português Fernão Vaz.
É esta última opinião a que julgamos mais provável, para o que nos baseamos nos dois factos que passamos a referir:
1) - Uma carta náutica de GASPAR VIECAS, de 1534, traz imedia­tamente ao norte do Cabo de Santa Catarina, um rio com o nome de Fernão Vaz. Essa designação manteve-se até hoje, trazendo as cartas actuais, nesse local, a Lagune de Fernan Vaz e a povoação do mesmo nome. Embora tal designação não apareça nas fontes anteriores a 1536 que consultámos - SOLIGO (1486), MARTELLUS (1489), MARTINHO DA BOÉMIA (1942), LA COSA (1500), carta anónima de Paris (c. 1500), CANTINO (1502), DUARTE PACHECO (c, 1505), KUNSTMAN III (post. 1506) - é possível que se encontre em outras que não vimos.
2) -O Manuscrito de VALENTM FERNANDES (c. 1507), na descrição da Ilha de S. Tomé, indica uma ribeira com o nome de Fernão Vaz.
Estes factos levam-nos a concluir que o Femand de les Vaux referido por Eustache de la Fosse deve ser o Fernão Vaz a que dizem respeito o rio e a ribeira mencionados.
Nestas condições, parece lógico admitir ter havido um navegador Fernão Vaz, que em 1479-80 comandava um navio em serviço no Golfo da Guiné, que esteve na descoberta ou exploração do Rio de Fernão Vaz no Gabão e que foi provavelmente um dos primeiros colonizadores de S. Tomé. 
Avelino Teixeira da Mota, 2.° Tenente 
(*) Comunicação apresentada à lII Conferência Internacional dos Af rica­nistas Ocidentais (Ibadan, Dezembro de 1949).


1 de fevereiro de 2012

376-Dispositivo e armamento do PAIGC na guerra colonial


Excertos da “Análise da actividade da guerrilha”, contida no último relatório da 2ª REP do CTIG (2ª Repartição do Comando Territorial Independente da Guiné), do qual já dei notícia aqui. Os meus agradecimentos, mais uma vez, ao Luís Vaz pela cedência desse documento, e também ao Sousa e Castro, de cujo blogue copiei duas fotografias.
 
"A actividade da guerrilha do PAIGC, em 1973, processou-se de acordo com os padrões normais dos anos anteriores, tendo apresentado no entanto a seguinte particularidade: o ponto alto verificado no final da época seca (em MAI73) correspondeu a cerca do dobro das acções registadas em 1972, na mesma altura, e o decréscimo observado durante a época das chuvas foi mais acentuado e prolongou-se para além da época seca, até NOV73.
No entanto a partir do final de DEZ73, a actividade da guerrilha aumentou muito acentuadamente, tendo sido em todos os meses do primeiro trimestre de 1974 mais elevada que nos meses homólogos do ano anterior.
Deste modo ao empolamento da actividadfe da guerrilha em 1973, sucedia outro tanto em 1974.
O habitual ponto alto que se previa para ABR/MAI74, e tudo fazia admitir mais violento que o de 73, só foi sustido pela ocorrência do Movimento de 25ABR."

ANÁLISE DOS QUADROS JÁ PUBLICADOS ANTES (VER):

▀ No ano de 1973 as acções de guerrilha (1.514 – 1.033 de iniciativa do PAIGC e 481 de reacção), aumentaram em 11% relativamente a 1972 (1.359 – 760 de iniciativa do PAIGC e 599 de reacção). Houve um aumento de iniciativas do PAIGC em 35%. Acrescenta o relatório que “Esta tendência – aumento da actividade de iniciativa – acentuou-se mais nos primeiros quatro meses de 1974 (+50%), período em que se registaram 415 acções de iniciativa, total significativamente superior às 276 realizadas pelo PAIGC em igual período de 1973”. Refere que estes números reflectem uma maior agressividade e potencial revelados pelas FARP (Forças Armadas Revolucionárias do Povo, exército do PAIGC) e uma diminuição da reacção e menor capacidade ofensiva das NT (Nossas Tropas).
▀ Em 1973 as NT tiveram mais do dobro dos mortos (185) do que em 1972 (84), sendo o total de mortos até 30 de Abril de 1974 (81) quase tantos como em 1972.
Diz: “Era notória a evolução do abandono progressivo de actividade de guerrilha dispersa em superfície, em proveito das acções maciças contra objectivos definidos, obrigando a grandes balanceamentos de meios, por vezes, envolvendo elementos de todo o TO [Teatro de Operações].” E menciona o PAIGC com novas armas (Míssil Strella e Viaturas Blindadas) e maior emprego de outras (Mort 120, Fog 122, Canh 85, Canh 130, Minas Especiais).

DISPOSITIVO GERAL DO PAIGC E OBJECTIVOS:

“Ao longo de toda a fronteira e nos países limítrofes, o PAIGC dispunha de Bases com estruturas e Comandos próprios, perfeitamente integrados na sua organização militar e que, em conjunto com os corredores de infiltração e áreas fulcrais no interior do TO, constituíam a malha do seu dispositivo.
Algumas das Bases ao longo da fronteira tinham simultaneamente carácter operacional e logístico, constituindo pontos de apoio à entrada de grupos armados e de colunas de reabastecimento.”

As Bases eram estas:
▀ Na ZONA OESTE: N’PACK, CAMPADA, SIKOUM, CUMBAMORY e HERMACONO, na faixa fronteiriça do Senegal, actuando contra as fortificações de S. DOMINGOS, INGORÉ, GUIDAGE, FARIM e CUNTIMA e infiltrando-se, pelos corredores de SAMBUIÁ e LAMEL, para as áreas fulcrais de:
- TILIGI, NAGA-BIAMBE e CABOIANA-CHURO, ameaçando directamente o Chão Manjaco e as povoações e aquartelamentos ao longo do eixo CÓ-BULA-BINAR-BIAMBE-BISSORÃ;
- BRICAMA, MORÉS e SARA donde ameaçava as povoações e aquartelamentos ao longo do eixo MANSOA-MANSABÁ-FARIM, a península de NHACRA e, indirectamente, a ilha de BISSAU.
▀ Na ZONA LESTE: na zona fronteiriça do Senegal, FAKINA, SAMBOLECUNDA, SARE LALI, SUCO/PAYONGON e LENGUEL/SERENAFE, ameaçando as regiões da fronteira Norte em direcção a BAFATÁ/NOVA LAMEGO.
▀ Na REP. GUINÉ:
- FOULAMANSA/KAORANÉ/MISSIRÁ e FOULAMORY, ameaçando toda a zona Lesta e particularmente, a NE, os aquartelamentos de PICHE, BURUNTUMA e CANQUELIFÁ;
- KAMBERA, por ORE/CAPEGE, e CHECHE-PIRI, ameaçando as regiões de Dulombi/Camjadude e, mais remotamente, GALOMARO/BAFATÁ;
- KOUNDARA, centro  logístico que apoiava todo o Leste e Norte.
▀ Na ZONA SUL:
- KANDIAFARA, a partir da qual irradiava para actuar sobre as guarnições fronteiriças de ALDEIA FORMOSA, GADAMAEL e CAMECONDE e servia de pnto de apoio aos grupos de guerrilheiros e colunas logísticas que penetravam pelo corredor de GUILEDGE em direcção ao UNAL, área fulcral do Sul, donde se dirigiam para:                 
                       . INJASSANE depois para-»QUÍNARA e BAFATÁ/XITOLE/SARA
                       . TOMBALI, CUBUCARÉ, COMO
- BOKÉ, centro logístico que apoia toda a Zona Sul e orienta os abastecimentos para Leste e Norte desembarcados no seu próprio porto ou no de KANSAR.


Mas, como se vê no mapa acima, eram mais as Bases que o PAIGC tinha quer no Senegal quer na Rep. Guiné.
Ver também aqui os corredores de infiltração a Norte.

POTENCIAL DE COMBATE DO PAIGC

▀ Cerca de 7.500 combatentes, em 1973/74: 4.500 nas FARP e 3.000 nas forças armadas locais (milícia popular e guerrilha).
No princípio de 1974 encontravam-se em instrução no CIPM de KAMBERA (MADINA DO BOÉ) cerca de 300 elementos por trimestre e que nos CI dos países de Leste e em Cuba se encontravam 500 dos seus quadros em diversos grupos de preparação.
Durante a ofensiva de Maio/Junho de 1973 e 1º trimestre de 1974 foram referenciados vários elementos estranhos ao PAIGC, de tez branca, depreendendo-se que recebiam ajuda em homens de países apoiantes, nomeadamente de Cuba.
▀ Nesse período foi detectado novo armamento e maior quantidade de outro já utilizado, destacando-se:
Míssil SA-7 Strella
Morteiro 120
Foguetão 122
Canhão 130mm
Viatura blindada BRDM-2





“Refere-se que num relatório do Comité de Libertação da OUA, efectuada em MOGADÍSCIO de 15 a 21OUT73, se mencionava a futura satisfação para 1974 das seguintes necessidades fundamentais do PAIGC, no que diz respeito a material de guerra:
. Artilharia de longo alcance (15 e 30 km)
. Material de transmissões mais eficaz para coordenação das acções Inf-Art.
. Maior quantidade de Míssies terra-ar portáteis individuais, visto que as peças ou metralhadoras que possuíam (37: 12,7 e 14,5mm) em virtude do seu peso não podem actuar no interior do TO.
. Viaturas blindadas.
. Vedetas ultra-rápidas (40 nós de velocidade) para actuar especialmente na área do porto de BISSAU.
. Batrcos de borracha para actuação nos rios e minas aquáticas.
. 2 a 3 navios de longo curso para ligações com as ilhas de CABO VERDE.
Quanto a meios aéreos, apesar de várias notícias o referirem com insistência, o PAIGC não dispunha de aviação para apoio aéreo eficaz. Sabia-se da existência e aviões ligeiros na REP GUINÉ e era referenciado grande número de sobrevoos suspeitos, nomeadamente com MIG’s-17 e helicópteros. Admitia-se, entretanto, que a situação evoluísse, e o PAIGC pudesse vir a dispor de alguns aviões (seus ou cedidos pela REP GUINÉ) pois sabe-se de fonte segura, que estavam na RÚSSIA, para frequentar um curso de pilotagem (desconhece-se o tipo de avião), 28 recrutas do PAIGC.”