(Texto do Daniel de Matos)
Infelizmente, o meu amigo Daniel de Matos, autor desta linhas, faleceu no dia 13 de Novembro de 2011
17 de Maio
Acordo estremunhado sob o efeito de novos ataques de artilharia, com granadas a cair bem no interior do quartel. Os Obus 10,5 reagem prontamente sob as ordens do comandante (tenente-coronel Correia de Campos) e fazem um longo batimento de zona, conseguindo calar os disparos inimigos. Os canos são também apontados para o interior senegalês, dizem-me que visam certamente atingir a base de Koumbamory. São disparados mais de 40 tiros de Obus. O nosso cabo artilheiro que coabita o quarto subterrâneo que “ocupámos” confidenciou-me que em todo o quartel restam unicamente 39 granadas de calibre 10,5 e que as deve poupar para qualquer eventualidade futura. O certo é que nos dias seguintes a artilharia deixará mesmo de reagir aos repetidos ataques inimigos, essa tarefa ficará a cargo dos Morteiros 81, talvez somente para marcar presença, para demonstrar que estamos vivos!
Entretanto, está em andamento a grande operação Ametista Real. Com efeito, prepara-se uma acção de gigantescas proporções para o envolvimento da principal base inimiga. O Objectivo é aniquilar ou reduzir a capacidade bélica de um IN que contará com cerca de 650 efectivos concentrados ali à volta, uma acção que ponha fim ao actual isolamento da guarnição de Guidaje, que nos permita evacuar os feridos e tratar do reabastecimento de géneros, de medicamentos, até mesmo de urnas!...
18 de Maio
No cerne da operação, que será comandada pelo major João de Almeida Bruno (antigo comandante do Centro de Operações Especiais) e pelos capitães António Ramos (agrupamento Romeu, do tenente Quiseco), Matos Gomes (agrupamento Bombox, do tenente Zacarias Saiegh) e Raul Folques (agrupamento Centauro, do tenente Jamanca), está o Batalhão de Comandos Africanos. A par do agrupamento Romeu desloca-se o Grupo Especial (do Centro de Operações Especiais), hábil em demolições, comandado pelo alferes Marcelino da Mata.
O capitão António Ramos já faleceu; os capitães Raul Folques e Matos Gomes são hoje coronéis. Este último tem sido porventura o militar mais empenhado em estudar e contar a História das guerras coloniais (nas três frentes – Guiné, Angola e Moçambique); e também tem obra relevante publicada no domínio da ficção/literatura de guerra, sob o pseudónimo de Carlos Vale Ferraz (destaco Nó Cego, obra inspirada na operação Nó Górdio, em Moçambique ordenada pelo general Kaúlza de Arriaga e condenada por toda a comunidade internacional), entre os seus romances de ficção ASP – De Passo Trocado, Soldado, Os Lobos Não Usam Coleira, este adaptado ao cinema por António Pedro de Vasconcelos com o título”Os Imortais”, O Livro das Maravilhas e Flamingos Dourados).
Os cerca de 450 homens envolvidos na Operação Ametista Real saem este sábado de Bissau e chegam a Ganturé, transportados a bordo de uma LDG (lancha de desembarque grande) e duas LFG (lanchas de fiscalização grandes).
A base fluvial de Ganturé, a 5 quilómetros de Bigene e na margem do Cacheu, quase não tinha estruturas. Contou-nos um marinheiro, de rosto bem queimado pelo abrasador sol africano e que chefiava uma esquadra, que foi o Destacamento de Fuzileiros Especiais nº 4 que recebeu a incumbência de as (re)construir, desde o mês passado. Assim, receberam em Abril, por via fluvial, uma montanha de bidões de combustível vazios, a que haviam que cortar as tampas e encher de terra, com o que montaram a estrutura lateral do “quartel”, colocando por cima as chapas de zinco, como era de uso na engenharia tradicional dos tempos de guerra. Em simultâneo, cavaram abrigos subterrâneos e as imprescindíveis valas, não esquecendo o insubstituível bar para as horas de ócio…
Diz-se que o batalhão de comandos africanos é especializado em acções fora do território, talhado para intervir nos países vizinhos. Daí os comandos vestirem muitas vezes fardas turras e usarem, também com frequência, o mesmo armamento (à medida que se vão capturando as Kalashnikov, os lança-granadas foguete RPG-2 e RPG-7, as espingardas automáticas Simonov, as metralhadoras ligeiras Degtyarev e pesada Goryounov, utilizadas pelo PAIGC)…
As Kalashnikov usam balas de calibre idêntico (7,62 mm ) às das G3 que nós utilizamos. Manejam-se, contudo, com muito mais facilidade: desde logo, por serem mais leves (menos 225 gramas ) e quinze centímetros mais curtas; e porque os seus carregadores comportam trinta cartuchos, mais dez que os vinte da nossa G3. Ora, salvo em situações/operações excepcionais, cada soldado das NT leva para o mato um carregador na arma (permite-lhe dar vinte tiros) e quatro cartucheiras no cinturão (cada uma com um carregador de vinte, o que permite dar oitenta tiros, – cem no total); enquanto que um guerrilheiro do PAIGC, com menos peso e melhor operacionalidade, pode disparar por cento e cinquenta vezes…
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