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18 de março de 2011

85-Alguns manuais da EPI - Mafra



A não ser o da G3, fiel e permanente companheira na Guiné, os outros não tiveram utilidade nenhuma.

84-A emboscada

GRANDE REPORTAGEM SIC - 6 de Fevereiro de 2011

16 de março de 2011

83-Amor em tempo de guerra

Sabe bem estar aqui debaixo do meu mosquiteiro. Os outros foram para o mato. Eu hoje não fui. É bom estar sozinho às vezes. No último ataque deram cabo das camas, só tenho este colchão no chão, sei lá quando vêm novas camas. Tenho o mosquiteiro preso ao tecto, mas o problema é que, agora, são também as formigas. Paciência. Mas o que ma chateia mais é que também deram cabo da minha Yashika, a minha querida máquina fotográfica que apanhava tanta coisa. Quando era possível, claro. Mas era um gravar de lembranças, coisa que não poderei fazer mais.
Tenho saudades da Júlia, do cabelo e da pele dela, dos suspiros quando fazíamos amor, das conversas sobre a Faculdade de Letras. Talvez lhe faça um poema.
Não sei. A Júlia não me escreve, não me diz nada. Na última carta que lhe enviei tentei motiva-la a dizer-me o que se passa, mas ela não me respondeu.
E como é possível fazer poesia sem ter nada de poético no interior nem nada de inspirador que nos envolva? Entaramela-se-me a escrita e não posso evitar a procura do rebuscado e da frase bonita, que não sai porque estou demasiado prosaico. Sempre fui confuso, vacilante e incapaz nestas coisas de amor.
O silêncio dela não me ajuda. Como é possível pensar em amor e fazer poesia se nos rói a ansiedade? Como tecer raízes com versos se o futuro nos falta? Como colher flores em terra ressequida e gretada, sem a pinga de água dela? Tenho um mundo em mim, mas sinto-me sozinho no mundo. Tenho promessas no peito e no olhar mas sinto-me perdido no vazio. Para quê? Para que vale tudo o que tenho?
Não interessa. Sai o que sair.

Que está a suceder comigo?
Que sucedeu
na escuridão serena dos campos e das árvores
neste calor brando da noite
entre as vozes dos bichos da floresta?

Deixei-me apanhar na rede
que eu julgava já inexistente
para mim.

Que hei-de fazer
como fugir
se a rede está nas tuas mãos
amor?

Vais-me libertar
apertando-a bem contra o teu regaço
ou
vais tirar-me a liberdade
abandonando-me na floresta?

Vim de tão longe para longe
tão prevenido e seguro
tão decidido a nunca mais

vim tão certo
guardado por mim mesmo

jurei tanto que nunca mais
mas estou nas tuas mãos
amor

Se me largares ficarei preso a ti
e quão difícil e penosa é a luta pela liberdade
assim

Se me prenderes a ti dás-me a liberdade
o sol
a vida
o teu ar inebriante


14 de março de 2011

82-Guia do Instruendo - EPI - Mafra

Lembranças para quem por lá passou...


HINO DA EPI
DESCRIÇÃO HERÁLDICA DO GUIÃO DA E.P.I.







81-Operação Fanta

Extraído de "PARA UM DOSSIER GUINÉ", publicado na revista "Vida Mundial" de 19 de Novembro de 1971






13 de março de 2011

80-Além de sangue, suor e lágrimas, além da juventude perdida... que mais de nós lá terá ficado?

Tinha feito há pouco 23 anos quando cheguei à Guiné, aos 20 saíra do seminário. Tinham sido três anos a procurar libertar o amor amordaçado com acenos de futuras delícias celestiais, às vezes, e, as mais das vezes, com ameaças de eternos tormentos infernais.  As palavras aprisionadas e apertadas em sapatos de normas e mandamentos divinos apenas serviam para dançar nos lotus do jardim do senhor e embevecer-lhe o olhar. Era o que ele desejava, que eu dançasse bem perante o seu olhar.
Depois, naqueles três anos, já não deram para quem eu queria então deslumbrar com os meus talentos. Vi, com amargura, que não tinha nenhum para o que verdadeiramente precisava. A Natércia, filha da burguesia empresarial, trocou-me por um contabilista da Standard Eléctrica, a eurasiática Ângela e minha colega de Letras, filha de um coronel, achou que eu não tinha nível e deixou-se enredar por um gajo de Direito.  Aqueles gajos do outro lado vinham muito ao bar de Letras, ali é que havia caça, e houve um que me levou a Ângela. Foi depois a Dinora, já eu estava em Mafra, que me puxou para trás de um reposteiro da casa dos pais, era terrível mulher, mas veio a mãe dela e descobriu-nos em situação que não gostou. Fui escorraçado e nunca mais me quiseram ver. Nessa fase da tropa veio também a Alexandrina.  Boa moça e bonita, mas era demasiado religiosa, teve até a ideia de me oferecer uma estatueta de Santo Expedito, é o patrono dos militares, disse-me toda entusiasmada. Mas eu não gostei, santos nunca mais, e decidi acabar. Os bares que frequentei e as suas mulheres, a orgia que fizemos antes de embarcar serviram-me para desforra.
Fui, então, para a guerra, da primeira vez, sem deixar saudades a ninguém nem levar lembranças para me entreterem a alma. Conheci em Geba duas miúdas fantásticas, a Maria e a Gabi, duas cristãs. Houve amor, muito amor, amor que eu desconhecia, amor doação sem outro interesse.  Não sei, talvez o meu ar juvenil e débil as cativasse, sabendo que eu andava horas e dias no mato.
- “Alfero, ka fudi, ka pudi panha bariga” (alferes, foder não, não posso ficar de barriga), diziam-me quando lhes tirava o lope (pano que substitui as cuecas, envolvendo as pernas e as nádegas; cobre-sexo).
- “Oh, não…”, eu decepcionado… e já excitado.
- “Oi, manga dele, alfero! (Oi, está grande, alferes)”, e riam-se a olhar para o meu estado, “disinketa, bu pudi fika diskansadu, bo sikidu. Maria (ou Gabi) fasi manga de coisas boa. (está calmo, podes estar descansado, está quieto, Maria (ou Gabi) vai fazer-te muitas coisas boas)”
Eram maravilhosas. O carinho que eu precisava no meio daquilo.
Da segunda vez fui para Barro, graças ao Quecuta, conheci a Uace e a Signi. Mulheres de fanado, eram mais calmas, menos excitáveis. Eu falava com elas e elas gostavam, de certeza que o Quecuta não lhes dava muita conversa na cama.
- “Alfero es bom (o alferes é bom)”, diziam-me.
Um dia saltou-me uma ideia à cabeça. E se uma delas engravida? Vai ser um bico de obra.  Achei por bem falar com o Quecuta.
- “Quecuta, ka problema si mindjer di bo ten fidju di branco? (Quecuta, não há problema se a tua mulher tiver um filho de branco?)”
Riu-se:
- “Uace, Signi ka ten  fidju di bo (Uace, Signi não vão ter um filho teu)”.
Fiquei espantado com tanta certeza.
- “O quê!? Como é?”
- “Quecuta ieki  dungut ris di bambu in liti di kabra (Quecuta desfaz uma raiz de bambu em leite de cabra).
Fiquei a saber que a raiz de bambu molhada em leite de cabra era uma espécie de anticonceptivo que usavam quando não queriam que as mulheres tivessem filhos. O Quecuta dava-lhes a comer dessas raízes.
Mas porque estou eu a divagar sobre isto? Aqui, sentado à varanda da D. Berta, não vejo nada porque Bissau não tem electricidade, deve ter faltado mais um vez o petróleo para os geradores. Só dá para pensar, e deu-me para isto porque cheguei esta tarde de uma visita a Barro, onde tomei conhecimento de duas situações que me tocaram muito.
Em conversa com o Bala Sani, filho do Quecuta Seidi, e depois de saber que o pai dele já tinha morrido, ele disse-me que havia na tabanca um “filho de branco”.
- “Manda-o chamar, que eu gostava de falar com ele”.
Disse a uns miúdos para o irem buscar, mas estes regressaram a dizer que ele não queria vir.
- “Então, vou lá eu”.
E fui, levando os miúdos todos atrás de mim.
Envergava uma berrante camisola do Benfica e pareceu-me de trinta e poucos anos. Achei-o pouco à vontade mas deu para falar.
Jorge Gomes
- “Chamo-me Jorge Gomes, tenho trinta e três anos. O meu pai é  Fernando Gomes, foi ele que me deu o nome”.
- “Mas ele sabe que tu existes?”
- “Sabe. Às vezes manda-me coisas”.
- “E porque não vais ter com ele?”
- “Ele não quer que eu vá para Portugal”.
Não quis aprofundar esta recusa do pai dele, mas interroguei-me interiormente sobre que razões poderá ter um pai para deixar um filho tão longe e não querer tê-lo perto de si.
- “E a tua mãe? Qual a etnia dela?”
- “Não conheci a minha mãe. Ela foi embora da tabanca quando eu nasci, os mandingas não a quiseram cá. Ela era mandinga.”
Imaginei, pela idade do Jorge Gomes, que o pai dele devia ser de uma das últimas companhias que esteve em Barro, senão mesmo da última. E talvez já depois do 25 de Abril. Fácil de calcular que o Quecuta Seidi, chefe da tabanca, não teria perdoado a esta mulher, certamente em idade casadoira e, se calhar, já prometida. Gostava de ter tido mais tempo para saber mais pormenores deste caso, mas o grupo que eu acompanhava estava com pressa e tivemos que partir.
Fomos a Bigene. Não sei se por transmissão de pensamento, se por mensagem de bombolon, se por telemóvel, sei lá como foi, mas em Bigene deparou-se-me um caso idêntico.
Bacar Turé
Tinha trinta e poucos anos.
- “Olá, eu sou o Bacar Turé”.
- “Viva, Bacar”.
- “Vocês estiveram em Barro. Eu também sou filho de branco, como o Jorge de Barro”.
Estava à espera de qualquer pedido, não disto. Mas deixa lá ver.
- “Quem é o teu pai?”
- “É o imediato Varela, médico do destacamento 21 dos fuzileiros que estavam em Ganturé (porto no rio Cacheu, a sul de Bigene)”.
- “Mas como é que sabes que ele é teu pai?”
- “A minha mãe disse-me. Já morreu, mas o comandante também sabe”.
- “O comandante?”
- “O comandante Calvão”
- “O Alpoim Calvão?”
- “Sim”.
Os marinheiros têm um amor em cada porto por onde passam, dizem. Mas Ganturé não foi um porto de passagem. O Alpoim Calvão não deve ter tratado este caso da melhor maneira.
- “Mas tu chamas-te Bacar Turé…”.
- “O imediato Varela foi-se embora e não me quis dar nome.”
Desta varanda da D. Berta olho para a avenida em escuridão total. E vi escuridão, além da guerra, em casos da nossa passagem pela Guiné. Será que o Fernando Gomes e o imediato Varela não tiveram a sorte que eu tive ou as precauções que me foram impostas? Ou assumiram relações, sem pensar nas consequências, porque sabiam que eram passageiras. Deixar para trás as consequências? Eu não faria isso. Talvez porque não tinha saudades de ninguém nem lembranças que me amarrassem. Eles teriam-nas, se calhar. Mas mesmo assim…

11 de março de 2011

79-Salazar "traiu" a Guiné em 1963

É um título do "Diário de Notícias" de 28 de Dezembro de 1998 a propósito deste livro do embaixador Luiz Gonzaga Ferreira
Editora Vega, 1998, Colecção Memórias, Crónicas e Outros Temas


E sobre ele escreve Carlos Albino, correspondente diplomático do DN, nessa mesma edição do jornal:

«Pela primeira vez, em letra de forma e com assinatura responsável, se relata como Salazar inviabilizou em 1963 uma transição pacífica e negociada na Guiné-Bissau. Quem o faz é o diplomata que, colocado então em Dacar, esteve no centro dos acontecimentos, o embaixador Luiz Gonzaga Ferreira. Com todos os pormenores e enunciando as dúvidas que persistem em tomo do que foi uma verdadeira "traição" de Salazar.
É deveras novo que Salazar tenha autorizado que fosse comunicado ao então presidente do Senegal, Léopold Senghor, a aceitação de negociações em Bissau com uma organização nacionalista emergente, estatutariamente pacifista e com o apoio expresso de Dacar (a União dos Naturais da Guiné Portuguesa, UNGP); que tenha recebido a sós o secretário-geral do agrupamento, Benjamim Pinto Bull, pouco tempo após um outro encontro presenciado por Franco Nogueira, e que, inclusivamente, tenha incumbido uma missão chefiada por Silva Cunha e integrando o diplomata Luiz Gonzaga Ferreira, que partiu para Bissau com a finalidade de negociar com a UNGP.
Nesse segundo encontro, em Julho de 1963, Salazar autorizara Pinto BulI a informar Senghor e as autoridades senegalesas nestes termos: "Diga-lhes que estou a estudar tudo o que me trouxe e me propôs. Diga-lhes, ainda, que as respostas serão favoráveis."

Sem nada justificar, sem qualquer pré-aviso e quebrando a palavra assumida perante Pinto Bull, que, a partir de Dacar, se preparava para se deslocar com uma delegação à capital guineense, Salazar deixou a missão "pendurada" em Bissau com mais um dos seus férreos discursos em 12 de Agosto de 1963. Silva Cunha, Alexandre Ribeiro da Cunha, Luiz Gonzaga Ferreira e o já governador da então colónia Vasco Rodrigues, que também aprovava o projecto de autonomia progressiva, tal como as altas chefias militares então sediadas na região, sabendo todos que o processo culminaria no acto de autodeterminação, tomaram conhecimento de que também eles tinham caído num logro e feito uma viagem infrutífera pelos altifalantes da outrora Emissora Nacional mãe de todas as RDP de hoje.
 "A UNGP ousava falar de paz e cooperação e, mais ainda, de evolução política faseada - estávamos em 1963", recorda Luiz Gonzaga Ferreira, acrescentando que Senghor, seis anos mais tarde, iria inspirar-se em dois dos objectivos de Pinto Bull para avançar com um plano de paz para Bissau. Em visita a Casamansa (Março de 1969), Senghor sugeriu a Lisboa: 1) cessar-fogo seguido de negociações sem condições prévias· 2) negociações para um período de autonomia interna entre representantes do Governo português e representantes dos movimentos políticos de Bissau; 3) independência acordada no quadro de uma comunidade luso-africana. Faz lembrar o plano que corre para Timor-Leste ...
 Senghor repetiu a proposta várias vezes e já em 1970, recorda o embaixador, Alexandre Ribeiro da Cunha era enviado em missão a Dacar, sendo-lhe reiterada de novo invocada a hipótese de autonomia para a Guiné. "Do que ouviu, foi portador a Lisboa. Era uma das muitas tentativas para sensibilizar os ultraconservadores que mantinham Marcello Caetano prisioneiro da intransigência que Salazar fizera pesar sobre Portugal e as suas instituições desde o seu discurso de 12 de Agosto de 1962."
 Luiz Gonzaga Ferreira acredita que se o plano da UNGP não tivesse sido inviabilizado por Salazar, aconteceria "um processo semelhante" nas restantes colónias portuguesas em África.
"A fase crucial da aceitação da UNGP pelo presidente do Conselho começara com a minha chamada em serviço a Lisboa (Gonzaga Ferreira era então encarregado de negócios em Dacar), nos princípios da Primavera de 1963, para discutir com o MNE e o Ministério do Ultramar os contornos da operação "Camaleão" - que poderia representar o fim da ofensiva guerrilheira do PAIGC - as potencialidades que oferecia, as suas virtudes e os vícios que eventualmente contivesse e, caso pesassem aquelas e não estes, qual o faseamento a dar-lhe para atingirmos todos os objectivos pretendidos por uma e outra parte." Até então, diz o diplomata, o assunto da UNGP apenas tinha sido discutido em Lisboa "através de mala diplomática e de telegramas", ao contrário do que acontecia em Bissau, onde a questão "foi discutida até à exaustão", primeiro com o governador Peixoto Correia e depois com Vasco Rodrigues. "A proposta da UNGP parecia uma solução justa. Preparava ao futuro através de uma autonomia, que, uma vez proclamada e dado o arranque, ninguém a poderia deter. E não se podia dizer à partida que o projecto fosse viciado ou condenável, só porque os seus impulsionadores entendiam devê-lo assentar em premissas não necessariamente de esquerda."

 Quem queria anexar Bissau? 
Contrariamente ao que Salazar pensava com anuência de Franco Nogueira, a Guiné­Conacri é que tinha propósitos expansionistas 
Gonzaga Ferrerira considera que Salazar, ao atribuir ao Senegal propósitos de anexar a Guiné-Bissau por alegado intermédio da UNGP de Pinto Bull, "fazia aí uma extrapolação incorrecta e por de mais injusta". Argumenta o embaixador que "deduzir das intenções senegalesas para com a Senegâmbia, construção colonial abstrusa encravada em plena terra do Senegal, uma (intenção) de igual sinal para a Guiné portuguesa, entrava no domínio do sofisma que se quer atirar a todo o transe para o encurralar e obstruir-lhe toda a retirada digna".
Peremptoriamente, Gonzaga Ferreira garante que "Salazar sabia-o bem, quer de fontes várias quer dos meus telegramas".
 O embaixador lembra que, semanas antes da sua chamada a Lisboa para a avaliação das negociações com a UNGP, informara a capital portuguesa que ao embaixador Fragnito (da Itália, em Dacar) fora dado ler documento que relatava o último encontro de Senghor com Sékou Touré em Conacri, quando o Chefe de Estado senegalês ali fez escala a caminho de Cotounou, onde ia assistir à Conferência da UAM.
Quando Senghor quis propor a Touré que apreciassem em conjunto o problema da Guiné portuguesa "para estarem preparados para o momento em que os portugueses dali saíssem", o dirigente de Conacri "cortou cerce e com inusitada brusquidão qualquer veleidade do seu interlocutor nessa matéria. E disse a Senghor: "Se a Guiné portuguesa se denomina portuguesa agora, mas retirando-se os portugueses, e deixa de ser portuguesa, continua a ser sempre Guiné." E que "visse bem Senghor que era Guiné portuguesa e não Senegal português", pelo que este assunto em nada dizia respeito a Senghor "e que ele, Sékou Touré, é que dele teria de ocupar-se, chegado o momento apropriado" .
Gonzaga Ferreira garante que Sékou Touré "opôs sistemática recusa a tratar o assunto sempre que Senghor quis a ele voltar".
 Se a confiança, que graças à UNGP se recuperara em muitos meios guineenses da região senegalesa do Cabo Verde e de Casamansa - lembra o embaixador Luiz Gonzaga Ferreira -, começava a ser algo abalada com as notícias alarmantes sobre a incapacidade das forças portuguesas para se oporem à penetração do PAlGC no Sul, a partir das bases na Guiné-Conacri, "Senghor, que acompanhava os acontecimentos na Guiné, sentia-se cada vez mais atormentado com o espectro de um triunfo de Amílcar Cabral, que em seu entender seria antes uma vitória para Sékou Touré, pois respondia aos seus desígnios expansionistas, com todos os riscos de vir a assistir-se à formação de uma coligação, senão a uma verdadeira integração radical ao sul de Casamansa".

Carta de Amílcar Cabral reforçou apoio à UNGP
Líder do PAIGC não poupou elogios ao governador
Uma carta de Amílcar Cabral entregue em 1962 a Gonzaga Ferreira com destino ao governador da Guiné, Peixoto Correia, acabou por reforçar a aposta do governador na UNGP. Peixoto Correia, que pouco depois seria nomeado ministro do Ultramar­ "ganhou-se um ministro normal, perdeu-se um governador excepcional", comenta Gonzaga Ferreira -, recebe inusitados elogios do líder do P AlGC, que define a iniciativa como "uma inegável confiança na sua inteligência e no seu amor consciente à terra ao povo a que pertence" e refere que "a adopção de uma atitude positiva e construtiva por parte das forças colonialistas depende principalmente das autoridades coloniais, da consciência, do bom senso e do patrotismo que elas forem capazes de dar prova. Isso também depende, em particular, de Vossa Excelência ... ". E acrescenta: "O nosso partido propõe-se estudar e discutir com V. Ex3 um plano para a libertação do nosso povo do jugo colonial sobre a base do direito à autodeterminação e à independência." Mas antes referiu "a política criminosa e suicida de Salazar" ... Comenta obviamente o embaixador que a carta estava ferida à partida de um non recevoir. Com isto, Peixoto Correia acabou por apoiar a UNGP, "que se propunha atingir a independência por fases". 



 Bull quis a via da negociação
Missão em Bissau preparava reconhecimento oficial da UNGP, que tacticamente omitiu a autodeterminação dos estatutos. Notáveis do PAIGC viam já com bons olhos uma solução faseada
A União dos aturais da Guiné Portuguesa (UNGP), criada a meio do ano de 1962 por entre sucessivos ataques dos outros movimentos nacionalistas, distinguia-se de todos por estatutariamente defender a paz e a conciliação.
Umaro Gano, primeiro impulsionador do movimento inspirado pelo pensamento de senegaleses como Lamine Gueye e Senghor, foi quem pela primeira vez procurou o embaixador Luiz Gonzaga Ferreira, em Dacar.
Gonzaga Ferreira fixou a primeira ideia que teve da organização como visando "uma autonomia interna musculada, em essência voltada para a preparação aprofundada e acelerada da guinenização dos quadros e das profissões de todo o tipo e nível", com uma "comunidade de interesses quanto à política externa". Benjamim Pinto Bull, que se juntou ao grupo de Gano, tomou-se pouco depois secretário-geral da nova organização nacionalista a principal influência da UNGP vinha do próprio Senghor.
"Ouvi-o e logo abracei a ideia proposta" confessa o embaixador para quem era evidente na ocasião, para quem observasse o quadro das instituições nacionalistas na Guiné-Conacri e no Senegal "que uma nova organização teria de distanciar-se de todas as demais para poder ganhar espaço e audiência" e que, "no fundo, Umaro Gano e Pinto Bull diziam, cada um à sua maneira, a não aceitar a via do diálogo que a UNGP propunha, seria Portugal a preparar a sua própria derrota e expulsão da Guiné".
Gonzaga Ferreira garante que, em Bissau o governador Peixoto Correia "comungava" das sua aposta na "via autonómica na Guiné portuguesa como precursora a um outro mais elevado estatuto". O embaixador toma evidente que a UNGP omitiu tacticamente nos estatutos uma qualquer referência à autodeterminação e assevera que, com o modelo da UNGP, "o Senegal munia-se de um instrumento que, a ser experimentado no terreno - e isso já era connosco -, pelo qual seria possível opor ao guerreirismo do PAIGC uma força de paz e aos movimentos sediados em Dacar, e com algumas ramificações em Casamansa, uma organização credível pela seriedade dos seus propósitos", pois "a organização de Gano e Pinto Bull (UNGP) criara-se com o objectivo claro e incontornável de se sentar à mesa com o Governo português para negociar a autonomia imediata para a Guiné". Peixoto Correia, Silva Cunha, Vasco Rodrigues, José Manuel Fragoso (director político do MNE) sabiam muito bem que, "ao falarem de autonomia avançada, os homens da UNGP nunca por aí se lhes deteria o pensamento e a vontade, que aquela jamais os satisfaria".
"O que estava em causa, o que se ia jogar em Bissau a meados do mês da Agosto de 1963, era uma tentativa de passagem de testemunho ordeira e organizada" e a UNGP, que, entretanto havia já estabelecido compromissos com diversos outros chefes nacionalistas "com destaque para três dos altos responsáveis militares do P AlGC, segundo o embaixador, "não se amoldaria a uma fachada de autonomia ou um simulacro de autoridade local e muito menos se deixaria manipular por agentes deste ou outro departamento português, como sucederia não passado muito tempo com um dos notáveis do agrupamento de Amílcar Cabral".
Gonzaga Ferreira reitera que "alguns responsáveis militares, e dos mais notáveis, que logo começaram apalpando terreno e se decidiram a certa altura, fins de 1962 e primeiros meses de 1963, por não se limitarem a sondagens e avançar com um programa que, de haver sido aceite, significaria a adesão pura e simples não tanto à iniciativa de Umaro Gano Samba Baldé e Benjamim Pinto BulI, mas ao seu ideário, e ao mesmo tempo uma fractura importante do PAIGC em toda a região norte, e não só posto que a sudeste algo mexia na mesma direcção".
Fora de Dacar, sublinha Gonzaga Ferreira, não houve confrontação entre a UNGP e o PAIGC e "a que houve em Dacar, no plano político, a UNGP levou a melhor, pelo que a tese da inevitabilidade da solução Amílcar e do PAIGC não está provada".
A missão chefiada por Silva Cunha com o objectivo expressamente consentido por Salazar, mas pouco depois traído pelo ditador, para negociações formais com uma delegação da UNGP em Bissau tinha em vista o reconhecimento oficial da organização por Portugal, admtindo-se que, na direcção da reclamada autonomia, Benjamim Pinto Bull fosse empossado como secretário-geral do governo da colónia.
Com a falta de Salazar à palavra dada, Benjamim Pinto BulI anuncia de imediato a convocação de uma assembleia geral da UNGP "a fim de rever radicalmente os seus estatutos", acrescentando que "não pode aceitar o convite para enviar uma delegação a Bissau para discutir a aplicação da lei-quadro" e numa segunda fase decreta a dissolução da organização. »



78-Os Reordenamentos

Segundo Francisco Proença de Garcia (in http://www.triplov.com/miguel_garcia/guine/cap4_autoridades_portug.htm), a organização das tabancas em autodefesa e o reordenamento das populações, na Guiné, foi determinada em 30 de Setembro de 1968 (Comando-Chefe das Forças Armadas da Guiné, Directiva Nº. 43, de 30 de Setembro de 1968, Secreto). A “(...) política de agrupar populações em aldeamentos protegidos, representava uma cópia parcial da estratégia americana no Vietname e visava proteger a população rural dos insurrectos (...)”, envolvendo responsabilidades acrescentadas para o Governo e para as Forças Armadas, perante as populações e, assim, as medidas adoptadas deveriam revelar-se eficazes, no tocante à segurança das populações e dos meios de subsistência; em Dezembro de 1971, havia 46 tabancas organizadas em autodefesa, 341 com armamento distribuído e 26 em que os seus elementos colaboravam com as tropas portuguesas, perfazendo um total de 11163 armas distribuídas à população (Comando-Chefe das Forças Armadas da Guiné, Relatório de Comando, Secreto, 1971). Foram os "Reordenamentos", assim conhecidos. Visavam impossibilitar ou dificultar os contactos directos dos insurrectos com as populações, procurando inviabilizar a máxima de Mao Tse-Tung: "o guerrilheiro está para o povo como o peixe está para a água". E as tabancas em auto-defesa incluiam-se na estratégia de Spinola de africanização da guerra.